Foi em 13 de maio de 1917, em meio aos campos da Cova da Iria, nas proximidades de Fátima, uma pequena aldeia no centro de Portugal, que três crianças pastoras afirmaram ter visto “uma senhora mais brilhante que o sol”. Era o começo de um dos eventos religiosos mais influentes e controversos do século 20: as aparições de Nossa Senhora de Fátima. As videntes eram Lúcia dos Santos, de 10 anos, e seus primos Francisco e Jacinta Marto, de 9 e 7 anos. As mensagens que disseram ter recebido — visões do inferno, pedidos de penitência, preces pela conversão do mundo — atravessaram o tempo, foram acolhidas e também contestadas, gerando debates teológicos, políticos e culturais que reverberam até hoje.
Segundo os relatos, a aparição de 13 de maio foi a primeira de uma série de seis encontros mensais com a Virgem Maria, que sempre ocorria no mesmo dia, entre maio e outubro de 1917. As crianças descreveram-na como uma mulher vestida de branco, com um manto bordado de ouro, segurando um rosário. A senhora lhes pediu que rezassem diariamente pela paz no mundo, especialmente pelo fim da Primeira Guerra Mundial, então em pleno curso. As palavras da aparição, segundo Lúcia, estavam carregadas de urgência espiritual: conversão, penitência, oração, especialmente o rosário, eram os caminhos indicados para evitar o sofrimento humano e a perdição das almas.

Durante a segunda e a terceira aparições, em junho e julho, Nossa Senhora começou a revelar o que mais tarde ficaria conhecido como os três segredos de Fátima. Na ocasião, apenas Lúcia escutava a voz da Virgem, enquanto os primos viam, mas não ouviam. O primeiro segredo era uma visão do inferno — que, segundo Lúcia, mostrava um mar de fogo com almas em desespero e demônios em formas horrendas. Era uma imagem fortemente simbólica, usada para reforçar o apelo à conversão e à oração.
O segundo segredo envolvia um chamado à consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Nossa Senhora teria dito que, se a Rússia não fosse consagrada, espalharia “seus erros pelo mundo”, uma referência amplamente interpretada como uma antecipação da revolução bolchevique e da propagação do comunismo ateu. Essa parte da mensagem fez com que Fátima fosse, ao longo do século 20, interpretada por muitos dentro da Igreja (e fora dela) como uma advertência com implicações geopolíticas. Diversos papas fariam consagrações ao Imaculado Coração de Maria, com destaque para João Paulo II, em 1984.
O terceiro segredo foi, por décadas, o mais polêmico. Lúcia escreveu-o em 1944, a pedido do bispo local, mas pediu que só fosse revelado após 1960, “quando se entenderia melhor”. O Vaticano manteve o conteúdo guardado até o ano 2000, alimentando especulações que iam de previsões sobre o fim do mundo até o assassinato de um papa. Quando finalmente foi divulgado, o terceiro segredo revelou-se uma visão simbólica de um “bispo vestido de branco” (amplamente identificado como o papa) subindo uma montanha, passando por ruínas e cadáveres, e sendo morto por soldados. O Vaticano interpretou essa visão como uma profecia do atentado sofrido por João Paulo II em 13 de maio de 1981 — data que reforça a mística em torno do dia 13 de maio como central nas aparições.
A reação às aparições foi, desde o início, dividida. Enquanto muitos habitantes da região acreditaram nas crianças e começaram a acorrer ao local, a Igreja Católica inicialmente reagiu com prudência. As autoridades civis portuguesas chegaram a prender e interrogar os pequenos videntes, temendo agitação popular e associando os relatos a alucinações ou manipulação. Ainda assim, as multidões cresceram a cada mês, e no dia 13 de outubro de 1917, uma multidão de mais de 70 mil pessoas se reuniu na Cova da Iria. Foi nesse dia que teria ocorrido o chamado “Milagre do Sol” — um fenômeno testemunhado por muitos, em que o sol teria “dançado” no céu, girado sobre si mesmo e lançado feixes de luz multicolorida, antes de parecer cair sobre a multidão e voltar à sua posição normal. Muitos viram o evento como confirmação das aparições. Outros o explicaram como um fenômeno meteorológico ou psicológico coletivo.
Com o passar dos anos, a devoção a Nossa Senhora de Fátima se espalhou pelo mundo. A Igreja reconheceu oficialmente a veracidade das aparições em 1930. Francisco e Jacinta morreram ainda crianças, vítimas da gripe espanhola, e foram canonizados pelo Papa Francisco em 2017, ano do centenário das aparições. Lúcia tornou-se freira carmelita e viveu até 2005, sendo também declarada “venerável” em 2023, com processo de beatificação em curso.

Hoje, o santuário de Fátima é um dos maiores destinos de peregrinação mariana do mundo, visitado por milhões de fiéis todos os anos. O dia 13 de maio tornou-se uma data sagrada, celebrada não apenas em Portugal, mas em inúmeras nações onde a devoção à Virgem é forte — incluindo o Brasil, que mantém uma ligação profunda com Nossa Senhora de Fátima. A data evoca não só a aparição inicial, mas todo o conteúdo simbólico que ela carrega: a presença da fé em tempos de guerra e sofrimento, o papel das crianças como mensageiras do divino, o apelo à oração como resistência espiritual diante do mal.
Mais de um século depois, as aparições de Fátima continuam sendo um enigma que combina religião, política, misticismo e cultura. Sejam vistas como fato sobrenatural, metáfora histórica ou fenômeno coletivo de fé, elas permanecem vivas no imaginário católico e no coração de milhões de devotos. Em cada 13 de maio, a Senhora que apareceu aos pequenos pastores ressurge nas orações de um mundo que ainda busca, como naquela época, sentido e consolo.
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