Sem a menor sombra de dúvida a versão live action de Branca de Neve e os Sete Anões com Rachel Zegler e Gal Gadot foi um sonoro fracasso. Sua chegada ao streaming só consolidou a conclusão geral de erro, em vez de inverter o quadro. Cercado de polêmicas, o musical não funciona por uma série de razões. E se achavam que a engajada Rachel Zegler ia se calar, bom, erraram. A atriz fez sua estreia no lendário meio teatral londrino nada menos com o clássico musical Evita. Isso mesmo, depois de ter sido Julieta na Broadway e Branca de Neve nas telas, ela é Eva Perón em Londres.


O revival de Evita tem a direção do premiado e solicitado Jamie Lloyd e é um dos eventos teatrais mais aguardados de 2025. A montagem, que estreou no London Palladium em 14 de junho e segue até 6 de setembro, marca a estreia de Rachel Zegler nos palcos do West End — e também uma tentativa de reconquista artística após as polêmicas de Branca de Neve.
A escolha de Zegler para interpretar Eva Perón despertou grande atenção desde os primeiros rumores. Inicialmente, o papel principal chegou a ser cogitado para Ariana DeBose, vencedora do Oscar por West Side Story (2021) (ao lado da própria Zegler), mas conflitos de agenda impediram sua participação. Com isso, a escolha de outra estrela emergente do mesmo universo — e também premiada — parecia inevitável. Rachel Zegler, que também estrelou o Romeu + Julieta de Sam Gold na Broadway ao lado de Kit Connor (Heartstopper), rapidamente emergiu como a favorita. Sua voz potente e presença magnética, já demonstradas em redes sociais e em gravações como “Don’t Cry for Me Argentina”, tornaram-na uma aposta natural para o papel.
A nova Evita é parte da estratégia de Jamie Lloyd de revitalizar os musicais de Andrew Lloyd Webber, apresentando versões ousadas e viscerais, muitas vezes com estética minimalista e direção coreográfica intensa. Com cenários e figurinos de Soutra Gilmour, coreografia de Fabian Aloise e direção musical de Alan Williams, a montagem promete uma abordagem moderna, “como um show de rock” — segundo palavras do próprio Lloyd —, mais crua, febril e menos apegada à tradição pomposa que costuma cercar a obra.

Este renascimento da Evita surge em meio ao auge de Jamie Lloyd no teatro contemporâneo. Sua elogiada produção de Sunset Boulevard com Nicole Scherzinger, que estreou no West End em 2023 e depois migrou para a Broadway, conquistou o público e a crítica, com aclamação quase unânime. O sucesso foi tão expressivo que o espetáculo está com a temporada estendida até julho de 2025, encerrando-se como uma das mais bem-sucedidas remontagens de Lloyd Webber em décadas. A reinvenção promovida por Lloyd foi creditada como uma das principais razões pela qual Lloyd Webber voltou a ser considerado um nome “quente” e relevante para as novas gerações de teatro.
Paralelamente, Lloyd também colhe os frutos de Much Ado About Nothing, sua releitura do clássico de Shakespeare estrelada por Tom Hiddleston e Hayley Atwell no Theatre Royal Drury Lane. A montagem foi saudada como uma obra-prima crítica, unindo sensibilidade contemporânea e intensidade emocional com precisão formal, em mais um exemplo da assinatura estética e psicológica que Lloyd imprime a seus projetos. E sim, ele transformou a peça em musical.
A força da assinatura artística de Jamie Lloyd tem raízes ainda mais profundas, como mostra a volta triunfal de seu Cyrano de Bergerac com James McAvoy ao Harold Pinter Theatre. A montagem, que em 2019 já causara furor ao eliminar o icônico nariz protuberante do protagonista e transformou a peça de Edmond Rostand em uma batalha poética moderna, com ecos de slam, hip-hop e spoken word — um palco nu onde o foco esteve inteiramente na força da linguagem.


Ao longo da última década, Lloyd se consolidou como um dos principais renovadores do teatro britânico, colocando grandes estrelas em papéis clássicos — Martin Freeman como Ricardo III, Kit Harington como Fausto, Tom Hiddleston em Betrayal — sempre com uma estética depurada e intensidade dramática. Sua temporada Pinter at the Pinter, em 2018, foi um marco, revelando o autor sob nova luz e mobilizando uma constelação de atores de prestígio.
Além disso, o diretor é um defensor ferrenho da democratização do acesso ao teatro. Em suas produções mais recentes, como The Seagull com Emilia Clarke, Lloyd disponibilizou milhares de ingressos a preços populares e criou o programa Emerge, voltado à formação de jovens talentos do setor, oferecendo mentorias pagas e oportunidades reais de inserção na indústria.
Dentro desse contexto de reinvenção e sucesso, Evita ganha novo fôlego. A expectativa é que, como aconteceu com Sunset Boulevard, o espetáculo viaje para a Broadway após sua temporada londrina. Com produção assinada por Michael Harrison, em parceria com a Jamie Lloyd Company, a The Really Useful Group e a nova joint venture Lloyd Webber Harrison Musicals, trata-se de uma aposta de peso no repertório clássico com olhos voltados para o futuro.


Para Rachel Zegler, a chance de viver Eva Perón parece também um rito de passagem. Após ser duramente criticada por sua versão de Branca de Neve — um projeto que naufragou antes mesmo da estreia, cercado por debates sobre representatividade e fidelidade à obra original —, a jovem atriz e cantora vê no palco do Palladium a oportunidade de provar seu talento fora do circuito hollywoodiano. Segundo primeiras reações de insiders e espectadores dos ensaios abertos, Zegler entrega uma performance vocal marcante e uma presença cênica que promete fazer jus à personagem histórica — intensa, contraditória e emblemática.
O ressurgimento de Evita sob essa perspectiva contemporânea, aliando direção ousada, talentos emergentes e um palco icônico, não apenas resgata um dos grandes clássicos de Lloyd Webber, como o reinscreve na linguagem teatral do presente. E, ao fazer isso, reafirma a relevância de narrativas como a de Eva Perón — e de atrizes como Rachel Zegler — para novas plateias e novas eras.
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