Quando Downton Abbey estreou na televisão britânica em setembro de 2010, poucos imaginavam que a série, uma produção de época sobre uma família aristocrática e seus empregados no interior da Inglaterra, se tornaria um fenômeno global. Criada por Julian Fellowes, vencedor do Oscar por Assassinato em Gosford Park, a série se passava no início do século 20 e misturava drama, política, história e as complexas dinâmicas sociais de um país à beira da modernidade. Ao combinar roteiros afiados, figurinos suntuosos e uma abordagem emocionalmente acessível a temas como classe, tradição e progresso, Downton Abbey rapidamente se consolidou como uma das produções britânicas mais bem-sucedidas do século 21. Tanto que seu extraoficial spin-off, The Gilded Age, está seguindo o mesmo caminho de sucesso.
A história de Downton começa em 1912, com o naufrágio do Titanic, evento que altera drasticamente o destino da família Crawley. Com a morte do herdeiro do título de Conde de Grantham no desastre, surge a necessidade de encontrar um novo herdeiro: Matthew Crawley, um jovem advogado de classe média que, de repente, se vê envolvido nos assuntos da aristocracia. Esse ponto de partida já introduz um dos grandes temas da série — o embate entre tradição e mudança. Enquanto Robert Crawley (Hugh Bonneville), o patriarca, tenta manter a casa e os valores da nobreza, suas filhas e empregados começam a questionar e subverter os papéis sociais que lhes foram atribuídos.

Ao longo de suas seis temporadas (2010–2015), Downton Abbey acompanhou a família Crawley e seus criados durante períodos históricos turbulentos, incluindo a Primeira Guerra Mundial, a pandemia da gripe espanhola, o colapso do Império Britânico e os primeiros ventos da revolução social que redefiniriam a Europa no século 20. Mary (Michelle Dockery), Edith (Laura Carmichael), Tom Branson (Allen Leech) e a icônica matriarca Violet Crawley (Maggie Smith) se tornaram personagens centrais de uma narrativa que equilibrava romance, escândalos, reviravoltas políticas e tragédias familiares.
O sucesso foi meteórico. A série foi transmitida em mais de 200 países, tornou-se a série britânica mais indicada ao Emmy até então (com recordes que rivalizavam com produções americanas) e conquistou um público fiel que ia muito além do Reino Unido. Nos Estados Unidos, transmitida pela PBS, Downton Abbey virou símbolo de sofisticação e escapismo de qualidade, além de um raro exemplo de drama de época com apelo massivo. Parte do fascínio vinha do rigor histórico e da atenção aos detalhes, com cenários autênticos como o castelo Highclere, usado como residência da família fictícia.
Contudo, nem tudo foram flores. A série enfrentou críticas por idealizar excessivamente a aristocracia britânica e por tratar questões como colonialismo, desigualdade e racismo de forma superficial ou anacrônica. O arco da personagem Daisy, por exemplo, foi considerado por muitos como promissor mas mal aproveitado. Já as tramas envolvendo Thomas Barrow, um personagem gay em tempos hostis à homossexualidade, foram elogiadas pela tentativa de humanização, mas também criticadas por falta de maior profundidade. Outra controvérsia notória foi o episódio que envolveu um estupro — que dividiu a audiência e críticos quanto à necessidade e ao tratamento da violência sexual em uma série que geralmente mantinha tom mais contido.

