David Byrne já está acostumado a ser chamado de gênio — e não parece se incomodar com isso. Criativo, inovador, inquieto? Tudo isso e mais. Músico, escritor, diretor, coreógrafo e cantor, ele nunca foi de se limitar a uma caixa. Sua arte sempre foi atenta aos tempos, à sociedade e aos hábitos que nos moldam. À frente do Talking Heads, cantou sobre tudo isso. Em sua carreira solo, foi ainda mais longe.
Nunca tive a chance de ver os Talking Heads no palco (só no cinema), mas Byrne? Não perco por nada. Nos últimos 25 anos, tive o privilégio de vê-lo ao vivo cinco vezes. Pode até repetir alguns passos, mas nunca é igual. Amo. Por isso, hoje celebro: depois de longos sete anos, temos material novo para ouvir.

David Byrne, desde os tempos do Talking Heads, tem operado como um antropólogo sonoro — alguém que observa o comportamento humano com estranheza curiosa e o traduz em ritmo, movimento e poesia. Sua carreira é marcada por uma busca constante em transformar o mundano em sublime, seja através de danças robóticas, letras desconcertantes ou composições que exploram a condição humana com ironia, compaixão e uma dose de absurdo.
Seu novo álbum, Who Is the Sky?, lançado hoje (10 de junho de 2025), marca sua primeira obra solo em seis anos. Produzido por Kid Harpoon e arranjado em parceria com a Ghost Train Orchestra, o disco reúne 12 faixas que continuam essa tradição de Byrne em traduzir experiências humanas universais para um formato musical que é ao mesmo tempo cerebral e acessível. Nele, colaboram nomes como Hayley Williams (Paramore), Tom Skinner (The Smile), St. Vincent e Mauro Refosco, formando uma tapeçaria sonora rica, com ecos de orquestra de câmara, pop experimental e worldbeat.
A faixa que abre e apresenta o álbum, Everybody Laughs, funciona como uma chave de leitura para toda a obra. A canção mistura pop orquestral exuberante com um groove leve, quase lúdico, sobre o qual Byrne recita uma lista de ações cotidianas: viver, morrer, rir, chorar, dormir, encarar o teto. Em outra voz, isso poderia soar banal ou didático — mas em Byrne, torna-se uma espécie de mantra coletivo, ao mesmo tempo observacional e catártico. A música cresce em complexidade e intensidade até um clímax onde ele e St. Vincent cantam juntos com entrega emocional, quase gritando, como se estivessem tentando purgar a estranheza de estarmos todos aqui, vivos, em meio ao caos.
No videoclipe da faixa, dirigido por Gabriel Barcia-Colombo, essa tensão entre banalidade e transcendência é representada visualmente. A estética é fria, moderna, e dialoga com a lógica das instalações digitais. Corpos em posições coreografadas aparecem interagindo com elementos que lembram máscaras, monitores, espelhos e mecanismos de controle. É uma cena teatral e controlada — uma galeria de humanidade observada por si mesma, como se estivéssemos em um zoológico emocional.
O vídeo não tenta contar uma história, mas evocar sensações. O riso — que dá título à canção — não é exatamente de alegria, mas uma expressão ambígua, que pode tanto ser um alívio como uma forma de esconder dor. A dualidade que Byrne evoca na música é refletida na imagem: há beleza e estranhamento, clareza e confusão. É uma espécie de coreografia da existência, onde os personagens parecem tanto atuar quanto viver genuinamente.


Byrne já comentou que a palavra “everybody” aparece com frequência em suas letras por sua função antropológica: capturar o coletivo sem apagar o indivíduo. No caso de “Everybody Laughs”, o foco está nesse ponto de interseção entre o pessoal e o universal. O riso é um gesto comum, mas nunca exatamente igual — ele pode ser libertador, nervoso, triste, sarcástico. E é essa multiplicidade de significados que dá à música sua força.
A produção de Kid Harpoon contribui para essa acessibilidade sem abrir mão do caráter experimental. Harpoon, conhecido por polir o pop com elegância, ajuda a moldar as bordas excêntricas de Byrne em algo que soa leve, dançante, mas nunca superficial. Segundo o produtor, caminhar por Nova York ouvindo a demo da música fazia-o sentir que “somos todos iguais”. A beleza absurda da existência — esse parece ser o verdadeiro tema.
Who Is the Sky? nasceu das anotações que Byrne fez no fim da era American Utopia, um período em que ele refletiu profundamente sobre o propósito da arte e sua própria voz. Ao invés de respostas, encontrou novas perguntas — e as embalou em canções cinematográficas, bem-humoradas e profundamente humanas. O álbum como um todo parece tentar responder, ou pelo menos ecoar, a grande questão implícita no título: quem é o céu? Ou talvez: quem somos nós sob ele?
Com uma turnê mundial anunciada para o segundo semestre, com uma banda móvel de 13 integrantes, Byrne mais uma vez propõe um espetáculo que vai além da música — um ritual coletivo onde se dança, se pensa, e se ri. Everybody Laughs, portanto, não é só uma música. É um convite à comunhão, à aceitação da vida como um misto de graça e estranheza. E poucos artistas vivos são tão capazes de traduzir isso com tanta empatia e estilo quanto David Byrne. Por enquanto não tem previsão de vir ao Brasil, mas, como sua conexão com o país é forte, podemos ficar na torcida.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
