De todas as histórias verdadeiras durante o período de The Gilded Age, os spoilers e vazamentos do episódio de domingo confirmam que haverá a citação nominal da escandalosa Madame X, um dos quadros mais famosos do final do século 19, assinado por John Singer Sargent.
O maior retratista do período, Sargent será contratado por Bertha Russell para imortalizar Gladys em um quadro, e vimos imagens dessa relação tanto no trailer como nas fotos divulgadas do 1º episódio. Conversando com o pintor americano, Bertha vai falar de Virginie Amélie Avegno Gautreau, a milionária que ficou eternizada como “Madame X” em um escândalo delicioso.
Julian Fellowes tem nos encantado com essas pequenas pérolas e vale conhecer mais detalhes, afinal, pouca gente sabe, mas um dos maiores escândalos da arte europeia nasceu… em Nova Orleans. Não, não estou exagerando. A protagonista dessa história nasceu ali, na charmosa e quente Louisiana, e acabou eternizada no que hoje é uma das obras mais famosas do Metropolitan Museum, em Nova York.

A origem da misteriosa Madame X
Amélie nasceu em 1859 em uma casa que ainda hoje existe, na Toulouse Street, no coração do French Quarter. Filha de uma descendente da nobreza francesa e de um major do exército confederado, ela perdeu o pai ainda criança, morto na Batalha de Shiloh, e pouco tempo depois perdeu também a irmã para a febre amarela. A mãe, buscando recomeçar, levou a filha para Paris, onde a família já tinha um apartamento. E foi ali que Amélie cresceu, educada com esmero e determinada a subir aos mais altos degraus da sociedade parisiense.
A estratégia deu certo — até certo ponto. Casou-se jovem com um banqueiro francês, Pierre Gautreau, o que lhe deu status e liberdade. Já não havia mãe para vigiá-la, e Amélie floresceu. Era considerada uma das mulheres mais belas de Paris, embora não tivesse a beleza clássica francesa. Seu diferencial? A pele extremamente pálida, que ela acentuava com pó de lavanda e até com doses pequenas de arsênico (!). Tingia os cabelos com henna, usava vestidos justíssimos e não se furtava a chamar atenção. Os boatos sobre seus casos extraconjugais alimentavam a imprensa de fofoca, e muitos homens — e artistas — ficavam obcecados por ela.
Um desses artistas era John Singer Sargent, pintor americano que também buscava firmar seu nome em Paris. Quando surgiu a chance de retratar Amélie, ele agarrou com unhas e dentes: ofereceu-se para pintar o retrato gratuitamente. Ela topou. Foram mais de 30 sessões ao longo de 1883, e o vestido usado — um modelo preto de alças finas — foi escolhido pelo próprio Sargent. Ele queria algo que transmitisse elegância e sensualidade, mas com um toque de mistério. Em sua versão original, o vestido tinha uma das alças caídas, revelando mais do ombro nu da modelo. Era sutil, mas provocante.
E foi justamente isso que incendiou Paris.

Em 1884, quando o retrato foi exposto no prestigiado Salon — a mais importante mostra de arte da França —, a reação foi imediata e feroz. Não importava que Amélie estivesse, tecnicamente, vestida. O escândalo estava no subtexto. A mulher do retrato era claramente uma dama da alta sociedade… mas estava ali, retratada como uma figura quase erótica, convidativa, segura de si. O que escandalizou os franceses não foi o corpo, mas a ousadia de unir sensualidade e status social. Uma mulher poderia ser desejável ou respeitável — jamais as duas coisas ao mesmo tempo.
Le scandal e a decadência
A crítica foi impiedosa. Disseram que sua pele parecia a de um cadáver. Chamaram a pose de ridícula, a paleta de cores de horrível. O jornal L’Événement sugeriu que, de longe, a pintura até parecia algo promissor, mas que de perto era pura feiura. Sargent foi atacado pela imprensa. Amélie virou piada em revistas satíricas como Le Charivari. Até sua própria mãe pediu ao artista que retirasse o quadro da exposição. Em desespero, Sargent tentou pelo menos pintar a alça de volta ao lugar — o que, eventualmente, ele fez.
O dano, no entanto, já estava feito. Amélie se recolheu da vida pública e nunca mais recuperou o mesmo fascínio social. Foi pintada outras vezes, mas sem repercussão. Envelheceu longe dos holofotes. Já Sargent, humilhado, deixou Paris e foi tentar a vida em Londres e depois em Nova York, onde sua carreira deslancharia novamente (aí entra a série The Gilded Age). No final da vida, pintaria figuras como Theodore Roosevelt e Rockefeller. Mas, ainda assim, considerava o retrato de Madame X sua melhor obra. Em 1916, vendeu a pintura ao Metropolitan Museum por mil dólares. Um ano antes, Amélie havia morrido. “Acho que é a melhor coisa que já fiz,” ele disse na época. E era. Só o mundo ainda não estava pronto para ver.

Hoje, o quadro é um dos mais famosos do museu nova-iorquino. Ainda inspira artistas, estilistas, músicos e escritores — como uma espécie de Mona Lisa americana, com origens sulistas e alma francesa. Quem a vê pela primeira vez talvez não entenda o escândalo. Mas basta parar e olhar um pouco mais para perceber que há algo perturbador ali: a tensão entre o que se espera de uma mulher e o que ela decide ser.
Madame X é mais do que um retrato. É uma provocação atemporal. E tudo começou com uma menina de pele muito branca, nascida na calorenta e vibrante Nova Orleans.
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