Por mais de uma vez a conturbada relação dos irmãos Noel e Liam Ghallagher foi comparada à dos príncipes William e Harry, por mais bizarro que soe. Os dois passaram 15 anos sem se falar pessoalmente (mas trocando farpas em entrevistas e redes sociais), num rompimento que partiu os corações dos fãs ao redor do mundo. E 2025 marca a volta da banda dos dois, a Oasis, numa turnê bilionária e mundial que comprova que em algum momento, o dinheiro falou mais alto que a mágoa. Quem ganha somos nós.

Isso porque poucas bandas conseguiram capturar o espírito de seu tempo com tanta intensidade quanto o Oasis. Nascido em Manchester no início dos anos 1990, o grupo liderado pelos explosivos irmãos Gallagher tornou-se sinônimo de uma era dourada do rock britânico — marcada por arrogância, irreverência, refrões gigantescos e uma confiança que beirava o delírio messiânico. Enquanto o grunge americano mergulhava em angústia, o Oasis olhava para cima, para os Beatles, para o céu, e perguntava: “Don’t you know you might find / a better place to play?”
Em 1994, o disco de estreia Definitely Maybe já mostrava o poder da banda, mas foi com o segundo álbum, “(What’s the Story) Morning Glory?” (1995), que o grupo se tornou um fenômeno global. Com hits como “Wonderwall”, “Don’t Look Back in Anger”, “Some Might Say” e “Champagne Supernova”, o Oasis transformou-se na trilha sonora da juventude britânica pós-Thatcher e, logo, de jovens do mundo inteiro. O britpop tinha seu rei, e a arrogância dos Gallagher era quase um manifesto cultural: ser grande, ser barulhento, ser invencível.

Mas por trás das guitarras ensolaradas e da confiança desafiadora, havia uma bomba-relógio emocional. Os irmãos Gallagher sempre foram combustíveis opostos — Noel, o cérebro melódico e sarcástico; Liam, a voz instintiva, carismática e caótica. As brigas entre eles tornaram-se quase tão lendárias quanto as canções. Durante anos, entrevistas eram campos de batalha verbais, turnês eram travessias em guerra fria e os bastidores, palcos de explosões imprevisíveis.
O fim veio em 2009, quando uma discussão entre os irmãos antes de um show em Paris culminou no que Noel chamou de “um ponto sem retorno”. Ele anunciou sua saída da banda, encerrando abruptamente a história do Oasis. Sem despedida. Sem apoteose. Apenas silêncio — e ressentimento público. Liam seguiu com o Beady Eye, depois em carreira solo, enquanto Noel lançou o High Flying Birds. Ambos lançaram bons discos, mas carregavam o peso do que ficou para trás. Porque, apesar do talento individual, era juntos que causavam impacto sísmico. As duas bandas passaram pelo Brasil ao longo da última década, mas nem reunidas tiveram o mesmo impacto de Oasis.
E então, ao longo da década seguinte, o tempo agiu. O distanciamento, a maturidade (relativa), a pressão constante de jornalistas e fãs. A internet passou a coletar cada microcomentário de Liam no Twitter como se fosse evidência de reconciliação. Rumores de reunião tornaram-se quase uma tradição anual. E, agora, com a confirmação oficial da turnê mundial Oasis Live ’25, é inevitável pensar: o que significa o retorno do Oasis?

Mais do que uma celebração nostálgica, a volta do Oasis é um gesto simbólico. Marca não apenas o reencontro de dois irmãos dilacerados por orgulho e mágoas, mas também a reaproximação de uma geração com sua própria juventude. Ver Liam e Noel no mesmo palco é, para muitos, como reabrir uma carta guardada há anos: um mergulho em emoções cruas, letras que ainda doem ou curam, refrões que nunca perderam o fôlego.
É também um lembrete de que o rock ainda pode ter peso emocional e cultural. Em tempos de algoritmos e descartabilidade sonora, o Oasis representa um período em que a música ainda era ritual coletivo, catarse pública, identidade compartilhada. Uma banda que unia multidões em torno de hinos simples, mas imensos — construídos com três acordes e um coração escancarado.
E, finalmente, há a beleza na própria imperfeição da trajetória. O Oasis nunca foi uma banda “perfeita”. Era desorganizada, impulsiva, cheia de falhas — e, talvez por isso, profundamente humana. Se voltam agora, com rugas, cicatrizes e tudo, voltam mais reais do que nunca. E isso, no fim das contas, pode ser o maior presente para os fãs: não apenas o som que moldou suas vidas, mas a prova de que até os laços mais partidos podem ser remendados. Ao som de uma guitarra suja e de um refrão cantado a plenos pulmões.

