Na madrugada gelada de 13 de novembro de 2022, quatro estudantes da Universidade de Idaho foram brutalmente assassinados em uma casa fora do campus, na cidade de Moscow, considerada uma das mais seguras do estado. Ethan Chapin, Xana Kernodle, Madison Mogen e Kaylee Goncalves tinham entre 20 e 21 anos e dormiam quando foram mortos a facadas em um ataque que permanece, até hoje, cercado de dúvidas e teorias. A cidade, que não registrava homicídios há anos, tornou-se centro de um dos casos criminais mais discutidos dos últimos tempos nos Estados Unidos. Eu estava no país quando a notícia chegou aos noticiários, meses antes da identificação do suspeito e o impacto da brutalidade do crime ainda é real como aquele momento há três anos.
O principal suspeito é Bryan Kohberger, que foi preso seis semanas depois, em 30 de dezembro, na Pensilvânia, após uma investigação que combinou DNA, rastreamento de celular e vigilância por câmeras de segurança. Estudante de doutorado em criminologia na Universidade Estadual de Washington, Kohberger morava a apenas 13 km do local do crime. A acusação sustenta que ele visitou repetidamente a casa das vítimas antes do assassinato, e que seu carro, um Hyundai Elantra branco, foi flagrado circulando pelas redondezas na noite do crime. Uma bainha de faca com seu DNA foi encontrada na cena. Kohberger se declarou inocente.

Desde então, o caso ganhou contornos de fenômeno cultural. Em abril de 2025, a NBC exibiu um episódio especial do Dateline intitulado The Night of the Idaho Student Murders, com entrevistas com familiares e especialistas, registros inéditos e análises psicológicas do comportamento de Kohberger antes e depois do crime. Um dos trechos mais impactantes mostra a mãe de Kaylee Goncalves descrevendo a luta para manter a memória da filha viva enquanto enfrenta um processo judicial que se arrasta há mais de dois anos.
O julgamento de Kohberger está previsto para começar em 11 de agosto de 2025, em Boise, capital do estado, após a mudança de local ter sido aprovada para garantir um júri imparcial. A seleção dos jurados começa em 30 de julho. O Ministério Público busca a pena de morte, alegando que o crime foi planejado, cruel e sem motivação aparente. A defesa tentou barrar essa possibilidade alegando que o réu está no espectro autista, o que poderia torná-lo inelegível para execução. O argumento foi rejeitado.
As comparações com Ted Bundy logo começaram a surgir — e com razão. Ambos eram estudantes universitários com interesse declarado em criminologia, agiam em cidades universitárias e atacavam vítimas jovens, geralmente mulheres. No caso de Kohberger, descobriu-se que ele pesquisava padrões de comportamento de criminosos violentos e chegou a conduzir questionários online com perguntas sobre emoções e pensamentos de pessoas que cometeram assassinatos. Embora Bundy tenha projetado uma imagem carismática e manipuladora, e Kohberger seja descrito como socialmente deslocado e obsessivo, os paralelos são inevitáveis — e, para muitos, inquietantes.

A comoção em torno do crime de Idaho se deve a uma combinação poderosa de fatores: a brutalidade do ataque, o fato de as vítimas serem jovens universitários, o cenário improvável (uma casa em uma cidade pacata), e o perfil do suspeito — um estudante de doutorado em criminologia que parecia estudar o mesmo tipo de crime que passou a ser acusado de cometer. A ampla cobertura da mídia tradicional e o impacto nas redes sociais amplificaram ainda mais o caso. Vídeos, podcasts, documentários e teorias de internautas alimentaram uma curiosidade coletiva que lembra outros julgamentos emblemáticos, como os de O.J. Simpson, Scott Peterson e os irmãos Menéndez.
À medida que o julgamento se aproxima, cresce a expectativa por respostas. A motivação do crime, até agora, permanece desconhecida — e talvez seja esse o ponto mais perturbador. A ausência de um motivo claro não apenas aprofunda o mistério como também desafia qualquer tentativa de racionalizar a violência.
Independentemente do veredito, o caso dos estudantes de Idaho já entrou para a história como um marco na intersecção entre crime, cultura pop e mídia. Ele revela as fissuras de uma sociedade que oscila entre o desejo por justiça e o fascínio por histórias reais de horror — e que, mais uma vez, precisa encarar a dolorosa pergunta: até que ponto estamos preparados para ouvir as respostas?
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