Durante muito tempo, nós — estudiosos de carteirinha dos escândalos da elite novaiorquina fictícia e real — batemos o martelo: Gladys Russell, a filha de Bertha que vive em alerta constante para não dar um passo fora da linha, era a versão dramatizada de Consuelo Vanderbilt, a debutante mais famosa do final do século 19, forçada a casar com um duque britânico por pura sede de status da mãe. Uma jovem vendida como trunfo em jogo diplomático. Um casamento sem amor. Um final agridoce com gosto de independência tardia. Tudo combinava.
Mas… e se a gente estivesse comparando a moça com a prima errada?

Porque, veja bem, existiu também uma Gladys Vanderbilt real, nascida Gladys Moore Vanderbilt, que não só era prima direta de Consuelo como também teve uma vida aristocrática, um casamento europeu, e — surpresa — um final muito mais interessante e menos sofrido que o da pobre Duquesa de Marlborough.
Gladys Vanderbilt nasceu em 1886 como a filha mais nova de Cornelius Vanderbilt II, o barão ferroviário por trás de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos. Sua infância foi passada entre o palácio da Quinta Avenida em Nova York e The Breakers, a casa de veraneio em Newport que fazia os palácios da Renascença parecerem discretos. Era, em termos modernos, a filha caçula de um bilionário. E, como toda jovem Vanderbilt, foi educada para saber se portar entre títulos de nobreza — mesmo que ainda estivesse do lado “errado” do oceano.
E aqui começa o que talvez seja a verdadeira inspiração para Gladys Russell: uma jovem criada com disciplina espartana, que sabe que está ali para representar sua família, mas que se move com um senso de propósito mais prático do que trágico. Ao contrário da prima Consuelo, Gladys não foi obrigada a casar com um duque a contragosto — embora seu destino também envolvesse um título europeu. Ela se casou, aos 21 anos, com o Conde húngaro László Széchenyi, um dos nobres mais conhecidos da Áustria-Hungria.

O casamento foi um verdadeiro acontecimento social: manchetes nos jornais, flores por toda Nova York, e um vestido que faria Lady Whistledown desmaiar. Mas não havia choradeira. Gladys parecia… satisfeita. Não que a vida com László tenha sido exatamente um conto de fadas — rumores persistentes diziam que o conde era um apostador compulsivo e que, poucos anos depois do casamento, já havia torrado boa parte do dote da esposa. Em 1913, os jornais até cochichavam que ela estava pensando em pedir o divórcio. Mas Gladys ficou.
Ficou e, mais que isso, fez do título de condessa algo mais do que enfeite. Quando a Primeira Guerra Mundial estourou, ela não recuou para o conforto das propriedades da família nos Estados Unidos. Transformou seu palácio em Budapeste num hospital improvisado e recebeu centenas de reservistas para se alojarem por lá. Para uma mulher educada para brilhar em bailes e posar para retratos de John Singer Sargent, isso foi quase um ato de rebeldia silenciosa.
Aliás, que retrato. Em 1906, aos vinte anos, ela foi pintada por Sargent no auge de sua juventude e beleza, quase como um símbolo da Gilded Age encarnado. Uma moça vestida para a posteridade. E foi mesmo — embora com uma vida longe dos salões americanos. Passou décadas alternando temporadas entre a Hungria e os Estados Unidos, criando cinco filhas (todas casadas com condes, barões e até um conde britânico que virou o 15º Conde de Winchilsea), e mantendo sua posição como grande dama transatlântica.

Enquanto isso, sua prima Consuelo era um retrato vivo da infelicidade socialmente aprovada. Forçada ao casamento com o Duque de Marlborough, virou duquesa contra a própria vontade, em nome da ascensão social da mãe. Teve filhos, fez o que se esperava, mas nunca foi feliz — nem dentro da casa, nem fora. Anos depois, finalmente se separou, virou ativista e tentou redesenhar sua vida. Virou heroína trágica de sua própria narrativa.
Mas Gladys? Gladys foi… resiliente. Discreta. Uma verdadeira pragmática dourada. Não deixou de fazer parte da alta sociedade americana — continuava mantendo apartamento em The Breakers, mesmo depois de ceder a casa inteira por um dólar simbólico para a Preservation Society de Newport. Seguiu sendo uma figura presente, mas não espalhafatosa. Sabia o peso do sobrenome, mas também sabia como usá-lo a seu favor — inclusive para proteger os legados materiais e simbólicos da família.
Se The Gilded Age resolver tomar essa rota menos óbvia, mas muito mais rica, com sua Gladys Russell, podemos esperar menos lágrimas dramáticas e mais estratégias silenciosas. Em vez de fugir do altar ou encenar uma rebeldia romântica, talvez a jovem Russell esteja destinada a seguir uma trajetória parecida com a de sua xará real: casar-se com um europeu por escolha, não por imposição, atravessar mares sem perder o norte, fazer valer seu sobrenome com compostura e inteligência.

E não nos esqueçamos do coup de grâce: em 1951, Gladys doou o icônico vestido “Electric Light” da mãe — sim, aquele vestido literalmente iluminado com baterias escondidas — para o Museu da Cidade de Nova York. Era como se dissesse: “essa era a era que minha família ajudou a construir; agora ela é de vocês.” Um gesto elegante, generoso, e consciente do papel histórico que representava.
A verdade é que, se The Gilded Age quer continuar cavando ouro narrativo nas minas dos Vanderbilt, a vida de Gladys Vanderbilt oferece um roteiro alternativo — menos melodramático que o de Consuelo, mas cheio de potência. É a história de uma mulher que entendeu os limites do próprio tempo, mas soube negociar dentro deles. Que não precisou quebrar tudo para conquistar espaço, mas que também não se deixou engolir pelas regras.
E sejamos honestos: isso também é revolução.
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