Como publicado no Correio do Estado, na Coluna do Caderno B+
Se Carrie Bradshaw foi um ícone dos 30 aos 40 e tantos anos, agora com 60 ela anda apagada, sem grandes ambições ou conflitos. “No que essa mulher se meteu?”, ela pergunta no final do 1º episódio da 3ª temporada, ouvindo suas fãs que ainda não entederam a razão da série estar tão longe de tudo que a fez tão lendária.
A familiaridade com as personagens – especialmente as novas – ajuda, mas as histórias ainda não refletem os temas que tanto se apreciava quando Carrie, Miranda e Charlotte eram solteiras. Se engana quem acha que a série só falava de achar namorado, abordava tantas outras questões que hoje passam longe da pauta de And Just Like That.

Então, o drama de Charlotte era defender seu buldogue, Richard Burton, ignorando os compromissos com suas filhas, Rock e Lily. Quando isso aconteceria? Só com ela aos 60. Lily já não está mais envolvida com Brady, filho de Miranda, mas está com um namorado bailarino.
Sua vizinha, Lisa, está estressa dom seu projeto para PBS sobre 10 mulheres negras anônimas, tendo que lidar com a nota que sugere que ela inclua Michelle Obama, mesmo que de anônima a ex-primeira dama não tenha nada.
Miranda segue vivendo em Airbnb agora que Nya se foi, mas a casa do Brooklyn foi vendida, espero que agora encontre seu próprio teto. Solteira e querendo explorar todo universo de mulheres gays em Manhattan, Miranda estranhamente aceita passar a noite com uma estranha Mary (Rosie O’Donnell), que acaba se revelando uma freira, mas apenas depois de perder a virgindade com a advogada.
E as duas outras mulheres estão lidando com relacionamentos à distância: Seema que desiste de Ravi e, claro, Carrie, que está tentando manter o namoro com Aidan vivo, mas claramente com o alarme disparando (como o da sua casa) para alertar a dificuldade que é lidar com os dramas familiares de Aidan. A conversa deles é estranha: ele pede para ela não ligar, por isso se falam através de cartões-postais sem palavras e quando estão no telefone, é para fazer sexo. E mesmo assim, estão fora de sintonia. Por isso ela acorda no meio da noite e começa a escrever um livro: “No que essa mulher se meteu?”, ela pergunta.
A pergunta ecoa porque não é só sobre ela. É sobre a série, sobre nós. Sobre o que acontece quando personagens icônicos envelhecem sem que suas histórias envelheçam junto. And Just Like That tenta ser relevante, diversa, moderna — mas ainda tropeça em roteiros apressados, subtramas inconclusas e uma certa dificuldade em aceitar que crescer é mais do que mudar de cidade ou de namorado.


A terceira temporada começa com pequenas promessas: há mais leveza, menos autoimportância, e alguns momentos que lembram o charme da série original. Mas é difícil se envolver de verdade quando as tramas soam deslocadas, como se ninguém ali soubesse bem o que quer contar.
O problema talvez não seja Carrie ter 60. O problema é ela parecer vazia aos 60 — não de dores ou desafios, mas de perspectiva. E nós, que voltamos por afeto, acabamos observando de longe, tentando nos conectar com mulheres que um dia nos pareceram espelhos. Hoje, são vitrines: bonitas, caras, distantes.
E assim, seguimos assistindo mais por nostalgia do que por real entusiasmo, esperando que, quem sabe, uma cena ou outra nos lembre por que um dia essa história nos pegou de jeito. No fundo, a pergunta segue sem resposta — mas a vontade de perguntar já é, por si, sintomática.
No que essa mulher se meteu? Talvez na tentativa de reviver um tempo que já passou. E a gente, junto com ela.
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