Yuri Grigorovich foi um dos coreógrafos mais influentes da história do balé russo, tendo moldado a identidade artística do Teatro Bolshoi por mais de três décadas, especialmente durante o auge soviético da companhia. Seu estilo é marcado por uma combinação de monumentalidade épica, fisicalidade atlética e psicologia dramática.
Grigorovich redefiniu o balé narrativo ao priorizar a coerência interna da trama e o papel ativo dos protagonistas masculinos, muitas vezes vistos como heróis trágicos. Entre suas obras mais emblemáticas estão Spartacus (1968), uma ode à liberdade com música de Aram Khachaturian, centrada em um herói revolucionário; Ivan, o Terrível (1975), um retrato intenso e sombrio do czar russo com música de Prokofiev; sua reinterpretação de Romeu e Julieta (1979), que enfatiza o conflito sociopolítico e o destino das juventudes oprimidas; a versão simbólica e introspectiva de O Lago dos Cisnes (1969); e The Flower Stone (1959). Com esses balés, Grigorovich construiu uma linguagem coreográfica que une técnica rigorosa, expressividade teatral e valores épicos, transformando o Bolshoi em sinônimo de balé espetáculo.

A Flor de Pedra
Na Rússia, ainda mais do que Spartacus, é o ballet The Stone Flower que é considerado a obra-prima de Yuri Grigorovich. Ele trouxe os dois ao Brasil quando o Bolshoi veio ao país pela primeira vez, em 1986.
Baseado no conto folclórico dos Urais escrito por Pavel Bazhov, com música de Sergei Prokofiev em seu último grande trabalho para ballet, Yuri Grigorovich criou sua versão coreográfica em 1959, moldando o papel masculino principal como um artesão que busca não apenas lapidar pedras preciosas, mas alcançar a perfeição artística — ainda que para isso precise romper os limites do mundo terreno. É possível ver algo bem próximo das danças folclóricas russas incorporadas na técnica clássica, por isso sua popularidade em casa.
O balé coloca Danila, o artesão, diante de uma escolha: entregar-se à Dama da Montanha, com sua promessa de perfeição criativa, ou retornar ao mundo real, onde o amor por Katerina — a noiva simples e fiel — o aguarda.
Aqui então três momentos famosos de The Stone Flower: primeiro o solo de Danila com um dos astros mais enigmáticos do balé soviético, Yuri Soloviev que foi a epítome do bailarino lírico-heroico de técnica aérea impecável, aterrissagens quase sobrenaturais, e uma sensibilidade que fluía dos olhos aos dedos dos pés. Seu virtuosismo não era apenas físico — havia nele uma melancolia silenciosa, uma delicadeza interior que o tornava inconfundível. Ele faleceu de forma suspeita com apenas 36 anos, mas isso é outra história. Soloviev incorporou Danila como nenhum outro, representando a alma do povo russo, assim como a busca pelo belo e o amor terreno.
Embora anos depois, a lendária Maya Plisetskaya, tenha brigado com Grigorovich, em 1959 ela foi uma das estrelas de The Stone Flower. Aliás, ela dançou os dois papéis femininos – a Senhora da Montanha de Cobre e Katia – mas ficou famosa por ter criado o papel da Senhora nas produções de Mikhail Lavrovsky (1954) e Grigorovich (1959).
E aqui, sob a direção de Grigorovich, Nina Semizorova, Nadezhda Gratcheva e Andrey Kondratov em outros momentos do ballet.
Spartacus
Poucos balés sintetizam tão bem a grandiosidade épica da escola soviética quanto Spartacus, composto por Aram Khachaturian e coreografado em sua versão mais célebre por Yuri Grigorovich para o Bolshoi, em 1968. A história do gladiador trácio que lidera uma revolta contra Roma ganha contornos monumentais no palco, com passagens de intensa carga dramática, duetos de grande lirismo e coreografias de conjunto que exploram o peso, a virilidade e a tensão física — uma inversão da leveza etérea associada ao balé clássico.
No papel-título, Vladimir Vasiliev fez história ao redefinir o ideal do bailarino masculino, combinando força atlética, musicalidade e uma expressividade visceral que lhe valeu o apelido de “deus da dança”. Seus registros em vídeo, ao lado de Ekaterina Maximova e outros grandes nomes do Bolshoi, continuam sendo referência absoluta para intérpretes posteriores como Irek Mukhamedov (que dançou o papel no Brasil em 1986) e também Carlos Acosta, cada um trazendo novas camadas a essa figura trágica de liberdade e sacrifício. Abaixo, alguns dos momentos mais marcantes em diferentes gerações.
