Segunda Temporada de Billy the Kid: Drama e História Americana

A assinatura do showrunner Michael Hirst é identificar figuras históricas complexas e dramatizá-las em filmes ou séries. Fez sucesso com Tudors, que falava de Henrique VIII; depois fez história com Vikings, uma série excelente que foi sombreada pelo sucesso de Game of Thrones e, mais recentemente, antes de anunciar que voltará aos nórdicos, se aventurou pelo Oeste Americano com a série Billy The Kid. A terceira e última temporada ainda está sendo gravada, mas, no Brasil, apenas agora a MGM+ disponibilizou a segunda, que foi ao ar em 2024 nos Estados Unidos.

Me parece que ter enterrado a série internacionalmente é um sinal de que ela não funcionou como o esperado. Não chega a ser surpresa. Embora o gênero western, ou faroeste, que é uma das formas mais emblemáticas da narrativa americana — tanto no cinema quanto na literatura e na televisão, cujo auge dos anos 1930s e 40s praticamente foi erradicado nos anos 1970s, deixando de ser mainstream. Ainda assim, resistiu como linguagem e estrutura narrativa poderosa, especialmente para histórias de ambiguidade moral, fronteiras (físicas ou simbólicas) e reinvenção do herói.

O gênero não tem mais o domínio cultural que teve no século 20 – por razões obvias – mas seu legado ainda mostra relevância atualmente porque fala diretamente de dilemas fundadores da identidade coletiva. Mais ainda: fala com o publico masculino que ainda sente nostalgia pelas figuras violentas idealizadas da época. Em geral, os westerns usam mitos americanos sobre a expansão para o oeste e seus conflitos indígenas, assim como a guerra civil, a chegada do trem, e um período onde a lei e a desordem nas fronteiras eram opressores, mas, no imaginário cultural geraram símbolos épicos de heroísmo, liberdade e conflito moral.

A série Billy the Kid está recontando a trajetória de Henry McCarty, o lendário fora-da-lei do Velho Oeste americano, cuja vida curta — e morte precoce aos 21 anos — transformou-se em um dos maiores mitos da cultura popular dos Estados Unidos. Ele é famoso tanto pelos crimes que cometeu quanto pela aura romântica de rebeldia e juventude trágica que o envolveu após sua morte. Na visão de Hirst, ele é bem diferente do que costumava ser retratado.

Com o hiato de quase três anos desde a 1ª temporada, é difícil abraçar o drama e lembrar de todos os detalhes. A parte inicial da série mostrou como Billy, interpretado por Tom Blyth, se transforma no jovem fora-da-lei porque foi tragado para um vórtice de alianças instáveis, traições e atos de violência que, segundo o próprio Hirst, fazem parte não só da história americana, mas da formação de um certo “mito moral” ocidental.

A segunda temporada entra no fato histórico que fez do verdadeiro Billy the Kid um mito, que foi a Guerra do Condado de Lincoln, um dos conflitos mais icônicos do Velho Oeste americano. Aqui, vemos como a luta pelo controle e propriedade de terras, bens e serviços dentro do Velho Oeste era, apensar da existência de regulação, “sem lei”. No caso específico de Lincoln, os gananciosos homens que tinham monopólio sobre todos os produtos disponíveis no condado decidiram eliminar a concorrência de forma violenta, usando gangues para boa parte do conflito. Foi uma mini-guerra civil em um país já dividido.

A série Billy the Kid evita retratar apenas duelos e cavalgadas, apostando mais nas complexas motivações políticas, econômicas e morais por trás dos acontecimentos que moldaram a lenda. Embora interessante, para estrangeiros que não são familiarizados com a história americana, o apelo é menor e há menos impacto também.

