A Complexidade do Amor em ‘The Wings of the Dove’

Quase sempre que falo de Henry James, menciono primeiro meus dois livros favoritos – Washignton Square, Portrait of a Lady e Turn of the Screw – mas há outros como Daisy Miller, The Golden Bowl, The Bostonians, The Beast in the Jungle entre outros. E, claro, The Wings of the Dove, um que é muito pessoal para o escritor.

The Wings of the Dove não é um romance de amor no sentido convencional — e talvez justamente por isso, ele fale tanto sobre o que é amar alguém sem coragem, com culpa, com intenções partidas. Como desafiar seu destino com as armas que tem ao alcance. Lançado em 1902, é considerado um dos pontos mais altos da literatura em língua inglesa — e não porque grita. Mas porque sussurra onde dói.

A história parece simples à primeira vista. Uma jovem americana riquíssima, Milly Theale, está em estado terminal. Ela viaja à Europa para viver seus últimos meses com alguma beleza e leveza, e se vê cercada por uma sociedade que enxerga nela uma oportunidade: por trás da gentileza, há gente calculando, sorrindo demais. E entre essas pessoas, está Kate Croy, uma mulher britânica inteligente, ambiciosa, apaixonada por Merton Densher, mas sem dinheiro para se casar. O plano que ela cria é sutil: Merton, que já tinha conhecido Milly em uma viagem aos Estados Unidos, deve se reaproximar da jovem, conquistá-la (uma vez que ela deixa claro ser interessada por ele), talvez até se casar com ela. Assim, depois que Milly morrer, eles — Kate e Merton — terão o caminho livre, e a fortuna dela.

Mas não é um golpe clássico. Ninguém quer fazer mal a Milly. Só esperar pelo seu anunciado e próximo fim. E é justamente isso que torna tudo tão cruel: Kate racionaliza que Milly morrerá de qualquer forma. Que não há “crime”. Que apenas estão se posicionando diante de uma tragédia inevitável. A manipulação emocional é sutil, mas corrosiva. E Merton, hesitante no início, entra no jogo. O que ele não esperava — e talvez nem Kate — era que Milly fosse tão pura, tão verdadeira, e que sua presença fosse capaz de desarmar qualquer cinismo.

O que acontece em seguida é um dos movimentos emocionais mais bonitos e dilacerantes da literatura: Merton começa a ver Milly como ela é. Não como uma rica herdeira, mas como uma mulher complexa, solitária, delicada, de uma bondade quase sobrenatural. Milly não exige nada. Não manipula. Não joga. Ela apenas está ali, sendo quem é. E Merton, envolto em vergonha e culpa, vai lentamente se apaixonando por ela — não de forma ardente ou romântica, mas de um jeito que o transforma por dentro.

O ponto de virada vem quando Milly descobre a verdade. Não diretamente — Henry James nunca é direto. Mas por meio de Lord Mark, um personagem cínico e despeitado, que insinua que há algo errado na relação entre Kate e Merton. Milly entende tudo imediatamente. A forma como ela reage a essa descoberta diz muito sobre quem ela é: ela não confronta ninguém, não se vinga, não grita. Ela apenas se cala. Se recolhe. Morre em silêncio, com dignidade, deixando no testamento uma herança para Merton. Sim — ela o perdoa. Mesmo depois de tudo.

O final do livro é seco, vazio, gelado. Depois da morte de Milly, Merton recusa a herança. Ele diz a Kate que só poderá se casar com ela se ela também recusar esse dinheiro. É a tentativa dele de limpar a própria culpa. E a possibilidade de que Merton tenha amado Milly perturba Kate. “Nunca mais seremos como éramos”, ela conclui. E ali, James encerra a história. Sem beijo, sem casamento, sem punição oficial. Apenas a constatação de que o que foi quebrado entre eles não pode ser reparado.

É por esse tipo de construção que The Wings of the Dove é considerado uma obra-prima. Henry James escreve como quem esculpe em névoa. Ele não nos dá respostas prontas, mas nos obriga a sentir o peso do não-dito. O amor de Merton por Milly nunca é declarado em voz alta. Mas está nos gestos, no desconcerto, no modo como ele passa a vê-la como “uma criatura refinada demais para a natureza, rara demais para a arte, estranha demais para a ficção — e ainda assim real demais para um sonho.” Milly se torna algo mais do que uma personagem: ela vira uma consciência. Um eco.

Literariamente, o livro é parte da chamada fase tardia de Henry James, onde sua prosa se torna mais densa, introspectiva, psicologicamente rica. É preciso ler com atenção, com paciência — porque cada frase contém camadas. Não é à toa que Virginia Woolf dizia que James “fornecia a matéria-prima da tragédia com o peso de uma única palavra não dita”.

Há quem compare Kate Croy a Lady Macbeth, afinal são mulheres determinadas em obter a herança e controlar o destino, mas na verdade abraçam a tragédia inevitável de suas escolhas. Outros comparam MillyTheale à Isabel Archer, mas há uma grande diferença entre elas, uma vez que Isabel não desconfiava do golpe de Mrs. Merle e Osmond até que fosse tarde demais. Ainda assim é inegável que elas são jovens americanas que lutam contra o que parece estar traçado para elas, sem sucesso.

Nos bastidores, sabemos que James se inspirou na figura de sua prima Minny Temple, que morreu jovem e de forma precoce. Milly é, de certa forma, uma homenagem a ela — e uma idealização da mulher que morre antes que o mundo possa corrompê-la. A pureza de Milly não é ingênua: é um desafio para os outros personagens. Merton não suporta a própria mediocridade diante dela. E é isso que o destrói.

Há trechos do livro que ficam na pele. Quando Milly percebe que está morrendo, e que todos à sua volta também sabem disso, James escreve: “Ela estava morrendo, e sabia disso; mas isso não era o pior. O pior era que os outros também sabiam.” A solidão da morte, aqui, é social. É o constrangimento de estar à vista dos outros, como alguém que está sendo lentamente abandonado à própria finitude.

Ou ainda, quando James escreve que não houve crime, “apenas um tipo de vantagem vil”. Essa frase define o que há de mais moderno no romance: não há vilões explícitos, mas há zonas cinzentas. Kate ama Merton. Merton ama Milly. Milly ama os dois à sua maneira. E todos perdem. Todos são, ao mesmo tempo, vítimas e cúmplices. E é esse desalento moral que transforma o livro em algo muito maior do que um triângulo amoroso.

Ler The Wings of the Dove é como atravessar um espelho: você vê reflexos do que sente, do que já fez, do que deixou de dizer. A cada releitura, algo novo emerge. Porque ele fala daquilo que a gente raramente encara de frente: o que acontece com o amor quando há dinheiro, doença, silêncio e um plano que parece racional — até deixar de ser.

Há muitas versões filmadas do romance, como a de 1981 com Isabelle Huppert, mas a mais elogiada é a de 1997, com Helena Bonham Carter (indicada ao Oscar) como Kate Croy.

Como em muitos de seus livros, a história termina de forma inconclusiva. Merton e Kate não terminam juntos e tampouco se separam oficialmente. Mas, a conclusão de Kate sobre como foram atingidos irremediavelmente pelo que se propuseram a faser, é um honesto em um livro que fala, acima de tudo, daquilo que não tem volta. E do jeito que apenas Henry James sabia descrever.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário