A Lively Mind: O Legado Pessoal de Jane Austen

Por mais que Jane Austen seja um ícone da cultura pop — com direito a memes, camisetas, adaptações infinitas —, ainda há algo de íntimo e surpreendente ao entrar em contato direto com os vestígios reais da sua vida e obra. A exposição A Lively Mind: Jane Austen at 250, em cartaz na Morgan Library & Museum, em Nova York, oferece exatamente isso: não só o espólio afetivo e estético da autora, mas um mergulho em sua consciência de si como escritora.

Quem estiver na cidade neste momento tem sorte. A mostra é uma rara oportunidade de ver de perto objetos como seu anel de ouro e turquesa (que já pertenceu brevemente à popstar Kelly Clarkson), a reconstrução do casaco de seda que Austen mandou fazer com os ganhos de seus romances e até uma réplica da pequena escrivaninha onde ela escreveu seus livros — esses mesmos que redefiniram o romance inglês do século XIX.

Mas a força da exposição está mesmo nos papéis: rascunhos riscados, cartas afiadas, cadernos manuscritos. Uma página de The Watsons, romance inacabado, aparece coberta de cortes, inserções, substituições — prova de uma escritora que escrevia e reescrevia com método e intenção. Austen sabia o que fazia, como queria ser lida, o quanto valia o seu trabalho. E isso desmente, com graça e autoridade, a imagem fabricada por seus familiares após sua morte — a da mulher modesta que escrevia como passatempo doméstico, sem ambição de fama ou lucro.

É impossível sair imune. Entre as cartas expostas, muitas compradas no século passado por J.P. Morgan Jr., destacam-se pérolas como a observação sobre o calor — “nos deixa em constante estado de inelegância” — e o comentário cruelmente espirituoso após uma batalha naval: “Como é horrível tantos mortos! E que bênção não conhecermos nenhum deles.”

A mostra também exibe primeiras edições dos livros, uma curiosa lista com as opiniões da família sobre Emma (uma sobrinha gostava de Mr. Knightley, mas “não suportava Emma”), e até um exemplar americano corrigido à mão por um leitor entusiasmado que tentou “melhorar” a prosa de Austen — mudando a palavra inventada “imaginist” para a ainda mais inventada “imaginast”.

Há ali a escritora, a mulher, a irmã — e a lenda em formação. Um dos momentos mais tocantes da visita é uma carta de Cassandra, sua irmã e maior confidente, escrita poucos dias após a morte de Jane. “Ela era o sol da minha vida”, escreve Cassandra. “A douradora de cada prazer, a suavizadora de toda dor.”

Jane Austen morreu cedo, sem saber o tamanho da posteridade que a aguardava. Mas tudo na exposição indica que ela sabia, sim, o que queria dizer — e por que precisava ser ouvida.

Para quem estiver em Nova York, o conselho é simples: vá. Leve tempo. E se deixe ficar.


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