Oscar Van Rhijn: A solidão atrás da cortina

Entre os palacetes de mármore da Quinta Avenida, os salões de baile onde debutantes eram exibidas como joias de família e as janelas trancadas onde segredos morriam abafados em cortinas de veludo, vive Oscar Van Rhijn, talvez o personagem mais triste e real de The Gilded Age. A série de Julian Fellowes, que já expôs com gosto os jogos sociais da elite americana do século 19, encontra em Oscar não apenas um vilão discreto, mas um homem encurralado — por sua época, sua família e seus próprios desejos.

Oscar é um Van Rhijn de sangue, membro de uma das mais respeitáveis e esvaziadas famílias de Nova York. Sua mãe, Agnes Van Rhijn, é o bastião da tradição: rígida, moralista, impiedosa com o que considera vulgar. Nesse universo de aparências, o pior dos pecados é não manter a fachada — e é justamente esse o dilema que corrói Oscar por dentro. Homossexual numa época em que o desejo entre homens era visto como doença, crime ou escândalo, ele nunca teve escolha. Desde cedo, sua sobrevivência depende da performance.

A primeira temporada revela seu plano quase cínico: casar-se com Gladys Russell, filha da temida Bertha Russell, e assim salvar o patrimônio dos Van Rhijn com o dote da jovem. Seria uma união de fachada — como tantos casamentos reais daquele período — e para Oscar, uma forma de manter a aparência respeitável enquanto levava uma vida paralela, longe dos olhos da mãe e da sociedade. O plano não funciona. Bertha, ambiciosa e sagaz, percebe suas intenções e o repele. Mais tarde, Oscar será enganado por Maud Beaton, uma mulher manipuladora que, sob o disfarce de aliada, lhe aplicará um golpe financeiro que quase o destrói.

É nesse contexto que surge John Adams, o namorado secreto de Oscar — e, ao mesmo tempo, seu maior abismo emocional. John é um jovem professor, discreto, educado, com uma sensibilidade que contrasta com a arrogância defensiva de Oscar. Ao contrário de Oscar, John quer uma vida de verdade: deseja viver seu amor longe dos esconderijos, dos jogos e das manipulações. Isso cria um impasse doloroso entre os dois. Oscar o ama à sua maneira, mas está tão enredado nas teias sociais da própria covardia que não consegue corresponder à altura. Tem medo de ser visto, de ser exposto, de perder tudo — e, por isso, sabota o relacionamento com frieza e silêncio.

Em uma das cenas mais carregadas de tensão emocional da segunda temporada, John exige que Oscar faça uma escolha: ou eles vivem com integridade, ou tudo acaba. A resposta de Oscar — evasiva, dura, sem coragem de romper com o papel social — termina por afastar John. O que sobra é o vazio. Oscar, que tanto tentou manter as aparências, vê-se sozinho e emocionalmente destroçado. O afastamento de John revela o preço íntimo dessa repressão contínua: Oscar não perdeu apenas um namorado. Perdeu a única chance de amor verdadeiro que lhe foi oferecida.

Mas por trás da frieza estratégica há um retrato mais denso e doloroso. Oscar frequentemente aparece machucado, com hematomas visíveis. Não é alegoria: ele corre riscos reais por ser quem é. Seus encontros acontecem nas sombras, com homens que podem ser violentos, chantagistas ou perigosos. Sua solidão é visceral. Sua necessidade de dissimular, sufocante. Oscar é uma figura de tragédia clássica: condenado a viver uma mentira, sem meios reais de escapar dela.

A inspiração para sua criação provavelmente vem de personagens reais como Henry Symes Lehr, conhecido como Harry Lehr — ou, mais teatralmente, “King Lehr”. Seu nome ecoa com estranheza e fascínio nos anais da elite novaiorquina do final do século XIX. Charmoso, espirituoso, pianista talentoso e mestre de cerimônias das maiores recepções da cidade, Harry tentou se posicionar como sucessor de Ward McAllister, o autoproclamado “árbitro das elegâncias” e criador da lendária lista dos Four Hundred, que reunia famílias Knickerbocker e industriais em um clube social de exclusividade absoluta.

Sem linhagem nobre nem fortuna própria, Lehr compensava com presença, inteligência e espetáculo. Para ganhar espaço na rígida hierarquia social, aliou-se a Marion “Mamie” Fish, socialite espirituosa e satírica, com quem orquestrou festas memoráveis. Uma das mais comentadas foi o chamado “jantar dos cães”, em que mais de cem pets da elite sentaram-se em mesas decoradas, vestidos a rigor. Em outra ocasião, Lehr se fantasiou de Czar da Rússia, assumindo o personagem com tal convicção que passou a ser chamado de King Lehr dali em diante.

