Meu analista poderá me dizer com maior precisão porque de todos os conteúdos que consumo aos montes, pode entrar fantasia, drama, suspense… mas me incomoda histórias distópicas que tratam de opressão psicológica. Talvez seja a experiência no universo corporativo, mas de alguma forma confesso que mantive minha distância de Severance e “tive” que conferir porque a Variety a elege como a série que vai dominar os Emmys em setembro. Quem lê o blog sabe que a minha preferência seria Andor, mas não poderia seguir sem saber “qualé” a de Severance.
Desde sua estreia, a série provocou discussões sobre ética corporativa, identidade e livre-arbítrio. Criada por Dan Erickson e dirigida em parte por Ben Stiller, a produção da Apple TV+ parte de uma premissa absurda — a separação cirúrgica entre memória pessoal e profissional — para elaborar uma crítica intricada e angustiante sobre o mundo do trabalho, da subjetividade e da alienação.

A origem da ideia
Dan Erickson escreveu o roteiro original como uma crítica à desumanização no ambiente de trabalho. Ele chegou a trabalhar em empregos administrativos que o levaram a fantasiar sobre uma separação real entre vida pessoal e profissional. A premissa inicialmente satírica foi lapidada com tons sombrios e filosóficos, ganhando interesse de Ben Stiller, que viu ali um espaço para uma abordagem visual claustrofóbica e emocionalmente precisa.
A série incorpora influências que vão de 1984 e Brazil até Black Mirror e Kafka, além de evocar a crítica de Foucault sobre vigilância institucional e a cisão cartesiana do sujeito. Mas é também uma alegoria contemporânea sobre burnout, capitalismo extremo e a fragmentação do eu em tempos de hiperprodutividade.
Enredo e estrutura
Em Severance, funcionários da empresa Lumon Industries se submetem voluntariamente a um procedimento chamado “severance”, que separa suas memórias em duas esferas: a do “outie” (a vida fora da empresa) e a do “innie” (a vida dentro do escritório). O objetivo declarado é permitir que os funcionários tenham equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Mas o que acontece é o oposto: a criação de duas entidades distintas dentro de um mesmo corpo, com total ignorância uma da outra.
O protagonista, Mark Scout (Adam Scott), trabalha na divisão de Macrodata Refinement (MDR), onde, junto a seus colegas Helly, Dylan e Irving, passa os dias encarando números em uma tela e os “refinando” com base em sensações — medo, desconforto, euforia. Nenhum deles sabe o que os números significam. Ninguém sabe sequer o propósito do próprio trabalho.

O que os severados fazem?
Na MDR, os funcionários classificam números que lhes provocam sentimentos subjetivos. Essa atividade sem sentido aparente remete à alienação total do trabalhador. O trabalho deixa de ser meio e torna-se fim em si mesmo: uma liturgia sem transcendência. A falta de clareza sobre o produto de sua atividade torna a prática cruel — o sujeito trabalha, mas não conhece as consequências de seu fazer.
Além da MDR, existem outras divisões obscuras na Lumon:
- Óptica e Design (O&D): envolta em mistério e mapas secretos.
- Wellness: uma sala terapêutica onde os innies recebem elogios sobre os outies, como forma de apaziguamento.
- Break Room: sala de punição psicológica, onde o funcionário deve repetir frases de culpa.
- Departamento de Testes: visto na segunda temporada, parece focado em experimentos cognitivos e emocionais, incluindo tentativas de ativar memórias suprimidas.
Em elenco afinado
O maior dos elogios é quanto ao elenco que se destaca pela qualidade das atuações e pela presença de nomes consagrados do cinema e da TV. No centro da trama está Adam Scott, que interpreta Mark Scout com uma sutileza impressionante, equilibrando a contensão emocional necessária para um personagem dividido entre duas realidades distintas. Scott, conhecido por seus papéis em comédias como Parks and Recreation, surpreende ao explorar um lado dramático e introspectivo, que cativa o espectador ao longo das duas temporadas.
Britt Lower, que dá vida à Helly R., traz uma energia visceral e combativa, refletindo a resistência e a frustração da personagem diante da opressiva Lumon Industries. Seu desempenho intenso e carregado de emoção é um dos pilares que sustentam a tensão da série. John Turturro, ator veterano renomado por filmes icônicos dos irmãos Coen como O Grande Lebowski e Barton Fink, empresta uma presença imponente e cheia de nuances ao personagem Irving Bailiff, cuja história e motivações adicionam camadas de mistério e complexidade à narrativa. Outro destaque é Tramell Tillman, que interpreta Milchik, o chefe de Mark, com uma mistura intrigante de autoridade e vulnerabilidade, criando uma figura ambígua e memorável.