Nos primeiros episódios, acompanhamos Billy unindo-se a John Tunstall, um jovem e idealista empresário inglês que desafia os interesses monopolistas da organização conhecida como “The House”, liderada por Lawrence Murphy. Este conflito econômico e político entre dois grupos rivais de comerciantes se desdobra em uma guerra aberta, envolvendo pistoleiros, xerifes corruptos e disputas judiciais manipuladas. Billy se vê cada vez mais envolvido no centro desse turbilhão, especialmente após a morte de Tunstall, que o marca profundamente e o transforma em símbolo de resistência entre os “Regulators”, o grupo armado que luta contra a opressão dos grandes latifundiários.

A série dramatiza, com certa liberdade criativa, episódios históricos como o assassinato de Alexander McSween, a queima da casa onde ele e outros se refugiavam, e a subsequente fuga desesperada de Billy em meio ao fogo cruzado. Em seu cerne, a temporada retrata a trajetória de um jovem que, embora empunhe armas, parece guiado por um código moral próprio. Para Michael Hirst, essa característica é central: em entrevistas, o criador da série enfatizou que Billy não é um simples fora-da-lei romântico, mas um jovem com uma visão ética surpreendentemente moderna. “Ele defendia os imigrantes, especialmente os mexicanos. Tinha um senso de justiça que não era comum para seu tempo”, afirmou Hirst, destacando ainda a influência da mãe de Billy na formação de seus valores — uma figura que, mesmo ausente fisicamente na segunda temporada, continua a ecoar nas ações do filho.

Hirst também ressaltou que procurou se apoiar em fontes históricas confiáveis, como os relatos de George Coe, que lutou ao lado de Billy na vida real. Mas ele não esconde que sua intenção foi sempre mais dramática do que documental. “A história é inacreditável por si só, mas queríamos também que fosse emocional. Queríamos que o público estivesse na jornada com Billy, não apenas assistindo aos fatos de longe.”

A recepção da temporada foi dividida e a crítica profissional pareceu se incomodar com a estrutura episódica irregular e com as liberdades tomadas em relação aos fatos históricos. Em contrapartida, o público geral demonstrou entusiasmo, elogiando a intensidade das cenas de ação, a fidelidade emocional do protagonista e a construção do mundo narrativo.

Exatamente porque entra efetivamente no drama que é mais conhecido – a juventude de Billy que foi mostrada na 1ª temporada não tem base documental como a 2ª – essa temporada superou a primeira em ritmo e tensão dramática. Tom Blyth faz um Billy mais sombrio, estratégico e dividido entre o desejo de justiça e a inevitabilidade da violência. A cinematografia e a ambientação do Velho Oeste também merecem elogios, com destaque para o uso da luz natural e dos espaços abertos como metáforas da solidão e da ambiguidade moral do protagonista.

Fico feliz de que finalmente possamos continuar com Billy the Kid porque a série oferece um retrato denso e melancólico de um período turbulento da história americana e na visão sensível de Hirst , a figura de Billy emerge não como herói ou vilão, mas como símbolo de um tempo em que justiça e vingança caminhavam lado a lado. E se há algo que a série busca deixar claro, é que, no Velho Oeste, as lendas nascem do fogo, da perda e da tentativa desesperada de fazer o certo num mundo que raramente recompensa quem tenta. Ficarei feliz de ver como ele conclui essa saga.

Na temporada final, com o fim da Guerra do Condado de Lincoln, tanto Billy the Kid quanto o xerife Pat Garrett, interpretado por Alex Roe, ainda têm questões importantes a resolver — um acerto de contas se aproxima. Billy continua foragido, e Garrett está decidido a capturá-lo, vivo ou morto. E com uma recompensa por sua cabeça, Billy tem a chance de deixar o Novo México de vez e construir um futuro ao lado do grande amor de sua vida. Mas ele tem assuntos inacabados com Garrett, que o traiu, e decide ficar. Enquanto isso, Jesse Evans, amigo de longa data de Billy, seu rival e inimigo, vivido por Daniel Webber, também permanece em Lincoln, buscando um novo propósito — e talvez redenção por seus pecados. À medida que o capítulo final da saga se aproxima do fim, Billy lutará com todas as forças para finalmente alcançar a justiça que sempre lhe escapou, mesmo que isso signifique morrer tentando.


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