Ivan, o Terrível
Pra mim, Ivan, o Terrível é o trabalho de gênio de Grigorovich e o “Giselle” dos bailarinos homens. Ivan, o Terrível é talvez o balé mais sombrio e psicologicamente denso criado por Yuri Grigorovich, com música poderosa de Sergei Prokofiev originalmente composta para o filme homônimo de Eisenstein.
Estreado pelo Balé Bolshoi em 1975, o espetáculo dramatiza a ascensão e a derrocada do primeiro czar da Rússia com coreografias marcadas por tensão, teatralidade e conflitos interiores. Mais do que retratar um monarca histórico, Grigorovich compôs um retrato trágico de poder e paranoia, tornando o protagonista uma figura dilacerada entre a glória e a culpa.
No papel de Ivan, Yuri Vladimirov foi o primeiro a encarnar essa presença atormentada, mas foi Mikhail Lavrovsky quem deixou uma das interpretações mais icônicas, ao lado da delicada e intensa Natalia Bessmertnova como Anastasia. O balé se tornou uma vitrine do estilo coreográfico de Grigorovich: masculino, simbólico, grandioso e profundamente ideológico. Ainda hoje, produções posteriores com artistas como Denis Rodkin mantêm viva essa obra que permanece como um dos pontos altos da dramaturgia soviética no balé. A seguir, uma seleção de vídeos com diferentes gerações de intérpretes que vestiram a coroa pesada do czar Ivan.
E o que dizer do solo inesquecível que Grigorovich criou para Bessmertnova?
Romeo and Juliet
A versão de Romeu e Julieta coreografada por Yuri Grigorovich para o Balé Bolshoi é uma releitura poderosa e estilizada da clássica tragédia de Shakespeare, embalada pela inesquecível partitura de Sergei Prokofiev.
Estreada em 1979, essa montagem difere das versões mais líricas ao enfatizar o conflito político entre as famílias Capuleto e Montecchio, criando um pano de fundo sombrio e quase ritualístico para o drama dos jovens amantes. Grigorovich imprime sua assinatura estética ao longo de toda a coreografia, com movimentos amplos, diagonais tensas e um trabalho corporal que privilegia a expressividade heroica — em especial nas figuras masculinas.
Ao mesmo tempo, não abandona o lirismo trágico da protagonista feminina, oferecendo a Julieta uma trajetória que vai da ingenuidade à coragem desesperada. Essa montagem consagrou estrelas do Bolshoi como Natalia Bessmertnova e Irek Mukhamedov, cujas performances gravadas se tornaram referência mundial. É uma leitura que, mais do que reproduzir o texto shakespeariano, extrai da música de Prokofiev uma coreografia de tensões morais e afetivas, onde cada gesto parece conter o peso de um destino irremediável. A seguir, vídeos com diferentes elencos que mostram a permanência dessa versão no repertório do Bolshoi e sua força simbólica até hoje.
Ele também fez essa linda versão com a música de Tchaikovsky
O Lago dos Cisnes
Diferentemente das versões românticas tradicionais, Grigorovich opta por um enfoque mais psicológico e simbólico, centrando a narrativa no príncipe Siegfried como protagonista trágico. Em sua leitura, o lago e os cisnes passam a representar não apenas o encantamento e o amor impossível, mas também o mundo interno do herói — seus desejos, dúvidas e ilusões.
A figura de Rothbart, o vilão, é transformada num ser demoníaco que atua como força do destino ou da repressão, muitas vezes dançando com protagonismo inédito. A dualidade entre Odette e Odile é exaltada com intensidade dramática, reforçada pela grandiosidade cenográfica e pelo estilo atlético e teatral característico do Bolshoi.
Em vez de um final conciliador ou redentor, Grigorovich entrega uma conclusão ambígua e sombria, onde o sacrifício é inevitável e a realidade se impõe ao sonho. Grandes estrelas como Natalia Bessmertnova e Irek Mukhamedov marcaram época nessa montagem, que continua a ser apresentada como uma assinatura do estilo soviético de balé: grandioso, expressivo e profundamente trágico.
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