Em 1924, enquanto trabalhava em Mrs. Dalloway, Virginia Woolf escreveu uma das mais sensíveis e perspicazes leituras de Jane Austen, concentrando-se especialmente em Persuasão, o último romance completo da autora. Publicado postumamente em 1817, Persuasão marca uma mudança de tom dentro da obra austeniana: é mais melancólico, mais introspectivo, mais interessado no que não se diz do que naquilo que se narra diretamente. Woolf percebeu isso com agudeza e viu nessa mudança uma pista do que Austen poderia ter se tornado se não tivesse morrido precocemente, aos 42 anos.
O que talvez Woolf não tenha afirmado abertamente, mas que se pode intuir com clareza, é que Mrs. Dalloway, a obra que escrevia no mesmo período, dialoga intimamente com essa Austen mais madura, silenciosa, vulnerável. As afinidades entre Persuasão e Mrs. Dalloway são muitas, embora se manifestem mais como ecos e convergências do que como influência direta.


Ambas as obras se estruturam ao redor de um arrependimento no qual a protagonista revive, em silêncio, lembrando dos momentos do passado e confrontando escolhas fundamentais. Em Persuasão, Anne Elliot, aos 27 anos, reencontra o homem que foi o amor de sua juventude, Frederick Wentworth, e com ele, todo um tempo de perdas e renúncias. Em Mrs. Dalloway, Clarissa, ao preparar uma festa, revisita memórias e afetos que pareciam adormecidos — sobretudo sua ligação com Peter Walsh e sua amizade intensa com Sally Seton. Ambas são mulheres marcadas pelo tempo, pela consciência das oportunidades perdidas e pela necessidade de reorganizar o presente à luz do que ficou para trás.
Mais do que os enredos, o que aproxima as duas obras é o tom interiorizado e a maneira como suas autoras constroem a subjetividade feminina a partir do que é não dito. Woolf, em seu ensaio, elogia justamente essa capacidade de Austen de mostrar “não apenas o que as pessoas dizem, mas o que deixam de dizer”. É uma frase que se aplica perfeitamente também à própria Clarissa Dalloway, cuja existência parece girar em torno daquilo que nunca foi expresso abertamente — sentimentos reprimidos, afetos velados, pequenos traumas e grandes silêncios.

Outra afinidade profunda está na percepção do tempo. Em Persuasão, Anne é uma personagem que sente o peso dos anos, que amadureceu em silêncio, afastada da ação, mas com uma rica vida interior. Já Clarissa, embora mais socialmente visível, também é uma mulher em processo de envelhecimento, que percebe seu corpo e sua mente como espaços em transformação. Ambas são marcadas pela consciência da passagem do tempo, pela perda de ilusões e pela tentativa de compreender o valor do que se viveu — e do que ainda se pode viver.
A empatia também é um traço fundamental das duas personagens. Anne Elliot observa o mundo com delicadeza e compaixão — mesmo aqueles que a feriram. Clarissa Dalloway, à sua maneira, se conecta com os sentimentos alheios, mesmo que à distância. Sua identificação profunda com Septimus, o veterano traumatizado, nunca é verbalizada, mas está ali, como se houvesse entre eles uma rede silenciosa de reconhecimento — algo que ecoa o tipo de sensibilidade que Woolf admirava em Austen.
Na leitura de Persuasão feita por Woolf, há uma clara projeção: ela enxerga em Austen não apenas uma predecessora, mas uma espécie de alma gêmea artística. Ao afirmar que Austen teria criado “um método novo, claro e composto como sempre, mas mais profundo e mais sugestivo”, Woolf descreve algo muito próximo do que ela mesma estava prestes a realizar em Mrs. Dalloway. A frase “não apenas o que são, mas […] o que é a vida” parece anunciar exatamente a ambição estética do romance de 1925: capturar a experiência humana em toda a sua ambiguidade, em seus gestos mínimos, em suas epifanias contidas.

A intertextualidade entre Persuasão e Mrs. Dalloway talvez não seja óbvia, mas é profundamente emocional. Woolf reconhece em Austen a mesma contenção que ela própria cultivava; a mesma inteligência emocional sutil, a mesma resistência aos extremos — e, acima de tudo, a mesma confiança de que o silêncio pode ser uma forma mais poderosa de revelação.
Ler Mrs. Dalloway à luz da leitura que Woolf faz de Persuasão é, assim, uma forma de escutar esse diálogo entre duas mulheres geniais, que escreveram com coragem sobre aquilo que muitas vezes era deixado à margem: o interior das mulheres, o peso da memória, e a arte de viver com o que não foi dito.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
