Poucos autores do cânone americano têm uma presença tão viva — e tão surpreendentemente variada — no cinema e na televisão quanto Walt Whitman e sua obra-prima: Leaves of Grass, que completa 170 anos em 2025.
Muito além de ser citado como referência literária, Whitman tornou-se uma espécie de narrador espiritual de jornadas interiores: seus versos aparecem não apenas como epígrafes ou citações, mas como bússolas para personagens em transformação. Em Now, Voyager, Sociedade dos Poetas Mortos, Breaking Bad e Bull Durham, Leaves of Grass deixa de ser apenas um livro — torna-se catalisador de viradas narrativas, instrumento de revolução subjetiva, e metáfora para a própria condição humana.

Now, Voyager: O desejo não revelado
O título do filme de 1942 protagonizado por Bette Davis e batidazo no Brasil como “Estranha Passageira” nasce diretamente de um dos versos mais célebres de Whitman, do poema “The Untold Want”:
“The untold want by life and land ne’er granted,
Now, voyager, sail thou forth to seek and find.”
“O desejo não revelado que a vida e a terra jamais concederam,
Agora, viajante, parte em busca de encontrá-lo.”
É uma convocação urgente à jornada pessoal — àquela que a sociedade, a terra natal ou a biologia não ofereceram. Charlotte Vale, a heroína do filme (e do romance de Olive Higgins Prouty), encarna essa travessia: ela rompe com o cerco familiar opressor, embarca literalmente num navio, e simbolicamente numa busca por si mesma. Não se trata de uma fuga, mas de uma reinvenção. Como o poema sugere, não basta desejar — é preciso navegar. Charlotte não conquista o amor romântico tradicional, mas encontra sua estrela: uma vida autônoma, com afetos escolhidos e responsabilidade por outro ser.

O verso abre com uma ausência: o desejo que nunca foi dito, articulado, nem satisfeito. Pode se tratar de sonhos suprimidos, vocações abafadas, ou mesmo do simples desejo de liberdade individual — elementos centrais na narrativa de Charlotte Vale. Ela representa justamente essa “carência não expressa”: a de uma vida plena, de um corpo livre, de um afeto que não a destrua, mas a cure.
Whitman afirma que esse desejo não foi concedido “pela vida nem pela terra” — isto é, pela natureza das coisas nem pelo mundo social. Isso indica que o sujeito não pode esperar passivamente que seus anseios mais íntimos sejam atendidos: eles precisam ser conquistados, desbravados.
Charlotte não recebeu da vida o amor, o respeito ou a liberdade que gostaria. A terra natal — Boston, no livro e no filme — simboliza uma sociedade opressiva, moralista, controlada por convenções familiares e sociais. A única forma de romper com essa cadeia é partir.

Este último verso é a culminação do impulso vital: sair para buscar e encontrar. Não basta desejar — é preciso agir, navegar, assumir o risco da travessia. “Sail thou forth” tem um ar bíblico, solene, mas também libertador. Whitman, poeta do eu e do corpo, convoca o leitor a viver de forma autêntica, sem mediadores.
Charlotte, ao final do filme e do livro, faz exatamente isso: ela não conquista o “final feliz” tradicional, mas encontra uma nova forma de viver — cuidando de Tina, com plena consciência de seus limites e escolhas. Ela não recebe a lua, mas aceita as estrelas.
Ao extrair esse verso como título, Olive Higgins Prouty inscreve sua heroína num arco mais profundo: o de quem rompe com o silêncio, enfrenta a ausência, e parte em busca do que ainda pode ser vivido. O título é tanto poético quanto filosófico. Ele sugere que a transformação não é algo que se espera passivamente — ela exige ação, coragem e disposição para se afastar do porto seguro.

Whitman, com seu otimismo transcendentalista e seu amor pelo indivíduo em expansão, empresta ao romance (e ao filme) uma dimensão espiritual: viver plenamente, mesmo que em fraturas, mesmo que fora do script, é um ato de heroísmo.
O trecho de Whitman é uma espécie de epígrafe existencial para Charlotte Vale e para todas as pessoas que, sufocadas por seus contextos, se veem obrigadas a partir em busca de si mesmas. Longe de ser um poema apenas sobre viagem externa, ele fala da mais difícil e libertadora das jornadas: a travessia interior rumo à autenticidade. É esse espírito que pulsa tanto nas páginas do romance quanto na interpretação inesquecível de Bette Davis no cinema.
Sociedade dos Poetas Mortos: Whitman como ethos
Em Sociedade dos Poetas Mortos (1989), Whitman é mais do que citado: ele é encarnado. Robin Williams, como o professor John Keating, transforma o poeta em uma filosofia pedagógica viva. O emblemático “O Captain! My Captain!” — poema escrito por Whitman em homenagem a Abraham Lincoln — torna-se símbolo da ligação afetiva entre mestre e discípulos, da liderança inspiradora que não se impõe, mas liberta. Quando os alunos sobem nas mesas ao final do filme e repetem o verso, é um gesto ritualístico de gratidão, desobediência e afirmação do “eu”.
“O Captain! My Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won…”
“Ó Capitão! Meu Capitão! nossa viagem temível terminou,
O navio resistiu a cada tormenta, o prêmio que buscávamos foi conquistado…”

No poema original, o “Capitão” é Lincoln, uma figura de liderança idealizada e trágica. No filme, a metáfora é transposta para Keating: ele liderou os alunos em uma jornada de autodescoberta e pensamento livre — mas foi “abatido” pelo sistema. O ato de subir nas mesas representa autonomia, coragem moral e gratidão, ainda que os alunos estejam em risco.
Outro verso fundamental, retirado de Song of Myself, ecoa na transformação do personagem Todd. Esse é um dos poemas mais longos e importantes de Whitman e o filme não recita esse poema extensivamente, mas vários de seus versos são mencionados ou parafraseados nas aulas e leituras do professor Keating.:
“I sound my barbaric yawp over the roofs of the world.”
“Lanço meu grito bárbaro sobre os telhados do mundo.”
Esse “yawp” — o grito primal — é usado por Keating para instigar Todd a encontrar sua voz. O momento é de catarse: a timidez dá lugar ao espanto poético. O verso se torna performance.