Em 2015, a série chegou ao fim em sua sexta temporada, com um desfecho que ofereceu finais felizes (ou ao menos esperançosos) para a maioria dos personagens. Mas o apelo do universo de Downton Abbey era tão grande que logo vieram os filmes. O primeiro longa estreou em 2019, trazendo a visita do rei George V e da rainha Mary à propriedade como mote para reunir novamente todo o elenco. O filme foi um sucesso de bilheteria, mostrando que o interesse do público não havia diminuído. Em 2022, veio Downton Abbey: A New Era, que levou parte dos personagens ao sul da França, introduzindo novas tramas e um certo tom de despedida — especialmente com o arco final da Condessa Violet, interpretada por Maggie Smith, que morre deixando à neta Mary o legado simbólico de Downton.
Agora, um terceiro filme foi confirmado como “o final definitivo” da saga. O trailer de Downton Abbey: The Grand Finale, deixou claro que a despedida será dramática, elegante e cheia de emoção. Com estreia marcada para o fim de 2025, a prévia revelou que Lady Mary (Michelle Dockery), sempre o pilar racional e moderno da família, enfrentará um dos maiores escândalos da sua trajetória: o divórcio de Henry Talbot (Matthew Goode). A sequência central do trailer mostra Mary em um baile luxuoso sendo publicamente exposta por uma nova personagem, interpretada por Joely Richardson, que anuncia em voz alta: “Ela se divorciou!”, provocando olhares de julgamento e constrangimento generalizado. A cena, claramente um momento-chave, simboliza o peso que a reputação ainda carrega — mesmo para uma mulher à frente do seu tempo como Mary.
O divórcio de Mary parece marcar uma virada tanto pessoal quanto institucional para Downton Abbey. Ao mesmo tempo em que lida com o escândalo, ela é colocada sob pressão para provar que está apta a liderar a propriedade e manter a herança da família em meio a mudanças sociais e econômicas. O trailer também sugere desafios financeiros e crises internas, sinalizando que o legado dos Crawley está novamente em risco — mas agora sob o olhar e a liderança de uma nova geração.
Outros pontos do trailer mostram o retorno de personagens importantes, como Harold Levinson (Paul Giamatti), irmão de Cora, e a introdução de novos rostos, como Alessandro Nivola, cujo papél ainda está cercado de mistério. A ambientação nos anos 1930, com todo o seu glamour, tensão política e prenúncios de transformação, dá um tom solene e nostálgico à narrativa. O uso de luzes douradas, bailes e retratos antigos reforça que este é, de fato, o capítulo final.


Um momento especialmente comovente do trailer é a homenagem à Condessa Viúva, Violet Crawley, interpretada por Maggie Smith. Em uma das cenas, Mary observa um retrato da avó e diz: “Everything has led to this” — frase que funciona tanto como encerramento de um ciclo quanto como reconhecimento do impacto de Violet sobre todos à sua volta. Maggie Smith faleceu em setembro de 2024, e o filme parece aproveitar esse gancho real para dar ainda mais peso à despedida.
As reações ao trailer foram intensas. Nas redes sociais, fãs de longa data se mostraram emocionalmente abalados com as cenas. Comentários como “Fifteen years with this family” e “No one’s leaving that cinema com dry eyes” (ninguém vai sair desse cinema com os olhos secos) tomaram conta de fóruns e páginas dedicadas à série. Em plataformas como o Reddit, alguns usuários expressaram cansaço com a extensão da franquia, dizendo que os filmes anteriores já pareciam desnecessários, mas admitiram que ainda assim assistiriam por apego aos personagens. Por outro lado, muitos destacaram que o divórcio de Mary adiciona um drama relevante e coerente com o arco da personagem, mostrando sua luta contínua para conciliar liberdade pessoal e responsabilidade tradicional.
Matthew Goode, que interpretou Henry Talbot, confirmou que não participa do filme, e brincou em entrevistas que seu personagem havia “virado uma alface molhada” — uma forma bem-humorada de dizer que Henry perdeu força dramática ao longo dos anos. A ausência do ator, já notada nos dois primeiros filmes, agora é explicada diretamente pela separação.

Além disso, a crítica já começou a especular que o longa deve tratar temas mais densos, como o avanço do fascismo na Europa, as transformações do papel da mulher na sociedade inglesa e o fim da era das grandes casas aristocráticas. Tudo indica que Downton Abbey: The Grand Finale será não apenas um encerramento afetivo, mas também um retrato de uma época em dissolução — o canto do cisne de um mundo que resistiu o quanto pôde às forças da modernidade.
Assim, Downton Abbey permanece, mais de uma década depois de sua estreia, como um símbolo de nostalgia, tradição e do eterno fascínio que o público internacional tem pelo passado britânico. Mais do que uma série sobre uma família nobre, é uma crônica sobre um mundo em transformação — um mundo que ainda ressoa nas salas de estar do século 21.
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