Você sabe que tem algo desalinhado quando Julianne Moore monta um cavalo e Sydney Sweeney chega coberta de sangue numa fazenda isolada… e ainda assim o que falta é peso dramático. Echo Valley, novo thriller dramático da Apple TV+, tem tudo para ser um filme intenso — dor familiar, trauma não resolvido, vício, sangue, culpa, morte — mas tropeça justamente onde não podia: no roteiro.
Escrito por Brad Ingelsby, o mesmo nome por trás da sólida e bem-sucedida Mare of Easttown, o filme tenta revisitar um território semelhante: uma mulher emocionalmente devastada num ambiente rural da Pensilvânia, com segredos familiares e violência no horizonte. A fórmula está ali, só que desta vez sem consistência narrativa ou substância emocional. Echo Valley parece querer ser dois filmes ao mesmo tempo: um drama psicológico sobre luto e maternidade ferida, e um suspense de sobrevivência com traficantes invadindo celeiros no meio da noite. O problema é que não consegue ser nem um, nem outro com convicção.

Julianne Moore é, como era de se esperar, um pilar. Sua Kate Garrett carrega no corpo toda a dor de quem perdeu a esposa, foi abandonada pela filha e está lutando para manter viva uma fazenda e um resquício de dignidade. A direção de Michael Pearce entende que o rosto de Moore basta — e às vezes realmente basta. Há silêncios em que a atriz diz tudo, mesmo quando o roteiro parece estar dizendo nada. Ela faz um tipo de minimalismo emocional que exige precisão cirúrgica, e entrega.
Sydney Sweeney, por sua vez, aparece como Claire, a filha problemática que irrompe na rotina da mãe coberta de sangue e trazendo com ela um rastro de destruição. Sua atuação é mais intensa e instável, o que combina com o perfil da personagem: uma jovem à beira do colapso, presa entre o vício e uma relação tóxica com um traficante local. Sweeney tem crescido como atriz e aqui mostra um alcance que vai além do tipo que a consagrou em Euphoria. Ela é crua, fragmentada, por vezes exaustiva — no bom sentido.
Mas, por melhor que sejam as atuações, nenhuma delas consegue salvar um roteiro que parece montado a partir de expectativas genéricas sobre o que um “thriller de prestígio” deve conter. A introdução de Domhnall Gleeson como Jackie Lawson — o traficante ameaçador e meio misterioso — não funciona nem como vilão realista nem como símbolo da decadência ao redor. Ele parece deslocado, como se pertencesse a outro filme, ou pior, a um esboço de série da Netflix que nunca passou do piloto.
O filme avança em direção a um clímax previsível: Kate e Claire são forçadas a matar para sobreviver, literalmente. A invasão da fazenda e a sequência de confronto no celeiro são bem filmadas, há tensão, há urgência, mas há também a sensação de déjà-vu. O que poderia ser um momento de ruptura emocional e moral vira quase uma obrigação de gênero — como se a violência estivesse ali só para justificar o selo “thriller”. A morte do vilão deveria carregar peso, mas soa como mais uma convenção narrativa do que uma catarse.

Ao final, resta o silêncio. Um silêncio entre mãe e filha, entre duas sobreviventes que ainda não sabem se conseguirão se reconstruir. Esse silêncio, sim, é bonito. Mas não é suficiente para preencher o vazio de um filme que flerta com o profundo, mas recua antes de mergulhar.
Echo Valley ecoa ideias — dor, culpa, reconciliação, violência — mas não ressoa com consistência. É uma história que parece sempre prestes a dizer algo importante, mas para no esboço. No fim, o que fica é a lembrança de duas atrizes em alto desempenho e a sensação incômoda de que elas mereciam mais.
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