O recap do episódio da semana de And Just Like That pode ser feito em poucas linhas, mas parágrafos inteiros podem (e devem) ser dedicados à desconstrução de Miranda Hobbes no universo de Sex and the City. Nunca exatamente uma personagem popular, embora brilhantemente defendida por Cynthia Nixon, Miranda tem passado por uma transformação incompreensível há muitos anos — desde antes mesmo de AJLT.

O episódio da semana serviu para sinalizar os próximos dramas: Aidan pode ter concorrência com a chegada do vizinho euroticamente enigmático de Carrie, alguém que se encaixa perfeitamente no biotipo de homem que ela ama — intelectual, rico, famoso e indisponível. Trata-se de um escritor renomado, conhecido por biografar figuras como Winston Churchill e Henrique VIII, e que, estranhamente, é desconhecido justamente por Carrie — a jornalista do grupo. O fato de ela não saber quem ele é coloca em dúvida não apenas seu talento, mas até seu intelecto. A dica de que ela irá se apaixonar? Ele vive seis meses em Nova York e seis em Londres. Quem esperaria cinco anos pelo cara da Virgínia?


O “meet cute” dos dois gira em torno de um incômodo: ele se irrita com o som dos saltos de Carrie (mais um homem querendo mudá-la?), e ela tenta amansá-lo com uma cesta de guloseimas, mantendo-se simpática. O terreno comum entre eles já está traçado — além do jardim: os livros que estão escrevendo. Aidan não terá chance.
Seema está na pior desde que perdeu o emprego, mas a amizade com o jardineiro pode sinalizar uma nova fase pessoal. Lisa, por sua vez, enfrenta um tipo semelhante de perigo periférico, admitindo para Charlotte que sente uma crush pelo novo editor.
Falando em Charlotte, volto a me preocupar com Harry. Desde que vi que gravaram cenas de um funeral, temi por uma nova viúva no grupo. Harry garante para Charlotte (e para nós), ainda que sem convicção, que o câncer de próstata que descobriu é curável. A falta de sensibilidade de Charlotte ao desabafar com Carrie, dizendo que não sabe como viver sem o marido — e a total apatia de Carrie, que nem se emociona nem menciona Mr. Big — revelam que os bastidores seguem “contra” o ator Chris Noth, o que é lamentável do ponto de vista narrativo.

E então chegamos a Miranda, ponto central das maiores críticas à franquia desde que ela ganhou protagonismo — algo que já vinha se deteriorando nos filmes. Na série original, Miranda era a mulher bem-sucedida, racional, independente, a mais “madura” das quatro amigas. Seu arco era justamente o de baixar a guarda e se apaixonar pelo homem improvável. Foi bonito.
Mas Miranda virou um paradoxo ambulante: destruiu a autoestima de Steve por conta de suas próprias frustrações após ter abdicado da carreira e de Manhattan pelo filho e o marido. Em vez de vermos o desenvolvimento dessa crise com sensibilidade, ela virou um trem desgovernado. Tudo o que ela criticava em Steve hoje se reflete no modo como age com os outros. Há três temporadas ela vive como nômade, hospedando-se na casa dos outros. Como assim? E ela trabalha na ONU há pelo menos duas temporadas! Teria condições materiais de alugar ou comprar algo.
Hoje, ela tem uma namorada decente e interessante, mas ainda não se mudou de vez para a casa dela (onde já foi rejeitada pelos cachorros) e estava hospedada em um Airbnb, onde se sentiu ameaçada pelo vizinho que ouve heavy metal pelado. Em seguida, muda-se para a casa de Carrie, onde chega fazendo barulho, espalha roupas, pega roupas emprestadas, vasculha a geladeira, se serve sem cerimônia, usa a mesa nova e cara de jantar como se fosse dela e do escritório — espalhando tudo, sujando — e, como se não bastasse, anda pelada pela casa. Nada disso gera empatia, nem sequer um riso.


Por que Miranda se tornou a personagem mais problemática da série? Carrie continua anestesiada, Charlotte mantém a coerência que falta às outras e se prepara para uma nova e triste etapa pessoal. Mas Miranda?
O sinal mais evidente de que o desenvolvimento de Miranda está equivocado é que qualquer personagem que cruza seu caminho é descartado da trama: Che, Nya, Steve e até quase seu filho. Miranda virou uma sexagenária caótica, sem noção mínima de espaço ou educação — o oposto do que foi por décadas. Honestamente, precisamos mesmo dela?
O retrato atual de Miranda é mais do que um erro pontual de roteiro — é um sintoma de uma crise de identidade da série como um todo. Enquanto And Just Like That tenta se atualizar e representar novos tempos, parece esquecer que evolução de personagem não pode significar destruição completa de sua essência. Miranda, que por décadas representou racionalidade, ambição e até uma certa ternura escondida, tornou-se uma caricatura incoerente, sem rumo, sem delicadeza e sem autoconsciência.

O que está em jogo não é apenas nossa empatia com a personagem, mas a credibilidade de toda uma narrativa que já nos deu mulheres complexas, falhas, mas genuínas. Se tudo que Miranda foi pode ser descartado em nome de conveniências narrativas ou agendas mal resolvidas, como confiar no futuro de qualquer outro personagem da série?
No fim das contas, talvez a pergunta não seja se ainda precisamos de Miranda. Talvez a pergunta real seja: os roteiristas ainda sabem quem ela é?
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