Ao lado de Lizzy, Jane, Lydia e Kitty, Mary Bennet sempre pareceu deslocada. Em Orgulho e Preconceito, romance de Jane Austen publicado em 1813, Mary é a filha do meio — e, talvez, a mais esquecida. Seu retrato breve, muitas vezes cômico e pouco lisonjeiro, a resume como uma jovem pedante, moralista e desafinada ao piano, cuja presença serve quase exclusivamente de contraste para o brilho das irmãs.
Mas o que acontece com as mulheres que nunca são escolhidas? Que crescem sem o encanto necessário para dançar os bailes da vida? Essa é a pergunta central de The Other Bennet Sister, romance de Janice Hadlow lançado em 2020, que reimagina a trajetória de Mary com empatia, profundidade e um inédito protagonismo. Agora, essa nova abordagem ganha as telas na aguardada série da BBC, com estreia prevista para 2026, trazendo Ella Bruccoleri no papel principal e um elenco estelar que inclui Ruth Jones, Richard E. Grant, Indira Varma e Richard Coyle.

A Mary de Austen: uma silhueta à margem
No texto original, Mary é o oposto das irmãs Bennet mais celebradas. Enquanto Jane encanta pela beleza e Lizzy pela inteligência espirituosa, Mary se refugia em livros, máximas morais e longas performances musicais que testam a paciência alheia. Austen a descreve com leve ironia — ela é um tipo de “pseudo-erudita”, que acredita no mérito do estudo, mas carece de sensibilidade social. A personagem mal se movimenta dentro da trama: não tem pretendentes, diálogos memoráveis nem um arco de redenção. Ela permanece, literalmente, no canto do salão.
Contudo, essa ausência de brilho é também uma presença incômoda. Mary representa uma feminilidade que não se encaixa: sem beleza, sem charme, sem popularidade, mas com desejos e feridas que ninguém parece notar. E é nesse silêncio que The Other Bennet Sister encontra matéria-prima para sua reconstrução.
O livro de Janice Hadlow: Mary por ela mesma
Publicado em março de 2020, The Other Bennet Sister parte dos mesmos eventos de Orgulho e Preconceito, mas oferece a eles uma lente mais íntima e melancólica. Em vez de zombar de Mary, Janice Hadlow pergunta: e se ela estivesse tentando, desesperadamente, encontrar um lugar em um mundo que a despreza por ser diferente?
A obra acompanha Mary desde a infância, imersa em comparações constantes e no desprezo velado da própria mãe. Sua “escolha” por livros e virtudes rígidas não é vocação, mas defesa: um modo de existir quando todos os outros caminhos parecem fechados. Quando Lizzy e Jane partem para seus felizes casamentos, Mary fica — sozinha, sufocada em Longbourn, privada até mesmo do consolo de se rebelar. É nesse ponto que o romance de Hadlow se diferencia: ele dá continuidade à história, permitindo que Mary deixe o ambiente familiar para viver, trabalhar, sofrer, amar — e se tornar, enfim, uma mulher completa, e não apenas a “quinta irmã”.

A série da BBC: expansão e reparo
A adaptação televisiva de The Other Bennet Sister, produzida pela Bad Wolf para a BBC e a BritBox, está atualmente em produção no País de Gales e será exibida em 2026. Escrita por Sarah Quintrell, com direção de Jennifer Sheridan e Asim Abbasi, a série aprofunda ainda mais o universo de Austen, criando novos personagens e cenários para dar corpo à jornada de Mary.
Na trama, ela se torna governanta dos três filhos de seus tios, os Gardiner (vividos por Indira Varma e Richard Coyle), e passa a circular num meio mais estimulante, longe das pressões e do desprezo de Longbourn. Ali, conhece figuras como Mr. Hayward (Dónal Finn), Mr. Ryder (Laurie Davidson) e Ann Baxter (Varada Sethu), todos inéditos no cânone original, mas pensados para ampliar os horizontes afetivos e intelectuais de Mary. Ela finalmente é vista, desejada, confrontada — e, sobretudo, ouvida.
O elenco ainda inclui Richard E. Grant e Ruth Jones como Mr. e Mrs. Bennet, além de Poppy Gilbert como Lizzy, Maddie Close como Jane, Grace Hogg-Robinson como Lydia e Molly Wright como Kitty. A série promete reequilibrar o foco narrativo, valorizando o ponto de vista de quem sempre ficou à margem.

Por que Mary importa hoje
A escolha de resgatar Mary Bennet em pleno século 21 não é acidental. Ela personifica as muitas mulheres que não se encaixam nas molduras clássicas da feminilidade: nem belas, nem rebeldes, nem fáceis de amar. Sua história é sobre invisibilidade, mas também sobre resistência silenciosa. Mary tenta ser digna de amor sem nunca ter aprendido o que isso significa; tenta ser boa num mundo que nunca a acolheu com ternura.
Ao reescrevê-la, tanto Janice Hadlow quanto a BBC revelam o poder transformador da escuta e da reinterpretação. Em vez de ridicularizar a mulher que cita provérbios em voz alta, escolhem perguntar o que acontece depois que todos os casamentos se encerram — e o que há além do papel de coadjuvante. Mary Bennet, por fim, deixa de ser “a outra” para se tornar ela mesma.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