Essas encenações hilárias, muitas vezes autodepreciativas, escondiam um acordo perverso: para permanecer nos círculos mais exclusivos, Lehr precisava brilhar sem jamais ameaçar o poder de fato. Como Oscar, ele era necessário enquanto divertido — e descartável quando inconveniente. A nova matriarca da sociedade, Grace Graham Wilson Vanderbilt, esposa de Cornelius Vanderbilt III, não tolerava seu estilo performático. Sem a proteção de figuras como Mrs. Astor, Lehr passou a ser visto como excessivo, sua presença tornada incômoda nos salões e nas colunas sociais.

A vida privada de Lehr revela ainda mais semelhanças com Oscar. Em 1901, casou-se com a herdeira Elizabeth “Bessie” Drexel. Na noite de núpcias, declarou friamente que jamais consumaria o casamento, pois mulheres lhe causavam repulsa física. O choque de Bessie, isolada num quarto decorado com rosas e caviar à espera de um momento romântico, tornou-se um dos relatos mais brutais sobre a hipocrisia afetiva da elite americana. O casamento durou quase trinta anos, sustentado por convenções sociais e pela pressão de Lucy Wharton, mãe de Bessie, católica fervorosa que jamais permitiria uma separação.

Harry Lehr ocasionalmente se vestia de mulher — ou se aproximava disso com trajes cômicos e femininos — em eventos sociais, como parte de sua persona performática. Mas não vivia assim no dia a dia. Era uma forma ambígua de desafiar normas sociais sem ultrapassá-las abertamente, como Oscar Van Rhijn faz na ficção.

Enquanto Oscar se equilibra entre aparências e riscos, Harry Lehr também vivia sob a constante necessidade de manter a performance. Gay em uma época em que isso era não só inadmissível, mas criminalizado, Lehr encarnava sua persona exagerada como forma de proteção. Suas festas mascaravam não só a elite, mas sua própria identidade. Como Oscar, viveu à sombra de si mesmo — adorado pelas damas influentes, mas nunca plenamente aceito.

A terceira temporada de The Gilded Age intensifica a dimensão trágica de Oscar. Um de seus antigos amantes será assassinado, e ele sequer poderá lamentar abertamente. O luto negado a ele é o símbolo de uma sociedade que se recusa a reconhecer os sentimentos de quem vive fora da norma. O silêncio forçado, a dor envergonhada, o medo da exposição: tudo isso molda o cotidiano de Oscar. E, ainda assim, ele resiste.

O golpe de Maud Beaton funciona como ponto de inflexão. Pela primeira vez, Oscar é forçado a confrontar não apenas o sistema, mas a si mesmo. Seu prestígio social desmorona. Sua segurança financeira evapora. E ele precisa se reerguer sem os mecanismos tradicionais — casamento, herança, discrição premiada — que antes sustentavam sua posição. A série sugere, com delicadeza, que esse colapso talvez o leve a uma versão mais autêntica de si. Mas o preço é alto. Altíssimo.

Harry Lehr, por sua vez, enfrentou o colapso em silêncio. Diagnosticado com um tumor cerebral em 1923, passou por uma cirurgia em 1927 e morreu dois anos depois, em Baltimore, longe dos salões que antes o ovacionaram. Sua viúva se casaria novamente, contando sua história com um misto de ternura e mágoa. Lehr morreu sem deixar um legado público verdadeiro — apenas memórias difusas de um bufão elegante que nunca pôde ser quem era.

A frase de um personagem contemporâneo da era Gilded — “era o verdadeiro don’t ask, don’t tell” — descreve com precisão o que ambos viveram: um pacto de silêncio em que tudo podia ser tolerado, desde que mantido fora de vista. A dor dessa existência dupla, da constante vigilância, da impossibilidade de amar em público, se acumula nos gestos de tensão de Oscar, no riso forçado de Harry, nos olhares que imploram por algo mais do que fachada.

Enquanto Bertha Russell joga xadrez social com os titãs do dinheiro e Agnes Van Rhijn mantém sua torre de moralismo vitoriano, Oscar atravessa a série como um fantasma do que poderia ter sido: um homem sensível, inteligente, mas esmagado pelas exigências de um mundo que transformava afeto em ameaça. Em sua história, The Gilded Age encontra não apenas a repressão sexual do passado, mas o eco persistente daquilo que ainda hoje se esconde sob a superfície de tantas salas decoradas com silêncio.


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