E ainda:
“That the powerful play goes on, and you may contribute a verse.”
“Que o poderoso espetáculo continue, e que tu possas contribuir com um verso.”
Essa ideia — a vida como peça em curso, e cada um com o direito (ou dever) de escrever seu verso — estrutura todo o ethos do filme. Não é apenas sobre poesia: é sobre autoria de si. Whitman aqui é revolução educacional, autonomia emocional e insurgência ética.
Whitman é o padrinho espiritual da jornada dos alunos. Sua poesia, nas mãos de Keating, encarna a missão do filme. Cada citação funciona como um rito de passagem para os jovens: da obediência para a expressão, da expectativa externa para a construção interna da identidade.

Em Breaking Bad: o poeta invertido
Em Breaking Bad, Leaves of Grass reaparece de forma mais sombria — e decisiva. Em um dos momentos mais memoráveis da série, Hank Schrader descobre no banheiro de Walter White um exemplar do livro com uma dedicatória comprometedora de Gale Boetticher, o ex-assistente e admirador de Walt, assassinado por Jesse:
“To my other favorite W.W.
It’s an honor working with you.
Fondly, G.B.”
A citação serve como gatilho da revelação: é através da poesia que Hank conecta Walt ao alter ego criminoso, Heisenberg. O episódio se chama “Gliding Over All”, trecho tirado de um poema de Leaves of Grass:
“Gliding o’er all, through all,
Through Nature, Time, and Space,
As a ship on the waters advancing,
The voyage of the soul — not life alone,
Death, many deaths I’ll sing.”
— Leaves of Grass, “Gliding Over All”
O uso é irônico: Whitman fala da travessia da alma pela existência, de consciência expandida. Walter, por outro lado, está “pairando” sobre um império de morte. A série usa Whitman para mostrar a perversão da liberdade americana: o ideal do “self-made man” transfigurado em dominação e vaidade. O livro, nesse contexto, é tanto símbolo de orgulho quanto instrumento de queda. Walt guarda Leaves of Grass como um troféu — e esse troféu o destrói.
O título do episódio é tirado diretamente do poema que aparece na Seção 271 de Leaves of Grass e que reflete a visão transcendentalista de Whitman: a ideia de que a alma viaja através da existência com consciência plena da vida e da morte, como um navio sereno que observa o mundo.
Walter está no auge de seu poder como traficante. Ele “paira sobre tudo” — tem controle sobre negócios, parceiros e até mortes. Mas esse “gliding over all” é irônico e sombrio porque é uma viagem rumo à corrupção total e Walt acredita estar acima das leis da moralidade. Ao citar Whitman, a série mostra a perversão do ideal romântico-americano de liberdade: Walt não é um “voyager” como Charlotte Vale em Now, Voyager, mas um usurpador da linguagem de Whitman.

E citam também, de forma indireta no blog de Gale Boetticher, que era fã de Whitman, outro trecho: “When I heard the learn’d astronomer; When the proofs, the figures, were ranged in columns before me…”. “Quando ouvi o astrônomo erudito, Quando as provas, os números, estavam dispostos em colunas diante de mim…” no qual Whitman contrasta o conhecimento científico racional com a experiência direta e intuitiva da natureza — exaltando a contemplação silenciosa como uma forma mais profunda de conexão com o universo.
Gale personifica o cientista romântico — vê a química com reverência quase poética. A poesia de Whitman representa para ele o casamento entre razão e espírito — o oposto do que Walt se tornaria.
Bull Durham: erotismo e sabedoria corporal
Já em Bull Durham (1988), a poesia de Whitman é usada de forma mais sensual e espirituosa. Annie Savoy (Susan Sarandon), espécie de sacerdotisa do amor e do beisebol, lê para o jovem jogador “Nuke” versos de I Sing the Body Electric:

“The armies of those I love engirth me and I engirth them…”
O poema celebra o corpo como templo e linguagem. Annie usa Whitman como prelúdio erótico, mas também como doutrina de vida: integrar corpo e mente, desejo e intuição, jogo e espiritualidade. Em um dos momentos finais, ela diz à câmera:
“Walt Whitman once said, ‘I see great things in baseball. It will repair our losses and be a blessing to us.’”
Essa frase, embora não esteja em Leaves of Grass, é atribuída a Whitman em entrevistas. Aqui, o beisebol — como a poesia — é cura, rito e transcendência cultural. Annie não apenas cita Whitman: ela vive segundo sua visão integrada e radicalmente democrática da experiência humana.
Lembrando que “I sing the body electric” é citado em Fama (1980) e Twilight Zone.

O verso como travessia
A recorrência de Leaves of Grass em obras tão distintas — um melodrama clássico, um drama educacional, um épico do crime, uma comédia romântica sobre esportes — revela algo profundo sobre a obra de Whitman: sua maleabilidade e universalidade. Seus versos funcionam como oráculos para diferentes formas de busca e transformação. Em todos esses casos, a presença do poeta não é decorativa: ela é estrutural.
Whitman celebra o corpo, a voz, o presente, a liberdade, a contradição — elementos fundamentais para personagens que enfrentam dilemas éticos, descobertas de identidade ou renascimentos afetivos. Sua poesia não propõe um caminho único, mas um chamado:
“Now, voyager…”
E o cinema, como arte da imagem em movimento, escuta — e responde.
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