Evita: a ascensão ao panteão do teatro musical

Há 49 anos, em 1976, um álbum conceitual de ópera rock sacudiu o mundo ao recontar de forma crítica a ascensão e morte de uma líder política argentina, Eva Perón. Hoje, Evita é mais do que um dos marcos do teatro musical contemporâneo: é um fenômeno político, cultural e teatral que transcendeu os palcos para se tornar ícone pop e objeto de culto.

Criado por Andrew Lloyd Webber (música) e Tim Rice (letras), o espetáculo narra a meteórica ascensão de Eva Duarte de Perón — atriz de rádio e figura marginal da cena artística argentina que, ao se casar com Juan Domingo Perón, tornou-se a primeira-dama mais poderosa e adorada (ou odiada) da América Latina. Transformada em símbolo nacional e mito político, Evita foi santificada por uns e demonizada por outros — e essa ambiguidade foi o que atraiu Rice e Webber à sua história.

O projeto nasceu de maneira atípica. Após o sucesso de Jesus Christ Superstar (1970), a dupla procurava um novo tema com apelo controverso e dimensão épica. Tim Rice, fascinado por figuras femininas poderosas, sugeriu Evita Perón após ouvir um documentário no rádio. Eles então lançaram Evita primeiro como álbum conceitual, em 1976, gravado com Julie Covington no papel principal e Colm Wilkinson como Che Guevara — figura que, no musical, serve como narrador e consciência crítica da trama. A gravação fez sucesso imediato no Reino Unido, e a canção “Don’t Cry for Me Argentina” tornou-se um hit mundial.

O sucesso do disco levou à montagem teatral, que estreou no Prince Edward Theatre, em Londres, em 1978, dirigida por Harold Prince. A estrela era Elaine Paige, que solidificou sua carreira ao criar o papel de Eva nos palcos. Em 1979, o espetáculo chegou à Broadway com Patti LuPone como Evita e Mandy Patinkin como Che. A recepção foi dividida: enquanto a performance intensa de LuPone lhe rendeu um Tony Award, muitos críticos americanos consideraram a peça politicamente superficial e glamurizante de uma figura complexa e autoritária.

Ainda assim, Evita se tornou um enorme sucesso de bilheteria, ganhando sete Tony Awards, incluindo Melhor Musical. Parte do fascínio estava na forma como a obra combinava melodias grandiosas com estrutura operística — praticamente não há falas, tudo é cantado — e na maneira como usava o carisma e a manipulação de Eva como reflexo de uma sociedade movida por culto à personalidade.

Ao longo das décadas, diversas atrizes encarnaram a figura mítica da primeira-dama argentina. Florence Lacey, Loni Ackerman, Karen Mason, Elena Roger, Madonna, Solea Pfeiffer e, mais recentemente, Rachel Zegler formam uma linhagem de intérpretes que recriaram Eva à sua imagem, sempre entre o heroico e o grotesco.

O personagem de Che, embora inspirado no revolucionário real Che Guevara, não é historicamente fiel — trata-se de uma figura alegórica, uma espécie de consciência ideológica que questiona e contrapõe a ascensão meteórica de Evita. Esse recurso foi abandonado ou alterado em algumas versões, mas sua presença como comentarista do espetáculo permanece essencial em montagens clássicas.

O musical ganhou notoriedade ainda maior com sua adaptação cinematográfica em 1996, dirigida por Alan Parker. Madonna, então no auge de sua influência global, interpretou Evita com entrega emocional e surpreendente competência vocal, enquanto Antonio Banderas assumiu o papel de Che. O filme teve orçamento generoso, locações argentinas, novo arranjo musical de David Caddick e uma canção original, “You Must Love Me”, que venceu o Oscar de Melhor Canção. A recepção foi morna na Argentina, onde Evita continua sendo figura controversa, mas o filme renovou o apelo popular da peça e introduziu novas gerações à sua narrativa.

Desde então, Evita teve múltiplos revivals de destaque. Em 2006, a produção do West End com a atriz argentina Elena Roger e o americano Matt Rawle como Che marcou um retorno vibrante, com direção de Michael Grandage e coreografias de Rob Ashford. A mesma montagem seguiu para a Broadway em 2012, com Ricky Martin como Che e Roger repetindo sua Evita. Ainda que as críticas tenham sido divididas, a bilheteria foi forte, e Roger foi elogiada por sua autenticidade como intérprete argentina de Evita.

Além das produções principais, o musical tem sido constantemente encenado em turnês mundiais, escolas, produções regionais e concertos. Seu repertório — incluindo “Buenos Aires”, “High Flying Adored”, “Rainbow High” e “Another Suitcase in Another Hall” — permanece entre os mais reconhecíveis do teatro musical.

Evita é também um exemplo fascinante de como o teatro musical pode se tornar ferramenta de mitificação e disputa ideológica. Eva Perón foi idolatrada como santa dos “descamisados” e simultaneamente acusada de manipular massas com vaidade e ambição. O musical não busca resolver essas contradições, mas sim amplificá-las, usando o espetáculo como linguagem para explorar o carisma, a teatralidade do poder e o culto à imagem — temas que continuam ressoando hoje.

Com o revival de 2025 sob direção de Jamie Lloyd e protagonismo de Rachel Zegler, Evita parece pronta para mais uma reinvenção: mais crua, moderna e politicamente carregada. Mais do que uma biografia, o musical é uma ópera popular sobre fé política, desejo de ascensão e o preço da idolatria — temas que, como Eva Perón, jamais saem de cena.


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