Além desses nomes, a segunda temporada de Severance contou com a participação especial do lendário Christopher Walken, cuja entrada na trama trouxe um peso adicional e um ar de mistério ainda maior. Walken, conhecido por sua carreira extensa e personagens marcantes no cinema, elevou ainda mais o nível da produção com sua interpretação singular, consolidando Severance como uma série que não só surpreende pela narrativa, mas também pela excelência do elenco. Essas atuações destacam a série no cenário atual, combinando talento, profundidade emocional e carisma, e ajudando a construir um universo ficcional envolvente e cheio de camadas para o público explorar.
Psicanálise e cisão do eu
O procedimento de severance literaliza o conceito freudiano de divisão psíquica. O sujeito deixa de ser uma entidade coesa e se torna múltiplo: uma parte sua — o “innie” — vive numa prisão perpétua de trabalho, sem sono, memória ou identidade pregressa. Essa cisão representa a clivagem narcísica do eu: cada metade do indivíduo se torna objeto do outro.
A teoria lacaniana do “estádio do espelho” pode ser invocada aqui. O innie é uma espécie de eu cindido, que não tem acesso ao “espelho” — à imagem totalizante de si mesmo. Vive sem simbólico, sem inscrição no mundo exterior. Seu Outro é o próprio outie, uma entidade divina e inalcançável.
Helly, por exemplo, expressa desde o início uma revolta com sua condição. Seu innie tenta se suicidar — um grito de autonomia de uma identidade que não deveria sequer existir. É um ato de afirmação: “Eu existo, mesmo que não me queiram viva”. Isso revela que a identidade humana não pode ser suprimida impunemente. A subjetividade resiste.
A relação entre Dylan e seu filho — que ele vê rapidamente graças a um dispositivo que permite brevemente o controle do corpo pelo innie — é um dos momentos mais comoventes da série. Ele percebe que sua existência é amputada da paternidade. Isso representa um dos conflitos centrais do sujeito contemporâneo: o desejo de presença versus o aprisionamento pela lógica produtiva.

O culto de Kier Eagan
A Lumon não é apenas uma empresa. Ela se apresenta como uma religião corporativa, fundada por Kier Eagan. Seus preceitos são repetidos como mantras, e imagens do fundador estão espalhadas pelos corredores. O culto a Kier e aos “princípios eaganistas” serve como controle ideológico: uma forma de doutrinação que retira dos funcionários qualquer impulso de questionamento.
Essa mitologia empresarial ecoa os estudos de Foucault sobre instituições disciplinares. A Lumon funciona como uma prisão panóptica, onde os corpos são controlados, os horários são estritos e as emoções são medidas. A sala de bem-estar, o break room e a dança de incentivo são mecanismos de punição e recompensa mascarados de cuidado.
Quem são os antagonistas?
A grande antagonista da série é a própria estrutura da Lumon. Mas há figuras específicas que a representam:
- Harmony Cobel: chefe direta de Mark, que finge ser sua vizinha no mundo real. Ela acredita na severance como projeto messiânico.
- Milchick: o funcionário operacional que aplica punições e vigia os trabalhadores, muitas vezes com uma máscara de empatia.
- Natalie e os Eagan: representam o lado corporativo e herdeiro da empresa. Revela-se que Helly é, na verdade, Helena Eagan — filha da elite da Lumon, enviada como voluntária para validar o projeto. O innie se revolta contra o próprio corpo que carrega o sangue da dominação.
Quem são os outies não severados?
Embora a maior parte dos funcionários de alto escalão seja composta por pessoas severadas, há indícios claros de que muitos membros da cúpula mantêm sua memória intacta. O uso do severance é seletivo: aplicado a corpos que devem ser moldados, mas não aos que mandam.
Helena Eagan é o maior exemplo disso: seu outie não apenas está ciente da experiência da innie como a vê como ferramenta de marketing. A dissociação, aqui, não é erro — é projeto. Uma classe dominante dissocia os corpos que explora e retira-lhes até o direito à memória.
O que a Lumon quer?
A série ainda não oferece uma resposta final, mas pistas indicam que a Lumon deseja expandir a tecnologia da severance para outras áreas da vida humana: punições judiciais, educação, controle militar. A ideia é usar a cisão de identidade como método de dominação e adestramento de massas.
A Lumon é, em última instância, uma alegoria de sistemas que desejam transformar o humano em ferramenta. Ao separar a mente do corpo, o passado do presente, a identidade da função, ela cria o trabalhador ideal: obediente, sem memória, sem afeto, sem reivindicação.
A favorita de 2025 como Melhor Série Drama
Severance é, segundo a Variety, a grande aposta de prêmios no Emmy em setembro. Faz uma crítica feroz à lógica do capitalismo tardio, mas vai além da alegoria econômica. Ela pergunta: o que é ser uma pessoa? O que acontece quando nossa consciência é sequestrada? O que resta da subjetividade quando ela é cortada ao meio?
Ao confrontar essas perguntas com uma estética precisa, performances densas e uma trama cheia de camadas, a série não responde tudo — mas nos faz lembrar que o sujeito humano, mesmo fragmentado, resiste. Em cada innie que sangra, que sonha ou que grita, há uma recusa em ser apenas número. Há alguém ali dentro — e esse alguém quer viver.
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