De Chicago ao Vaticano: quem é Leão XIV

A Igreja Católica vive hoje um daqueles momentos que entram para os livros de história. Robert Francis Prevost, cardeal americano nascido em Chicago em 1955, foi eleito nesta quinta-feira (8) como o novo Papa, adotando o nome de Leão XIV. E não é pouca coisa: além de ser o primeiro pontífice nascido nos Estados Unidos, ele carrega consigo uma trajetória que já aponta para o tom do seu pontificado – pastoral, internacional e sintonizado com os desafios do presente.

Membro da Ordem de Santo Agostinho, Prevost tem uma longa história com a América Latina. Viveu por duas décadas no Peru, onde foi missionário, depois bispo, e chegou a se naturalizar cidadão peruano. Conhece o trabalho de base, sabe o que é servir em comunidades com poucos recursos, e tem uma escuta que parece ter vindo dali – longe dos salões de mármore do Vaticano. Seu retorno a Roma veio pelas mãos do Papa Francisco, que o nomeou, em 2023, prefeito do Dicastério para os Bispos – ou seja, o homem que passou a escolher os bispos do mundo inteiro. A confiança era evidente.

Ao escolher o nome de Leão XIV, ele estabelece um elo direto com Leão XIII, o papa que no fim do século XIX sacudiu a Igreja com reformas sociais e com a encíclica Rerum Novarum, que abordava a questão operária e os direitos dos trabalhadores. Não é uma escolha neutra. Num momento em que o mundo vive polarizações, retrocessos democráticos e uma nova onda de desigualdade, Leão XIV parece nos dizer desde o início que sua prioridade é a justiça social e o compromisso com os mais vulneráveis. Soa também como uma continuação natural da agenda iniciada por Francisco: acolhimento, descentralização e um olhar globalizado sobre o catolicismo.

Sua eleição também sinaliza uma nova virada geográfica dentro da Igreja. Se a eleição de Francisco, em 2013, foi um momento histórico por ser o primeiro papa latino-americano, Leão XIV, embora americano, traz consigo a bagagem da América Latina em sua formação e missão. Ele conhece o Sul global por dentro. E conhece também a realidade eclesial da América do Norte, com todos os seus desafios: a secularização acelerada, os escândalos que marcaram profundamente a Igreja, mas também uma base de fiéis crítica, ativa e diversa.

Ninguém espera revoluções doutrinárias no curto prazo, mas é possível apostar em continuidade com renovação. Um pontificado voltado para o diálogo, para a escuta e, quem sabe, para abrir espaços onde antes só havia muros. O estilo Prevost é discreto, mas consistente. Não há carisma midiático, e talvez isso jogue a favor: ele parece disposto a ser pastor antes de tudo.

A Igreja inicia agora o pontificado de Leão XIV com expectativas elevadas. E a escolha do nome já antecipa o desejo de deixar um legado: se Leão XIII foi o papa que introduziu a Doutrina Social da Igreja no mundo moderno, seu sucessor do século XXI talvez queira ser lembrado como aquele que reconectou essa tradição às urgências do nosso tempo.


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