A Ascensão de uma Chef em The Bear

Sydney Adamu entrou em The Bear com a força silenciosa de quem sabe onde quer chegar, mas ainda não foi convidada para o centro da mesa. Desde sua primeira aparição, ela encarna o conflito entre ambição e pertencimento, entre talento bruto e um ambiente que a desafia a cada segundo. Jovem, negra, formada em culinária clássica, Sydney representa tudo o que aquele restaurante decadente não era — e tudo o que poderia vir a ser.

Sua chegada ao The Beef, ainda na primeira temporada, é um divisor de águas. Carmy vê nela uma promessa, uma extensão de seus próprios ideais gastronômicos, mas também um espelho que o confronta. Ela assume o cargo de sous chef não apenas para organizar papéis ou inventariar o estoque, mas para injetar método, respeito e uma nova linguagem em uma equipe acostumada ao caos. Inicialmente encarada com desconfiança, especialmente por Richie, ela permanece. E, aos poucos, cresce. Enfrenta crises, erra feio (o episódio do risoto é emblemático), quase desiste, mas retorna mais forte — e mais determinada a não apenas ser ouvida, mas a liderar.

Mas há um componente subjetivo e até desconfortável na forma como ela se move dentro do restaurante — algo que me toca diretamente. Sydney é uma personagem millennial por excelência. Ela entra naquele espaço com um brilho nos olhos de quem é fã, de quem acredita num ideal de trabalho criativo coletivo e busca um lugar de pertencimento. Mas, rapidamente, esse olhar vira ressentimento. Ela quer mais do que executar: quer ser tratada como igual, quer ser reconhecida como alguém à altura de Carmy — um ídolo para ela, mas também um obstáculo emocional. E apesar da parceria crescente entre eles, esse desejo de igualdade plena nunca se realiza completamente. Ela é ouvida, sim. É respeitada, sim. Mas é suficiente? A série sugere que talvez não.

Na segunda temporada, Sydney ganha uma das jornadas mais sensíveis e inspiradoras da série. O episódio “Sundae” é praticamente um curta à parte, um passeio de bicicleta por Chicago que é também uma travessia interna. Ela se emociona, se alimenta, pesquisa, observa — e transforma tudo isso em ideia. É nessa solidão ativa que percebemos o quanto ela deseja criar algo próprio, sem perder a conexão com o mundo ao redor. E é nesse momento também que a série começa a deixá-la respirar fora da órbita de Carmy. A mudança de figurino, os gestos mais seguros, os olhares atentos: tudo em Sydney comunica que ela está deixando de ser uma promessa para se tornar um pilar do que The Bear quer construir.

Mas mesmo nessa ascensão quase estelar, há algo que inquieta: Sydney é, de muitas formas, o verdadeiro talento da série. Seu prato — o “Seven Fishes” reinventado — se torna o mais elogiado e popular do restaurante. Seu domínio técnico é constante. Sua escuta, apurada. Sua ética de trabalho, irrepreensível. E, no entanto, ela continua sendo atropelada emocionalmente por homens. Carmy, com seu caos psíquico e narcisismo funcional, a empurra e a puxa conforme suas próprias crises. E agora, Marcus, cuja dor pela perda da mãe é real, mas que também começa a ocupar mais espaço narrativo, ameaça eclipsá-la afetivamente. Mesmo quando todos a reconhecem — Carmy, Richie, Tina, a equipe — nada parece bastar. O silêncio após o elogio. A hesitação depois da entrega. O reconhecimento que nunca vem no tempo certo, nem na medida exata. E talvez nunca venha.

Na terceira temporada, Sydney transita entre a tensão emocional e a lucidez profissional. Ela sente o peso da expectativa — do restaurante, de Carmy, de si mesma. Suas crises de ansiedade não são triviais, mas são tratadas com honestidade e empatia. E quando Carmy começa a colapsar sob o próprio ego, é Sydney quem segura a estrutura. Não com gritos, mas com atitude. Não com imposição, mas com firmeza. Ela sabe o que está em jogo: a comida, sim, mas também as pessoas, os vínculos, a dignidade de cada um ali. Sua liderança cresce de forma orgânica, como deve ser. E quando ela assume a direção emocional da cozinha — mesmo sem o título oficial —, o público sente que ela chegou onde precisava.

Só que o paradoxo permanece: Sydney amadurece, mas ainda está presa. Não consegue sair, mesmo quando tudo aponta para isso. Também não consegue aceitar que Carmy vá embora. É como se seu destino estivesse colado ao dele, mesmo sabendo — como nós sabemos — que ela já é maior do que ele em muitos aspectos. O trauma deles ecoa um no outro: ambos órfãos, ambos filhos da pressão e do luto, mas ela ainda tem um pai vivo que a apoia, que a espera, que lhe oferece um porto. E ela hesita. Ela não sabe se quer ancorar ali. Há algo de profundamente triste em ver uma personagem tão talentosa continuar à espera de permissão — para partir, para liderar, para ser feliz.

O final da quarta temporada consolida esse embate interno. Carmy pensa em sair. Sydney hesita. Mas após um episódio catártico envolvendo o pai e um embate decisivo com Carmy, ela permanece. E mais: torna-se sócia, ao lado de Sugar e Jimmy. É ela quem propõe que Richie entre na sociedade. É ela quem entende que um restaurante não se constrói apenas com técnica, mas com confiança mútua. A menina promissora da primeira temporada agora é a força centrípeta da série. E a história começa a girar em torno dela.

E isso tudo não seria possível sem Ayo Edebiri. Atriz, roteirista, comediante, diretora — ela é o tipo de artista que parece estar sempre dois passos à frente. Nascida em Boston, filha de imigrantes nigerianos e barbadenses, ela passou por comédia stand-up, roteiro de séries como Big Mouth e Dickinson, e hoje está entre os nomes mais respeitados da nova geração de Hollywood. Em The Bear, ela não apenas interpreta Sydney: ela a constrói com um detalhismo que vai das mãos que cortam cebola às pausas que dizem mais que os diálogos. Ayo treinou em escola de gastronomia, cozinhou de verdade, fez estágio em restaurante e entregou uma atuação de tamanha humanidade que é difícil lembrar que se trata de uma ficção. Na terceira temporada, ela ainda dirige um episódio — “Napkins” — com a sensibilidade de quem sabe onde está a alma da história.

O futuro da série é incerto, mas o de Sydney parece mais claro: ela é quem tem o olhar para frente, o talento para o agora e a empatia para sustentar um coletivo. É uma protagonista que desafia os moldes tradicionais: não precisa ser trágica, nem imbatível, nem salva pelo amor. Ela salva a si mesma, e aos outros, todos os dias, com esforço, escuta e coragem.

Se Carmy é o trauma e a obsessão, Sydney é a cura possível. E Ayo Edebiri, com sua entrega e inteligência cênica, transforma essa possibilidade em realidade dramática — com uma das personagens mais completas, contraditórias e fascinantes da televisão contemporânea. E que, como tantas mulheres brilhantes, ainda luta para ser suficiente num mundo que raramente está pronto para reconhecer quem realmente sustenta a cozinha.


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