Por que o Oscar Honorário é uma Reparação da Academia

Como publicado na Revista Bravo!

Por 45 anos de carreira é seguro dizer que Tom Cruise nunca usou de falsa modéstia quando o assunto era ganhar um Oscar. Ele sempre buscou o reconhecimento de seus pares com a mesma obsessão que buscou seu estrelato: dando tudo de si, sem fingir o contrário. Depois de tentativas e esnobadas, há pelo menos 20 anos ficou claro que a estatueta viria apenas como “honorária”. Mas agora que é fato, em 2025 finalmente Hollywood dará a ele um Oscar, fica ainda um ar de desdém de que é algo “menor”. Seria mesmo?

O Oscar é o ápice simbólico da indústria cinematográfica. Para muitos atores e diretores, ele representa não apenas um troféu, mas uma chancela de valor artístico, relevância cultural e prestígio profissional. Ao longo das décadas, a estatueta dourada transformou carreiras e consolidou legados. No entanto, nem todos os grandes nomes do cinema conseguiram conquistá-la da maneira tradicional – e o Oscar honorário, criado como forma de reconhecimento tardio ou complementar, tornou-se uma espécie de remédio nobre para a injustiça sistemática da Academia.

Receber um Oscar honorário é, por um lado, um privilégio: trata-se de uma homenagem feita por colegas de profissão, um tributo ao conjunto da obra, ao impacto duradouro de uma carreira. Por outro lado, é também uma confissão involuntária da própria Academia de que falhou com aquele artista no tempo devido. E nesse caso, Tom Cruise está em ainda melhor companhia do que sua “competição”. A lista dos que só receberam a estatueta fora de competição é muito mais impressionante do que os que venceram: Charles Chaplin, Buster Keaton, Cary Grant, Gene Kelly e Fred Astaire são alguns desses nomes ao lado de Cruise. Lendas e maiores do que “apenas astros ou atores”.

A glória do reconhecimento… com um gosto amargo

Quando Cary Grant subiu ao palco em 1970 para receber seu Oscar honorário, a Academia não apenas corrigia uma omissão gritante, mas também oferecia uma versão elegante do que muitos viram como um “prêmio de consolação”. Grant, um dos maiores astros do cinema, foi indicado apenas duas vezes durante sua carreira — e nunca venceu. Galã refinado, com timing cômico impecável e presença marcante em filmes de Alfred Hitchcock, Howard Hawks e George Cukor, foi sistematicamente ignorado por sua versatilidade sutil. É como se o que ele fizesse fosse “fácil demais”, algo que hoje todos percebem ser o contrário.

Outro caso emblemático é o de Charles Chaplin, cuja relação com o Oscar beira o trágico. Banido dos Estados Unidos durante o macarthismo, Chaplin foi deixado à margem da indústria por décadas. Quando recebeu o Oscar honorário em 1972, retornou aos EUA sob aplausos de pé. A cerimônia, marcada por emoção e aplausos de 12 minutos ininterruptos, foi uma reparação pública — mas também um reconhecimento tardio de que Chaplin, um dos pilares do cinema moderno, havia sido negligenciado enquanto seus pares recebiam troféus anuais.

O mesmo padrão se repetiu com Peter O’Toole, astro de Lawrence da Arábia, que chegou a recusar o Oscar honorário em 2002, alegando que ainda estava vivo e trabalhando, e que preferia vencer “do jeito tradicional”. A Academia manteve a homenagem. O’Toole, indicado oito vezes sem vencer, acabou aceitando o prêmio com elegância, mas deixou clara a ferida aberta.

Outros surpreendentemente sem Oscar foram Fred Astaire e Gene Kelly, dois dos maiores ícones da era de ouro dos musicais, foram sistematicamente esnobados pela Academia ao longo de suas carreiras. Astaire, que revolucionou a linguagem da dança no cinema com sua elegância fluida e precisão técnica, jamais foi indicado ao Oscar competitivo, mesmo tendo performances inesquecíveis em filmes como Top Hat e Swing Time. Recebeu apenas um Oscar honorário em 1950, o que muitos consideram uma reparação incompleta para um artista que definiu um gênero.

Gene Kelly, por sua vez, também nunca venceu um Oscar competitivo como ator ou diretor, apesar de ter co-dirigido e estrelado Cantando na Chuva, um dos filmes mais influentes da história. Seu único Oscar veio em forma de homenagem especial em 1952 “por sua versatilidade como ator, cantor, diretor e dançarino e especificamente por sua brilhante realização na arte da coreografia cinematográfica”. A falta de reconhecimento competitivo para ambos evidencia um antigo preconceito da Academia com os musicais e com performances físicas, que raramente são vistas como “sérias” o suficiente para merecer a estatueta dourada. No caso de Cruise, muitos dizem que é porque ele sempre deixou claro querer ganhar. Teria sido melhor mentir?

A importância real: conjunto da obra vs. vitória do ano

Paradoxalmente, o Oscar honorário pode ser mais duradouro do que muitos dos prêmios competitivos. Quantos ainda se lembram de quem venceu o Oscar de Melhor Ator em 2011? Mas todos sabem que Kirk Douglas, Lauren Bacall e Angela Lansbury foram homenageados pela sua carreira como um todo. A vitória anual premia uma performance isolada, muitas vezes condicionada por campanhas, marketing, política interna e timing cultural. Já o prêmio honorário celebra uma trajetória, um corpo de trabalho, uma marca inapagável.

