Frederick Forsyth: O Mestre do Suspense Narrativo


Que bom que a versão mais recente do clássico O Dia do Chacal ganhou uma grande produção com o autor ainda vivo. Frederick Forsyth, morto aos 86 anos em 9 de junho de 2025, não era apenas um autor de best-sellers. Era um arquiteto do suspense. E, em muitos sentidos, um dos últimos a acreditar que fatos reais, detalhados até a medula, podiam ser mais eletrizantes do que qualquer fantasia de ação. Suas tramas vinham com mapas, cronogramas, itinerários, especificações técnicas — e nenhuma gordura. O que, em mãos menos precisas, poderia soar frio ou excessivamente técnico, nas suas tornava-se adrenalina pura, porque ele compreendia que o real pode ser mais angustiante do que o improvável.

Seu romance de estreia, The Day of the Jackal (O Dia do Chacal, 1971), mudou tudo. Publicado quando ele ainda era praticamente desconhecido, o livro contava, com meticulosidade quase jornalística, a caçada de um assassino profissional contratado para matar o presidente francês Charles de Gaulle. Era uma história hipotética, mas absolutamente plausível — e foi isso que apavorou e fascinou leitores no mundo inteiro. O livro foi traduzido para dezenas de línguas e deu origem a um filme igualmente celebrado em 1973, dirigido por Fred Zinnemann e estrelado por Edward Fox. Desde então, a fórmula de Forsyth — enredos que soam como dossiês de inteligência e personagens que operam como agentes treinados — virou referência incontornável no gênero.

Ele não chegou ali por acaso. Antes de ser escritor, foi piloto da Força Aérea Real, correspondente da Reuters e da BBC, enviado à guerra da Nigéria e, como se não bastasse, colaborador informal do MI6 — informação que só admitiu décadas depois. Forsyth viveu entre guerras, salas de redação e bastidores de diplomacias em colapso. Não escrevia de ouvido: escrevia com o rigor de quem viu demais. Cada romance parecia surgir de uma pasta confidencial aberta por acidente.

Depois do Chacal, vieram The Odessa File (O Dossiê Odessa, 1972), sobre redes de ex-nazistas na Alemanha pós-guerra, adaptado para o cinema em 1974 com Jon Voight. The Dogs of War (Os Cães de Guerra, 1974), inspirado em golpes de Estado e mercenários africanos, também virou filme em 1980. Em 1984, The Fourth Protocol (O Quarto Protocolo) antecipou tensões nucleares entre URSS e Reino Unido, e virou filme com Michael Caine e Pierce Brosnan. E não foi só no cinema: a série britânica Frederick Forsyth Presents, exibida entre 1989 e 1990, levou seis de seus contos à televisão com o ator Alan Howard no papel do agente Sam McCready, alter ego do autor.

Forsyth era conservador, eurocético, anglófilo e notoriamente avesso à ficção ideológica. Mas, paradoxalmente, criou protagonistas que não confiavam em governos, furavam sistemas, violavam fronteiras e burlavam protocolos. A tensão de suas histórias vinha justamente do embate entre homens altamente treinados e um mundo em desintegração moral. Seus heróis eram solitários, astutos, eficazes — quase sempre cínicos, mas com um código ético imperturbável.

Em 2015, anunciou publicamente que não escreveria mais romances. The Outsider – My Life in Intrigue, autobiografia publicada naquele ano, é um acerto de contas com o próprio mito — e uma revelação: ali, o autor admitia que sua familiaridade com armas, operações encobertas e espionagem não era só fruto de pesquisa, mas de envolvimento direto. Forsyth nunca foi só um contador de histórias. Ele era, como ele mesmo dizia, “um observador por dentro”.

Mas talvez sua obra mais tocante seja The Shepherd, conto natalino escrito nos anos 1970, que atravessou décadas como uma fábula cultuada entre pilotos e militares. Em 2023, o texto ganhou uma adaptação cinematográfica delicada com John Travolta — um gesto de afeto tardio a um autor que sempre preferiu o silêncio da cabine de comando ao ruído dos salões literários.

Ao contrário de John le Carré, com quem inevitavelmente foi comparado, Forsyth não operava nas sombras morais do serviço secreto. Ele confiava mais nas engrenagens do suspense do que nos labirintos da ambiguidade. Onde le Carré mergulhava na culpa, Forsyth apontava o rifle. Cada um à sua maneira, os dois expandiram o gênero. Mas Forsyth fez isso com o pulso de quem sabe onde quer chegar — e sem jamais tirar o dedo do gatilho narrativo.

Frederick Forsyth morreu como viveu: com descrição, precisão e disciplina. E é provável que, em alguma prateleira esquecida, ainda haja um plano de fuga, um falso passaporte ou uma última história pronta para ser contada. Afinal, ele entendia como poucos que o verdadeiro suspense não está no disparo — está no momento que o antecede.


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