O Duradouro Mistério de Amelia Earhart

Mesmo que desde o início se soubesse — ou ao menos se presumisse — que o avião de Amelia Earhart caiu por falta de combustível em algum ponto remoto do Pacífico, o caso jamais se contentou com o silêncio. E talvez porque Amelia não era apenas uma piloto, mas um símbolo: da modernidade, da liberdade feminina, do progresso — o desaparecimento de sua aeronave em 1937 se tornou um dos maiores enigmas do século 20. E permanece, quase nove décadas depois, como uma obsessão coletiva.

Eu me incluo nisso. Porque a história de Earhart vai muito além dos manuais de aviação. Ela é, na verdade, um buraco emocional na narrativa histórica: como pode uma das mulheres mais famosas do mundo, cercada de imprensa, patrocinadores, mapas e tecnologias da época, simplesmente sumir no meio do nada? Desde então, o vazio deixado por ela vem sendo preenchido por suposições, expedições, teorias — algumas lógicas, outras delirantes.

As hipóteses mais bizarras ganharam força com o tempo. Há quem diga que Amelia foi capturada pelos japoneses e morreu como prisioneira em Saipan. Outros acreditam que assumiu uma nova identidade e viveu escondida nos Estados Unidos como dona de casa. Há ainda os que defendem que foi espiã do governo americano, ou que o sumiço foi uma estratégia para encobrir segredos militares. Uma fotografia antiga de uma mulher parecida com ela em uma doca nas Ilhas Marshall alimentou manchetes e teorias. Mas nada foi conclusivo.

Entre as possibilidades mais concretas, está a chamada Hipótese Nikumaroro — e é aí que entramos na notícia mais recente. Em julho de 2025, na data que marca os 88 anos do desaparecimento de Amelia, foi anunciado que uma nova expedição ao atol de Nikumaroro será realizada em novembro. O objetivo é investigar o chamado Taraia Object, uma anomalia visual detectada em imagens que pode, segundo alguns, ser parte do avião de Amelia. Essa ilha desabitada no Pacífico Sul já havia sido alvo de outras buscas, mas desta vez os pesquisadores alegam ter mais evidências: três transmissões de rádio convergem ali, e foram encontrados no local objetos que parecem pertencer a uma mulher dos anos 1930 — um sapato, um frasco de remédio e um vidro de maquiagem que, segundo especialistas, seria de Dr. C.H. Berry’s Freckle Ointment, uma pomada anti-sardas. Amelia odiava suas sardas, dizem os arquivos, e carregava esse tipo de cosmético com ela.

Pode parecer detalhe, mas num caso como este, são os detalhes que mantêm a esperança viva. O diretor da expedição, Richard Pettigrew, não hesita em dizer que estamos diante da melhor chance de “escrever o capítulo final da incrível história de vida de Amelia Earhart”. Já outros, como Ric Gillespie, veterano de 12 expedições infrutíferas à região, afirmam que é ilusão — que o suposto destroço nada mais é do que uma árvore de coco com raízes à mostra.

O que me fascina — e acredito que fascina tanta gente — é essa fronteira tênue entre fé e razão que envolve o desaparecimento de Amelia. Não é só sobre um avião perdido, é sobre um fim não concretizado. E quando não há corpo, não há ruína visível, não há última foto… abre-se o campo para todas as esperanças e fantasias possíveis.

A pergunta inevitável é: chegaremos algum dia a uma conclusão definitiva? Talvez sim. A nova missão vai usar tecnologias de varredura e drones submarinos mais precisos do que os disponíveis em décadas anteriores. E, se encontrarem vestígios materiais que possam ser cruzados com dados históricos, amostras metálicas do avião ou DNA, talvez tenhamos enfim o desfecho — algo tangível, palpável, incontestável.

Mas mesmo que a resposta venha, ainda assim será difícil acabar com o mito. Porque Amelia Earhart desapareceu fisicamente, sim — mas foi também engolida por uma mitologia feita de esperanças, medos e fascínio. E mitos, como sabemos, não se encerram com provas. Eles continuam nos perseguindo — e inspirando.


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