Rachel Zegler passou de promessa para persona non grata no espaço de um clique. Escalada como Branca de Neve no controverso live-action da Disney, foi rapidamente alçada ao centro de uma tempestade de memes, manchetes e julgamentos. Boa parte da internet decidiu que ela era arrogante demais, feminista demais, jovem demais ou simplesmente “insuportável”. Mas, mesmo entre tantas críticas — algumas legítimas, outras apenas cruéis — havia uma constante: quando Rachel cantava, o mundo parava. O problema nunca foi a voz. O problema foi o filme.

Porque o projeto Branca de Neve, desde sua concepção, já parecia desajustado. Reescrever o conto clássico sem o menor carinho pela fábula original, colocar a heroína contra sua própria história, usar CGI genérico para esconder a ausência dos anões e emplacar um discurso feminista de TikTok sem densidade — tudo isso soava como um manual de como sabotar uma produção. Mas mesmo ali, entre frases mal pensadas e entrevistas fora de timing, a voz de Zegler permanecia como a única coisa realmente mágica.
Agora, em Evita, a maré virou.
Na elogiada montagem de Jamie Lloyd, que primeiro encantou Londres em 2019 e agora retorna com força total em versão indoor, Rachel Zegler encontra o papel que parece ter sido escrito para ela. A montagem é explosiva, sensorial, sexual. Um verdadeiro desfile de momentos arrebatadores, daqueles que colam na retina e no ouvido. E no centro de tudo está ela: jovem, vibrante, carismática e poderosa.

A sequência mais comentada — e com razão — é o famoso número Don’t Cry for Me Argentina, reinventado aqui com Rachel de verdade na sacada, cantando para a multidão no meio do Oxford Circus, enquanto o público dentro do teatro assiste em uma tela gigante. É teatral? É artificial? Sim. Mas também é brilhante. O contraste entre a encenação e o mundo real (com gente passando distraída, em frente ao Pret a Manger do lado) torna tudo mais eletrizante. E a câmera segue Eva enquanto ela troca o top e os shorts curtos pelo terninho branco icônico. Tudo acontece diante dos nossos olhos, com ela olhando de volta, cúmplice e consciente. É nesse momento que entendemos: Rachel Zegler renasceu.
A produção, conduzida com mão firme por Lloyd, faz escolhas ousadas o tempo todo. A abertura com o Requiem é de arrepiar — uma procissão de figuras encapuzadas sob holofotes e fumaça. Diego Andres Rodriguez vive Che, o narrador cínico, que transita entre o público e o palco com intensidade. Há sangue, suor, tango e luxúria. A coreografia de Fabian Aloise merece um prêmio por transformar cada movimento em narrativa. É Buenos Aires sem truques de cenário, construída só com corpos, luz e música.
Mas nada funciona se Eva não funcionar. E Rachel Zegler não só funciona — ela domina. Ela brinca com a imagem de boneca ao se moldar ao olhar masculino, mas logo vira o jogo e transforma tudo em performance de força. É magnética. Sua voz, sempre elogiada, aqui encontra um repertório à altura, exigente e emocional. Há algo de show pop à la Beyoncé na forma como ela comanda o palco — e isso não é um demérito. Pelo contrário: Evita sempre foi sobre performance, carisma e controle de narrativa. Rachel entende isso intuitivamente.

Sim, há perdas no caminho. Algumas letras de Tim Rice se perdem em meio à amplificação digna de arena. Há momentos em que a clareza narrativa se dilui, especialmente no terço final, mais introspectivo. Mas mesmo nesses trechos, a emoção nunca desaparece. Não se trata de uma leitura cerebral da vida de Eva Perón. É uma experiência que se sente na pele antes de chegar ao raciocínio.
E talvez isso seja o maior triunfo dessa volta por cima. Rachel Zegler não precisa mais explicar sua visão de mundo em entrevistas editadas. Ela não precisa mais se justificar por ter 24 anos, ambição ou personalidade. No palco, ela canta — e isso basta. Todo o barulho em torno de Branca de Neve agora parece distante, irrelevante, ultrapassado. A crítica se rendeu. O público aplaude em pé. E, mais do que uma simples reabilitação de imagem, Evita revela o que talvez tenhamos ignorado no meio da histeria coletiva: ela é, sim, uma estrela.
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