Oasis no Brasil: Datas, Expectativas e Histórico
A aguardada turnê mundial Oasis Live ’25 trará a banda de volta ao Brasil após 16 anos de ausência. As apresentações estão marcadas para os dias 22 e 23 de novembro de 2025, no Estádio MorumBIS, em São Paulo.
Esta será a quinta visita do Oasis ao país. As passagens anteriores ocorreram em:
- 1998: Turnê “Be Here Now”, com shows em São Paulo e Rio de Janeiro.
- 2001: Participação no Rock in Rio.
- 2006: Turnê “Don’t Believe the Truth”.
- 2009: Turnê “Dig Out Your Soul”, com apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba. Um show no qual estive, e testemunhei a vibração negativa dos dois que não interagiam no palco, um prelúdio do rompimento meses depois.
A volta da banda ao Brasil é um evento histórico, encerrando a turnê mundial em solo brasileiro e reacendendo a paixão dos fãs que aguardaram por mais de uma década por esse momento. Será incrível.

E se brigarem no meio dos shows como faziam antes? Há risco de cancelar?
Essa é a pergunta que todos os fãs de Oasis se fazem — e não sem motivo. A fama das brigas entre Liam e Noel Gallagher é quase tão lendária quanto a própria banda. Durante a trajetória do Oasis, discussões nos bastidores, ataques públicos, destruição de camarins e cancelamentos de última hora por causa de desentendimentos eram quase rotina.
Portanto, sim: existe risco de tensão durante a turnê — e até de cancelamentos — caso o clima entre os irmãos volte a azedar. Porém, há alguns fatores que indicam que dessa vez pode ser diferente:
- Contrato blindado: Reuniões desse porte costumam envolver contratos altamente detalhados, com cláusulas prevendo penalidades severas para desistência, atrasos ou abandono da turnê. Ou seja, dinheiro e compromissos legais são um bom incentivo para manter o profissionalismo, mesmo que o afeto ainda não tenha voltado.
- Equipes separadas: Fontes próximas à produção indicam que Liam e Noel manterão camarins, rotinas e até voos separados, justamente para evitar o convívio constante e as faíscas do passado. A ideia é se encontrarem apenas no palco — onde sempre funcionaram melhor.
- Motivações diferentes: Dessa vez, ambos parecem ter motivações mais conscientes para voltar: Noel, que sempre foi mais relutante, parece ter se rendido ao apelo simbólico e comercial da reunião. Já Liam, que há anos pressiona por isso publicamente, sabe que é sua chance de consolidar um legado com grandeza. Eles podem não se amar — mas sabem o que Oasis representa.
- A idade e o tempo: Os dois estão hoje em seus 50 e poucos anos. Não são mais garotos movidos a ego e álcool. E embora o temperamento de ambos continue imprevisível, há sinais de que sabem que essa turnê será provavelmente a última chance real de reconciliação musical — e histórica.
Se houver algum desentendimento público, é possível que o tour continue, mas com ajustes. O que os fãs mais temem — o cancelamento completo da turnê — só deve ocorrer se houver um rompimento extremo. E, nesse caso, os contratos preveem reembolsos obrigatórios e multas contratuais milionárias.
Por enquanto, os dois estão se mantendo em silêncio (Noel) ou no deboche (Liam), e o clima é de expectativa contida. O público está dividido entre torcer para que tudo dê certo… e secretamente esperar que uma briguinha épica vire meme. E quem sabe, depois da turnê venha um novo álbum?
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