Nunca pensei que esse dia chegaria, mas estou com preguiça de ver a terceira temporada de And Just Like That, que estreia dia 29 com 12 episódios semanais (toda quinta). E não é só pela correria da vida, pelos algoritmos que desviam a atenção ou pelo cansaço crônico de quem já acompanha séries demais. É uma preguiça mais profunda, quase simbólica. Uma vontade de preservar a Carrie Bradshaw que vive na minha memória — antes que ela se perca de vez nessa versão reciclada, esticada, pouco convincente de si mesma.

Se estão achando que exagero, vejam o resumo da temporada: “a série continuará explorando a vida de Carrie, Miranda e Charlotte enquanto enfrentam os desafios da amizade, amor e carreira na faixa dos 50 anos em Nova York”. Não há nada além do que já vimos? Ah sim, “a temporada promete introduzir novos personagens e tramas, incluindo interesses amorosos inéditos e desafios pessoais para as protagonistas”. Tampouco soa novo. Pelo menos Michael Patrick King, criador da série, revelou que a narração em off de Carrie Bradshaw retornará nesta temporada, porque ela está escrevendo um novo livro (ficção dessa vez) e essa escolha visa reconectar a personagem com sua essência original e oferecer uma perspectiva mais íntima ao público.
Estar com essa falta de ansiedade por uma franquia que amo e acompanho há três décadas é esquisito. Sex and the City foi revolucionária, quando estreou em 1998, ela ofereceu algo inédito para a televisão: mulheres solteiras, com mais de trinta anos, discutindo sexo, carreira, amizade e frustração amorosa sem pedir desculpas. Nova York era a quinta personagem, sim — mas era o quarteto de protagonistas que nos levava para passear pela cidade e, mais importante, para dentro de nós mesmas. A série não era perfeita, e já naquela época era possível apontar os recortes de classe, raça e um certo elitismo fashionista. Mas havia frescor, ousadia e, principalmente, identificação. A dor de uma rejeição, o medo do abandono, a busca por sentido em meio ao caos dos relacionamentos modernos — tudo estava ali.

Depois vieram os filmes. O primeiro, em 2008, foi um presente nostálgico para quem estava com saudades. O segundo, em 2010, já soava deslocado, exótico no pior sentido, como se as personagens tivessem sido transformadas em caricaturas de luxo e superficialidade. Mesmo assim, ainda havia algum laço emocional. Mas então chegou And Just Like That, e com ela, uma tentativa desajeitada de atualizar a série para o mundo atual — e agradar a todos.
Não deu certo.
A série quis corrigir erros do passado, mas acabou criando novos ruídos. A ausência de Samantha Jones deixou um buraco difícil de preencher, mesmo com menções constantes e um retorno relâmpago sem impacto real. Miranda Robbes foi desconstruída até virar outra pessoa — o que poderia ser interessante, se tivesse sido feito com mais profundidade e menos pressa. Charlotte Goldenblatt parece presa no mesmo looping de dilemas sobre maternidade e perfeccionismo. E Carrie… Carrie se tornou o centro de uma narrativa cada vez mais dispersa, oscilando entre tentativas de amadurecimento e recaídas em uma persona que já não se sustenta mais. Sem entrar na matemática de mulheres de 30 e muitos nos anos 1990s serem chamadas de cinquentonas três décadas depois. Estamos acompanhado as desventuras de mulheres de 60, por que maquiar a idade?

Não sei se And Just Like That perdeu o público antigo ou se o público antigo é que cansou de tentar manter o mesmo olhar de antes. Também não sei se a série conseguiu de fato conquistar um novo público — me parece que não. O que vejo é um certo desgaste: de fórmulas, de diálogos, de relevância. A série tenta tocar em pautas importantes, mas às vezes soa como se estivesse lendo um manual de inclusão em vez de contar histórias orgânicas. O timing, que era o grande trunfo de Sex and the City, agora parece sempre fora do compasso.
Por um tempo, estranhei que mesmo as fotos das gravações em Nova York tenham revelado tão pouco. Nas temporadas anteriores houve vazamentos, deciframos algumas novidades. Agora? É um desfile de figurinos fashionistas que funcionam em Sarah Jessica Parker mas parecem fantasias nas demais. As imagens oficiais já liberadas pela HBO MAX são inssossas: Carrie na cozinha de sua nova casa, na mesinha olhando para a janela, ou tomando drinks com Charlotte e Miranda. Falando nas duas: Charlotte andando com os cachorros, Miranda no escritório retomando a carreira. Sério, dá sono.

Talvez eu volte a assistir, por lealdade ou pura curiosidade. Mas, por ora, prefiro lembrar da Carrie que escreveu sobre sapatos e desamores com uma máquina de escrever no apartamento mais improvável de Nova York. Aquela Carrie que, com todas as suas falhas, ainda nos fazia rir, chorar e — por que não? — sonhar. Veremos em uma semana se mudo de ideia.
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