A novela em torno do submundo de pedofilia e exploração sexual por parte dos ricos e poderosos nem começou ou terminou com as mortes suspeitas de muitos envolvidos, o afastamento do príncipe Andrew ou a prisão de Ghislaine Maxwell. O milionário Jeffrey Epstein, morto em circusntâncias controversas enquanto aguardava seu julgamento em 2019 ainda poderia ter mais novidades pois só cresceu a expectativa de que uma lista de “clientes” envolvidos em seu esquema de tráfico sexual viria à tona, expondo figuras poderosas do mundo político, financeiro e do entretenimento. Essa ideia — mais alimentada pela cultura pop e pelas redes sociais do que por documentos judiciais — prometia revelar quem seriam os homens ricos que abusaram sexualmente de meninas aliciadas por Epstein e Maxwell. Mas, até hoje, a tão esperada lista nunca apareceu oficialmente, e talvez nunca vá aparecer.
A base dessa expectativa era real: nas propriedades de Epstein foram encontrados cadernos de voo, agendas, e-mails e registros de contatos pessoais. Parte desses documentos foi usada no processo que condenou Ghislaine Maxwell a 20 anos de prisão por aliciamento e tráfico de menores, mas em momento algum o Ministério Público apresentou uma lista formal de “clientes”. O foco da acusação era no papel ativo de Maxwell como facilitadora dos abusos, não nos eventuais consumidores.

O que surgiu ao longo dos anos foram nomes de pessoas que voaram no jato particular de Epstein — apelidado de “Lolita Express” —, que frequentaram suas mansões ou foram citadas por vítimas em depoimentos. Entre os nomes estão Bill Clinton, Donald Trump, Príncipe Andrew, Alan Dershowitz, Jean-Luc Brunel e outros. No entanto, o simples fato de terem sido mencionados não equivale a uma acusação. Muitos desses nomes foram apenas citados como parte do círculo social de Epstein, e quase todos negam veementemente qualquer envolvimento com crimes.
Em 2024, a liberação de documentos do processo movido por Virginia Giuffre, uma das vítimas mais conhecidas de Epstein, trouxe novos trechos de depoimentos à tona. Mas mesmo nesses papéis, o que existe são fragmentos, menções e conexões — e não uma lista formal, sistematizada, com provas criminais suficientes para levar a novas acusações.
A ausência dessa lista teve impacto direto na percepção pública sobre o caso. Por que apenas Maxwell foi condenada se o tráfico era destinado a terceiros? Onde estão os homens que consumiram os “serviços” de um esquema construído para atender a milionários? O silêncio da Justiça alimenta críticas, teorias da conspiração e suspeitas de blindagem institucional.


O caso do Príncipe Andrew se destaca entre os nomes citados. Acusado por Giuffre de tê-la abusado sexualmente quando ela era menor de idade, Andrew nega qualquer conduta ilegal, mas fechou um acordo extrajudicial milionário em 2022, sem admitir culpa. A repercussão foi devastadora para sua imagem: o duque de York perdeu títulos honoríficos e foi afastado da vida pública pela coroa britânica.
Enquanto isso, documentários como Filthy Rich, da Netflix, e produções jornalísticas mais recentes continuam tentando reconstruir a teia de relações que cercava Epstein. Mas, até agora, nenhuma autoridade norte-americana apresentou acusações formais contra outros “clientes”. Muitos documentos seguem selados, e há uma pressão crescente por mais transparência do FBI e da Justiça dos Estados Unidos.
Um dos momentos mais polêmicos dessa investigação — e que ampliou as suspeitas de ocultação — diz respeito à mudança de discurso da promotoria federal. Em fases iniciais do caso, promotores afirmaram que haviam apreendido mais de um terabyte de material digital pertencente a Epstein: vídeos, fotos, arquivos confidenciais, registros bancários e listas de contatos. Na época, foi dito em documentos selados que entre esse material estaria uma lista de nomes associados ao esquema de exploração sexual, o que gerou expectativa de novas prisões ou acusações formais.
Contudo, em 2023 e 2024, a promotoria surpreendeu ao dizer que “nenhuma lista de clientes foi encontrada” e que os documentos apreendidos não sustentavam novas denúncias criminais. A declaração contradiz frontalmente o que havia sido divulgado anteriormente, o que acendeu o alerta entre jornalistas, parlamentares e parte da opinião pública.

Críticos do ex-presidente Donald Trump foram particularmente incisivos nas críticas. Trump foi amigo de Epstein nos anos 1990 e mantinha uma relação próxima com Ghislaine Maxwell, sobre quem chegou a dizer publicamente: “Desejo tudo de bom para ela” após sua prisão. Embora também tenha declarado que se afastou de Epstein há muitos anos, fotos, registros e vídeos mostram os dois juntos em festas, clubes e eventos privados. Diante disso, opositores sugerem que houve interferência política para proteger aliados e preservar segredos comprometedores.
Durante o governo Trump, o FBI e o Departamento de Justiça tiveram controle direto sobre a investigação. A hipótese levantada por críticos é que parte do material foi retido, ocultado ou até destruído para blindar nomes influentes — inclusive o do próprio Trump. Até hoje, não há transparência completa sobre o que foi encontrado nos cofres e HDs das mansões de Epstein.
A frustração geral tem razão de existir. O escândalo da “lista de Epstein” acabou se tornando um símbolo de algo maior: a sensação de que os muito ricos e poderosos conseguem escapar ilesos de crimes gravíssimos, mesmo quando há vítimas, testemunhos e provas circunstanciais. Assim, o que deveria ser um caso encerrado — com Epstein morto e Maxwell condenada — continua aberto no imaginário público, pendendo entre a indignação e o mistério. A lista, afinal, se tornou mais um fantasma do que um documento: sempre prestes a aparecer, mas sempre fora de alcance.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
