Fazer piada sobre o sistema de ensino público para comunidades carentes é descabido, mas Quinta Brunson, a estrela e showrunner de Abbott Elementary queria homenagear suas professoras e sua mãe, em vez de apostar no drama para mostrar todos os desafios do sistema educacional, lançou um olhar com carinho, sorrisos e risos.
Uma das séries de comédia mais elogiada dos últimos anos surgiu como uma carta de amor — e ao mesmo tempo um libelo crítico — e desde 2021 tem construído uma sólida reputação como uma das comédias mais afiadas e humanas da TV aberta. Inspirada por sua mãe, que foi professora por décadas na Filadélfia que é o cenário da história, Quinta adotou o formato de mockumentary para explorar o cotidiano de um grupo de educadores numa escola subfinanciada, mas rica em humanidade, empatia e humor.

O sucesso da série foi quase imediato. Em sua primeira temporada, Abbott Elementary chamou atenção pelo equilíbrio entre crítica social e leveza, pela consistência de seu elenco e pela sagacidade de seus roteiros. Quinta Brunson interpreta a professora idealista Janine Teagues, se tornou uma das principais vozes da nova comédia americana, sendo indicada ao Emmy e vencendo o Globo de Ouro de Melhor Atriz em Série de Comédia em 2023. A série também conquistou prêmios importantes como o Emmy de Melhor Roteiro em Comédia, além de categorias de elenco, graças à performance magnética de Sheryl Lee Ralph como a veterana Barbara Howard.
No entanto, ao longo dos anos, Abbott Elementary tem enfrentado um certo esfriamento nas premiações, sobretudo na comparação com a explosão inicial de reconhecimento. Parte disso se deve à entrada de concorrentes de peso — como The Bear, Only Murders in the Building, Hacks e Reservation Dogs —, que ampliaram o escopo temático da comédia televisiva contemporânea. Outra explicação possível é o preconceito persistente contra a TV aberta, que mesmo oferecendo um produto inovador e socialmente relevante como Abbott, ainda sofre para competir com o prestígio das produções do streaming e do cabo. Além disso, a constância da série, que mantém uma fórmula eficaz e pouco sensacionalista, pode paradoxalmente parecer “menos ousada” em comparação com concorrentes que apostam em rupturas estéticas mais evidentes.

Ainda assim, a força de Abbott Elementary continua sendo a sua consistência: episódio após episódio, a série se aprofunda nas dinâmicas da escola titular com uma combinação rara de ternura, realismo e crítica. Isso se tornou ainda mais evidente na quarta temporada, exibida no primeiro semestre de 2025, que se destacou não só pelo desenvolvimento dos personagens, mas também pelo modo como passou a articular temas mais densos, sem perder o tom de comédia.
Na temporada passada, acompanhamos Janine em um momento de transição: após aceitar uma vaga temporária no Departamento de Educação, ela se viu dividida entre o desejo de mudança sistêmica e a saudade da sala de aula. O arco de Janine foi emblemático da temporada porque reflete a tensão entre idealismo e pragmatismo, entre a luta institucional e a experiência concreta da docência. Sua ausência impacta os colegas, especialmente Gregory Eddie (Tyler James Williams, sempre impagável), cujo romance mal resolvido com Janine ganhou novos contornos — menos idealizados, mais adultos, com direito a afastamentos e reencontros cheios de hesitação.

A grande virada foi a mais arriscada na tradição da TV: depois de duas temporadas no vai-e-vem, finalmente terminamos a terceira temporada une Janine e Gregory, um risco quase lendário para qualquer série porque acaba que ter o casal principal feliz e estável, pela tradição, não funciona. Será mesmo?
A quarta temporada, marca o retorno à estrutura tradicional de 22 episódios, onde Janine retorna à sala de aula, mais madura e ciente de seus limites, e o romance com Gregory finalmente toma corpo, não como clímax melodramático, mas como evolução orgânica de personagens que se conhecem profundamente. A temporada também oferece um retrato mais coletivo do colégio Abbott, com episódios centrados nos alunos, nos pais e até em decisões administrativas tomadas pelo distrito.
Um dos momentos mais celebrados do ano foi o cruzamento inusitado com o elenco de It’s Always Sunny in Philadelphia. Em uma participação surpresa que rapidamente viralizou, os atores Charlie Day, Rob McElhenney e Glenn Howerton, um aceno cômico às suas personalidades caóticas de Sunny, ainda que sem mencionar diretamente seus personagens originais.

Os episódios mais recentes têm sido celebrados por críticos e fãs como um retorno à forma e, ao mesmo tempo, um salto de qualidade. Há uma nova leveza no ar, mas também uma densidade emocional que se acumula episódio após episódio. O arco mais emocionante, sem dúvida, é o de Ava (Janelle James), que se antes apenas uma figura excêntrica e hilária, agora começa a ganhar camadas mais humanas, revelando o quanto sua falta de preparo é também reflexo do sistema que a colocou ali. Ava continua sendo o alívio cômico mais intenso da série, mas agora com contornos mais complexos e comoventes.
Mesmo com menos troféus na estante nos últimos tempos, Abbott Elementary segue como uma das séries mais importantes de sua geração — não apenas por sua capacidade de fazer rir, mas por fazer isso com consciência, sutileza e afeto. Quinta Brunson já provou que não precisa ser a queridinha da temporada para continuar relevante. Na verdade, talvez sua maior conquista seja justamente essa: transformar uma escola pública esquecida em palco de histórias que importam. E fazer isso semana após semana, com humor e humanidade.Reencontramos todos de volta em Filadélfia e casal segue junto.
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