Explorando Mães Icônicas em Documentários: Jayne e Rita

Duas mulheres, dois mitos, dois documentários profundamente pessoais — mas, acima de tudo, duas cartas de amor de filhos para suas mães. Rita Lee: Mania de Você e My Mom, Jayne não são apenas retratos biográficos. São gestos íntimos, emocionados e corajosos de filhos que, diante da figura mítica de suas mães — públicas, idolatradas, mal compreendidas — tentam encontrar a mulher por trás da lenda. E, nesse processo, entendê-las, homenageá-las e, talvez, se reconciliar com o que foi vivido e com o que faltou viver.

Tanto João, Beto e Antonio Lee quanto Mariska Hargitay partem de lugares distintos, mas com um mesmo impulso: reconstruir a mãe a partir de memórias, fragmentos, silêncios, afetos. A diferença é que os filhos de Rita viveram décadas ao lado da mãe — convivendo com sua genialidade, seus altos e baixos, seus amores e suas reclusões — enquanto Mariska perdeu Jayne Mansfield aos três anos de idade, num acidente trágico do qual escapou por pouco. A ausência tornou sua busca ainda mais vital: o documentário My Mom, Jayne é, em grande parte, uma tentativa de preenchimento — uma investigação afetiva feita com o coração na mão.

Rita Lee: Mania de Você, lançado pela Max em 8 de maio de 2025, exatamente dois anos após a morte da cantora, é todo costurado pelo olhar dos filhos, do viúvo Roberto de Carvalho e de alguns amigos íntimos. O tom do filme é orgânico, às vezes até improvisado — como revelou João Lee, que contou que as gravações foram feitas três semanas antes da partida da mãe. A emoção era inevitável. Há uma cena particularmente tocante em que os três irmãos leem, em câmera, uma carta deixada por Rita. Dois deles nunca tinham lido o texto antes. O que vemos ali é cru, genuíno, sem artifício.

O foco do documentário é a Rita mãe, a Rita mulher. Há passagens sobre seus vícios, sua luta contra o câncer, suas fases de isolamento. Musicalmente, o filme concentra-se na fase pop e amorosa, a partir da união com Roberto e o sucesso com o Tutti Frutti. A ausência quase total da fase d’Os Mutantes — que lançou Rita ao estrelato nos anos 60 — causa um vazio evidente. Segundo informações, o uso de imagens foi barrado por Sérgio Dias, mas o tema poderia ter sido abordado de outras formas. Para os fãs mais antigos e para a história do rock brasileiro, isso pesa.

A construção é mais emocional que crítica. Os depoimentos de figuras como Gilberto Gil e Ney Matogrosso soam protocolares, e o documentário evita mergulhos mais profundos na complexidade de Rita — uma mulher que, em vida, sempre foi mais sincera, mais ácida, mais corajosa do que qualquer roteiro conseguiria traduzir. Quem leu suas autobiografias sente falta de camadas. Ainda assim, Mania de Você é honesto em seu propósito: é um adeus doce, comovente, feito por quem a amava de verdade.

My Mom, Jayne, da HBO, parte de um lugar de ausência. Mariska Hargitay mal teve tempo de conhecer Jayne Mansfield. Estava no carro que vitimou a mãe, sobreviveu presa sob o banco, ainda bebê. Criada pelo pai adotivo, Mickey Hargitay, e pela madrasta, teve uma infância feliz, mas marcada por lacunas e silêncios sobre a figura que gerou tanta comoção e mistério. Com o tempo, descobriu que Mickey não era seu pai biológico — uma revelação dolorosa que reforçou sua busca por compreender quem realmente foi sua mãe.

O filme avança em espiral: cartas, fotos, fitas antigas, conversas com os irmãos e, num momento catártico, o encontro com seu pai biológico, o artista Nelson Sardelli. É nesse encontro que o filme atinge seu auge emocional. Jayne Mansfield, eternamente comparada a Marilyn Monroe, era vista como caricatura, um produto da indústria do desejo. Mas Mariska revela outras Jaynes: a mãe amorosa, a mulher brilhante, a atriz frustrada que queria ser levada a sério. Jayne era muito mais que a loira de voz infantilizada que os filhos achavam estranha. Era vulnerável, ambiciosa, machucada.

Mariska não tenta santificar Jayne. Ao contrário. Expõe as contradições, reconhece as falhas, elabora a dor. E no fim, ao dizer à mãe “Eu me vejo em você pela primeira vez”, fecha um ciclo de busca e pertencimento que ressoa para qualquer um que já tentou entender os pais como pessoas reais, falhas e humanas.

Rita Lee e Jayne Mansfield tiveram vidas muito diferentes, mas foram, cada uma à sua maneira, mulheres que desafiaram normas, criaram mundos próprios e pagaram caro por isso. Seus filhos, agora adultos, artistas e herdeiros não só de seus nomes, mas de suas dores e legados, escolheram contar essas histórias com o coração aberto.

Mania de Você e My Mom, Jayne não são documentários completos — e nem pretendem ser. São retratos íntimos, parciais, emocionais. São o que filhos podem oferecer quando se sentam diante do espelho da memória: amor, saudade, admiração. E a coragem de olhar para trás e dizer: “Agora eu te vejo de verdade, mãe”.


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