A Queda de Theo em The Buccaneers

Mesmo só praticamente usando o título e uma idéia do livro original The Buccaneers, era necessário destruir um personagem que até aqui é apenas uma vítima de todo esquema e circunstâncias: Theo. Nem sempre os vilões nascem assim. Às vezes, eles são feitos. E no universo solar e intensamente emocional de The Buccaneers, o duque, interpretado por Guy Remmers, talvez seja um dos exemplos mais fascinantes dessa transformação.

No episódio central da segunda temporada — aquele em que Theo enfim descobre que os sentimentos entre Nan (Kristine Froseth) e Guy (Matthew Broome) nunca deixaram de existir —, o personagem passa por um terremoto emocional tão forte que parece não restar pedra sobre pedra do homem que conhecíamos. O que vemos depois disso não é exatamente um antagonista, mas uma versão radicalizada de si mesmo. Theo não se torna maldoso; ele se torna livre. E para um homem criado numa sociedade que sufoca qualquer manifestação de sentimento, essa liberdade tem um custo altíssimo.

Nesse descompasso histérico de personagens que só se movimentam por sentimentos em turbilhão, Theo se vê vítima dos esquemas de sua mãe e um tolo que foi útil e enganado por todos em quem mais confiou. Ele é duro com Nan, eternamente chata e insensível, ela admite que casou com ele apenas pelo título, mas se ofende quando ele cobra que forneça um herdeiro. Coisas do anacronismo da série.

Assim, Nan mais uma vez se joga no destino humilhando a única pessoa que jamais mentiu para ela como Guy e até mesmo sua família, que nunca cobrou nada dela como a sogra, que a aceitou como era e só pediu que o escolhesse. Eu detesto a Nan dessa versão de The Buccaneers.

E Lizzy, que aceitou se casar com um cara legal, está apaixonada por Theo (ela adora os homens das irmãs Saint-Clair, só avisando) e há mesmo um clima entre eles, mas também há Nan, casamentos e outros impedimentos.

A transformação de Guy, pelo menos, parece que vai trazer mais interesse para uma história insossa. Há mais problemas no ar: Jinny está se envolvendo com Guy, portanto Nan tem competição séria dentro e fora do casamento.

A mãe de Theo faz outra bobagem para estragar ainda mais o que era claramente fácil de ter sido prevenido. Como descobrimos que no passado ela foi exatamente como Nan – uma rebelde que abriu mão da felicidade pelo Dever e o título – ela reecontra o amor de sua vida (uma ponta de Greg Wise) e decide contar para Theo que Nan nunca o quis magoar, que foi convencida a se casar e mentir para proteger a irmã numa idéia da sogra. Agora que foi grosso com Nan, Theo – sempre o cara legal – quer pedir desculpas. Mas ela está à caminho da Itália e Lizzy, que tenta desistir do proprio casamento para tentar algo com Theo, leva um fora dele. Quanta gente confusa!

Estamos ainda na metade da temporada, teremos mais oportunidade para vermos Nan correndo de um lado para o outro. Estou ainda louca para ver a cena na qual Theo dança sozinho, sem coreografia, sem amarras, ao som de You Give Me Something, do Jamiroquai (escolha pessoal do ator), que será, talvez, uma das mais bonitas da temporada.

Mas antes mesmo dela, a virada também reposiciona Theo no tabuleiro da série. Se na primeira temporada era o príncipe encantado com profundidade, aquele que nos fazia duvidar se torcer por Guy seria mesmo o certo. Agora, com o coração estilhaçado e a fúria represada vindo à tona, ele ganha contornos de antagonista. Mas o antagonismo aqui não é o do vilão clássico: é o do obstáculo. Theo se torna, sim, o maior empecilho para a liberdade de Nan — e, de certo modo, para a felicidade de Guy também. E é isso que torna o conflito tão interessante.

Essa tensão é amplificada pela atuação de Remmers, que dá ao personagem uma complexidade emocional que vai além do roteiro. Ele não interpreta Theo como alguém vingativo ou cruel, mas como um homem ferido, tentando reorganizar sua identidade depois de perder a base sobre a qual construiu sua vida. E mesmo quando o personagem desliza para atitudes questionáveis, há sempre uma humanidade vibrando ali por baixo. A virada de Theo não rouba a luz de Nan — pelo contrário, reforça os dilemas morais que ela terá de enfrentar. E também aprofunda as consequências da escolha que ela fez.

Em uma série sobre jovens mulheres transgredindo as expectativas vitorianas, é instigante ver um homem sucumbir justamente ao romper dessas expectativas. Theo é, afinal, produto de seu tempo, mas também sua vítima. E, agora, talvez também seu rebelde mais perigoso. No fim, The Buccaneers mostra que o amor pode ser transformador, mas a dor também pode ser. E quando um duque se rompe, o estrondo é sentido por todos.


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