Há, no entanto, uma dualidade implícita nesse tipo de homenagem: ele representa tanto o valor artístico definitivo quanto o fracasso institucional de reconhecê-lo em tempo hábil. Ao premiar Diane Warren, compositora indicada mais de dez vezes sem vitória, a Academia reconheceu seu talento, mas ao mesmo tempo confirmou um ciclo de sistemático desprestígio. O mesmo vale para diretores como Akira Kurosawa ou Satyajit Ray, ambos reverenciados fora de Hollywood, mas lembrados com atraso pela Academia.

Tom Cruise: sucessor de Newman?

A escolha recente de Tom Cruise para receber um Oscar honorário em 2025 reabre esse debate. Astro global, sinônimo de bilheteria por mais de três décadas, Cruise é também produtor influente e símbolo da resistência ao domínio dos streamings. Seus filmes marcaram gerações e, com Top Gun: Maverick, foi visto por muitos como salvador das salas de cinema pós-pandemia. A partir daí, era apenas uma questão de tempo que Hollywood prestasse essa homenagem oficialmente.

Ele foi indicado três vezes, mas seus méritos foram frequentemente atribuídos ao “charme” e ao “comercial”, enquanto papéis mais introspectivos ou ousados acabaram premiados em outros colegas. O Oscar honorário sinaliza uma admiração incontestável por sua relevância histórica — e talvez uma oportunidade para que Cruise, como Paul Newman, eventualmente também vença um prêmio competitivo na maturidade. Essa é minha aposta.

Newman é o modelo clássico desse percurso: indicado inúmeras vezes, ganhou o Oscar honorário em 1986 e, logo depois, venceu como Melhor Ator em 1987 por A Cor do Dinheiro – um filme inferior a muitos outros que protagonizou, mas que serviu como forma de compensação tardia. Ah , sim! COm quem ele contracenava nesse filme? Sim, Tom Cruise.

Quem foi o maior injustiçado?

Responder a essa pergunta envolve tanto crítica quanto emoção. Cary Grant é forte candidato porque foi vítima de preconceitos contra comédia e beleza. Chaplin também é nome inevitável, dada a magnitude de seu legado e o ostracismo político a que foi submetido. Já Tom Cruise, ainda em atividade, pode ter seu destino revertido — mas o fato de sua vitória vir por um prêmio honorário aponta para um ciclo histórico que persiste.

Outros nomes importantes incluem Peter O’Toole, Deborah Kerr, Glenn Close (ainda viva, sem prêmio) e Richard Burton. A lista é longa e reveladora de como o Oscar, embora prestigiado, nunca foi um sistema totalmente justo.

Entre o tributo e a dívida

O Oscar honorário é, ao mesmo tempo, um aplauso e um pedido de desculpas. É a consagração de quem sobreviveu às modas, às campanhas, aos lobbies e aos esquecimentos institucionais. Para o público, pode parecer a vitória mais nobre. Para muitos artistas, no entanto, chega como um eco distante de algo que deveria ter vindo antes.

No final, o que fica para a história é o legado. E nesse quesito, alguns dos maiores nomes da arte cinematográfica venceram — com ou sem estatueta competitiva. Há uma diferença sutil aqui: para ter o honorário, o homenageado precisa estar no patamar de Lenda e convenhamos, é uma competição muito mais acirrada. Tom Cruise já está entre os que mudaram a indústria do Entretenimento. Ele conseguiu o que sempre quis, só faltava esse Oscar. Que seja apenas o primeiro.

Alguns astros com Oscar “apenas” honorários

  • Buster Keaton
  • Gary Cooper
  • Stan Laurel
  • Hayley Mills
  • Maurice Chevalier
  • Bob Hope
  • Fred Astaire
  • Cary Grant
  • Charlie Chaplin
  • Lillian Gish
  • Groucho Marx
  • Edward G. Robinson
  • Jean Renoir
  • Howard Hawks
  • Mary Pickford
  • Akira Kurosawa
  • Satyajit Ray
  • Federico Fellini
  • Deborah Kerr
  • Kirk Douglas
  • Chuck Jones
  • Stanley Donen
  • Elia Kazan
  • Andrzej Wajda
  • Peter O’Toole
  • Blake Edwards
  • Sidney Lumet
  • Robert Altman
  • Robert F. Boyle
  • Lauren Bacall
  • Roger Corman
  • Gordon Willis
  • Kevin Brownlow
  • Jean-Luc Godard
  • Eli Wallach
  • James Earl Jones
  • Angela Lansbury
  • Steve Martin
  • Piero Tosi
  • Jean-Claude Carrière
  • Hayao Miyazaki
  • Maureen O’Hara
  • Spike Lee
  • Gena Rowlands
  • Jackie Chan
  • Donald Sutherland
  • Charles Burnett
  • Cicely Tyson
  • Marvin Levy
  • Lalo Schifrin
  • David Lynch
  • Lina Wertmüller
  • Samuel L. Jackson
  • Elaine May
  • Liv Ullmann
  • Diane Warren
  • Peter Weir
  • Angela Bassett
  • Carol Littleton
  • Quincy Jones
  • Juliet Taylor
  • Tom Cruise

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