Bastou Meghan Markle colocar a citação “we were together and I forget the rest” (nós estávamos juntos e esqueci o resto), do poeta Walt Whitman, que veio o melhor pretexto para lembrar os 170 anos de Leaves of Grass, a coletânea de poemas do americano, reeditada ao longo de sua vida e uma espécie de obra em evolução contínua, um retrato do próprio autor e de sua visão da América ao longo das décadas.
E é isso: há livros que mudam a literatura. Poucos, porém, alteram também a maneira como um povo se percebe, se expressa e se imagina. Leaves of Grass é um desses. Publicado pela primeira vez em 1855, em uma edição de apenas 795 cópias financiada e diagramada pelo próprio Whitman, o livro não chegou como uma obra imponente, mas como uma explosão subterrânea — um gesto poético radical que, à revelia das convenções vitorianas e do gosto europeu, fundava uma voz nova, expansiva, profundamente americana.

Walt Whitman foi tipógrafo, jornalista, ensaísta e andarilho. Tinha uma paixão visceral pela vida comum: pelas ruas, pelos corpos, pelas multidões. Essa paixão está em cada linha de Leaves of Grass, que ele reescreveu e expandiu ao longo de quase quatro décadas, em nove edições sucessivas. Ele o descrevia como “um livro vivo”. Ao contrário dos poetas que encerravam suas obras numa forma “acabada”, Whitman tratava seus poemas como organismos em crescimento.
Com cada edição, ele acrescentava novos versos, novos capítulos, novas contradições — e aceitava todas elas. Em “Song of Myself”, ele escreve: “Do I contradict myself? / Very well then I contradict myself, / (I am large, I contain multitudes.)” — uma afirmação de vastidão interior que se tornou, com o tempo, uma das citações mais célebres da literatura mundial.
Eu me contradigo? / Pois bem, eu me contradigo, / (Eu sou grande, eu contenho multidões.)
Walt Whitman, “Canção de Mim Mesmo”
A primeira edição de Leaves of Grass continha apenas 12 poemas (embora alguns fossem longos e divididos em seções), todos sem títulos. O mais conhecido deles viria a ser justamente batizado de “Song of Myself”, uma celebração hedonista, mística e profundamente sensorial do eu — mas não de um ego fechado, e sim de um “eu” poroso, aberto ao outro, ao mundo, à totalidade da experiência humana. “I celebrate myself, and sing myself,” anuncia o poema. Mas logo o eu se confunde com o coletivo: “For every atom belonging to me as good belongs to you.”
A linguagem usada por Whitman era igualmente inovadora. Ele empregava o verso livre — então quase inexistente na poesia em inglês — para criar uma musicalidade próxima da fala, fluida, pulsante. O vocabulário era ao mesmo tempo simples e lírico. Falava de camponeses, operários, marinheiros e prostitutas com a mesma reverência dedicada à natureza ou à metafísica. Seu erotismo era explícito, mas sempre ancorado na espiritualidade do corpo. A comunhão carnal era também uma comunhão cósmica. Isso chocou críticos conservadores e provocou censura. Alguns editores se recusavam a publicar seus textos; bibliotecas proibiram o livro; um funcionário público chegou a ser demitido por recomendar a leitura da obra. E, no entanto, desde sua publicação inicial, Leaves of Grass encontrou admiradores ilustres, como Ralph Waldo Emerson, que escreveu uma carta famosa ao autor reconhecendo o surgimento de uma nova e poderosa voz poética.

Entre os trechos mais repetidos estão:
“I sound my barbaric yawp over the roofs of the world.”
“Eu lanço meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.”
“Be curious, not judgmental.” – “Seja curioso, não julgue.” (atribuído a Whitman, mas na verdade uma paráfrase moderna sem origem exata no texto original)
“I am not contained between my hat and my boots.”
“Não estou contido entre meu chapéu e minhas botas.”
“I have learned that to be with those I like is enough.”
“Aprendi que estar com quem eu gosto é suficiente.”
E, claro, a célebre frase que viralizou com a cultura pop contemporânea: “We were together. I forget the rest.” Essa citação — constantemente reproduzida em filmes, tatuagens, camisetas e redes sociais — é, na verdade, uma simplificação moderna de um trecho mais longo e mais belo do poema “Song of Myself”. No original, lemos:
“Day by day and night by night we were together—
All else has long been forgotten by me.”
“Dia após dia e noite após noite estávamos juntos —
Todo o resto já foi esquecido por mim.”
Nesse trecho, Whitman descreve uma experiência de intimidade tão profunda que apaga as bordas da memória. Tudo o que importa, diz o poeta, é o tempo partilhado com o outro. O resto — o barulho do mundo, as datas, as obrigações — desvanece. A essência do momento vivido juntos permanece, quase sagrada. Esse fragmento tornou-se um dos versos mais subestimados da obra, mas sua força afetiva o transformou num símbolo contemporâneo do amor absoluto, silencioso e inteiro.
Leaves of Grass também tem um papel histórico inegável. Ao incorporar o corpo e o desejo homoerótico como matéria poética legítima, Whitman se tornou pioneiro da literatura queer — embora ele mesmo jamais tenha se assumido nesses termos. Ao louvar a paisagem americana e as classes trabalhadoras, contribuiu para a construção de um imaginário democrático e inclusivo, mesmo que idealizado. E ao se recusar a domesticar seus sentimentos em formas rígidas, abriu caminho para as vanguardas do século 20, influenciando autores como Allen Ginsberg, Langston Hughes, Federico García Lorca, Pablo Neruda, Bob Dylan, Patti Smith, Bruce Springsteen, e mais recentemente Ocean Vuong e Jericho Brown.
Whitman viveu a Guerra Civil Americana como enfermeiro voluntário, testemunhou o colapso de seu país e sentiu o peso da violência histórica. Sua poesia, no entanto, nunca se resigna ao desespero. Há sempre uma centelha de esperança — não religiosa, mas existencial, quase biológica. Para ele, viver já é uma forma de louvor. Respirar é um hino. Amar, uma forma de eternidade.

A famosa passagem do poema “O Captain! My Captain!”, que homenageia Abraham Lincoln, se tornou um símbolo do luto coletivo americano e ressurgiu em momentos históricos, como após o assassinato de Kennedy e, mais tarde, no filme Sociedade dos Poetas Mortos, imortalizando Whitman para novas gerações. Aliás, o filme de 1989 usou outro trecho importante – “I sound my barbaric yawp over the roofs of the world” – com Robin Williams insistindo que o tímido Ethan Hawke vencesse seu bloqueio social e criativo, uma cena emocionante, aliás.
Falando em cinema, o poema I Sing the Body Electric também faz parte da primeira edição de Leaves of Grass, e é um dos poemas mais icônicos do livro. Whitman escreveu esse poema como uma ode radical ao corpo físico em uma época em que temas como sexualidade, igualdade racial e a própria dignidade corporal eram tratados com pudor ou repressão. O poema mistura o espiritual com o carnal e afirma a sacralidade do corpo em suas múltiplas formas, independentemente de gênero, cor ou idade.

A expressão “I sing the body electric” tornou-se famosa e inspirou títulos e obras posteriores — incluindo um episódio de The Twilight Zone (escrito por Ray Bradbury) e um álbum da banda Weather Report. Ela também aparece em músicas, como a canção homônima no filme Fame (1980), fechando o longa. A origem é totalmente whitmaniana: uma exaltação poética e política do corpo como templo e símbolo da liberdade individual.
I sing the body electric,
The armies of those I love engirth me and I engirth themAnd if the body does not do fully as much as the soul?
And if the body were not the soul, what is the soul?
Eu canto o corpo elétrico,
Os exércitos daqueles que amo me cercam e eu os cerco.E se o corpo não fizer tanto quanto a alma?
E se o corpo não fosse a alma, o que seria a alma?

Hoje, Leaves of Grass é considerado um dos maiores livros já escritos em língua inglesa. Mas sua grandeza não está apenas na forma, no conteúdo ou na influência — está, sobretudo, em sua coragem. Coragem de dizer “eu sou tudo o que há” num tempo de repressão. Coragem de incluir o amor como substância política. Coragem de afirmar que cada corpo é sagrado, cada instante, suficiente. Em tempos de fragmentação, pressa e descrença, voltar a Whitman é voltar a uma espécie de origem — onde o poema não era apenas um exercício estético, mas uma forma de existência plena. E, como ele mesmo escreveu:
“The powerful play goes on, and you may contribute a verse.”
“A poderosa peça continua, e você pode contribuir com um verso.”
A pergunta que fica é: qual será o seu verso? (sim, lembrando a cena mencionada de A Sociedade Poetas Mortos).
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