O ano de 2025 marca 150 anos da morte precoce de Georges Bizet, aos 36 anos. Um compositor que, na época em que morreu, era visto com alguma desconfiança pelo establishment operístico francês — e que hoje é considerado um dos maiores nomes do romantismo. A ironia cruel dessa trajetória é que Bizet nunca soube que havia criado uma das óperas mais populares de todos os tempos. Carmen, sua obra-prima, estreou em março de 1875. Três meses depois, em junho, ele estava morto. Não chegou a testemunhar o sucesso que a ópera conquistaria ao longo do século 20. E muito menos viveu para ver que, com o tempo, até seus primeiros trabalhos ganhariam nova vida, em especial Os Pescadores de Pérolas (Les Pêcheurs de Perles), composta quando ele ainda era um jovem tentando encontrar seu lugar no mundo da música.
É essa a peça que marca outra festa no Theatro Municipal do Rio de Janeiro: seu aniversário de 116 anos, que abre a temporada operística com a obra de Bizet.

Um jovem prodígio e a busca por reconhecimento
Bizet nasceu em 1838, em Paris, e desde cedo demonstrou um talento fora do comum. Aos 9 anos já estava no Conservatório de Paris; aos 17, ganhava prêmios por composição; aos 19, vencia o cobiçado Prix de Rome, que lhe permitiu estudar por três anos na Itália. Parecia destinado à glória, mas o cenário musical francês era competitivo e, ao retornar a Paris, Bizet encontrou dificuldade em se afirmar. Escrevia música de forma incansável — peças para piano, óperas em um ato, canções —, mas poucas chegavam a ser encenadas.
Foi nesse contexto que surgiu, em 1863, a encomenda para escrever uma ópera completa para o Théâtre Lyrique, especializado em obras novas. Bizet tinha apenas 24 anos quando compôs Les Pêcheurs de Perles. O libreto, assinado por Michel Carré e Eugène Cormon, era um drama romântico situado em uma aldeia de pescadores no Ceilão, atual Sri Lanka. Um triângulo amoroso, um juramento de amizade rompido, um amor proibido e uma redenção final: os ingredientes estavam todos ali, com um toque de exotismo à moda do século 19.
Bizet escreveu a partitura em apenas três meses. Trabalhou sob pressão, com poucos recursos e um elenco de cantores modestos. Ainda assim, entregou momentos de beleza surpreendente — sobretudo no uso da orquestra e na criação de melodias memoráveis, como o dueto Au fond du temple saint e a ária de Nadir, Je crois entendre encore.
Frieza e esquecimento
Apesar do talento evidente, a recepção da ópera foi morna. A crítica elogiou a música em passagens pontuais, mas considerou o libreto fraco, a trama melodramática e o exotismo artificial. Les Pêcheurs de Perles teve apenas 18 apresentações em sua primeira temporada e foi esquecida por décadas. Bizet seguiu escrevendo, compondo óperas que enfrentavam obstáculos para chegar ao palco. Até que, nos anos 1870, começou a trabalhar em Carmen — uma ópera ousada, sensual, trágica, à frente de seu tempo.
Quando Carmen estreou, em 1875, foi recebida com choque e hostilidade. A crítica achou vulgar, o público se incomodou com a intensidade da protagonista cigana, e os elogios foram tímidos. Bizet, já doente e emocionalmente fragilizado, morreu sem saber que aquela ópera se tornaria um dos pilares do repertório lírico mundial.

A redescoberta da pérola
Com o triunfo póstumo de Carmen, o interesse pela obra de Bizet ressurgiu. E, aos poucos, Les Pêcheurs de Perles foi sendo resgatada. O dueto masculino ganhou notoriedade, e a ária Je crois entendre encore, cantada por Nadir, passou a ter vida própria, separada da ópera. Escrita em tempo composto (6/8), com uma melodia ondulante e etérea, a peça tem algo de hipnótico. É um retrato do amor idealizado, distante, quase místico. Talvez por isso tenha tocado tantas gerações de cantores e ouvintes.
Uma ária que virou estrela solo
A primeira gravação de destaque de Je crois entendre encore é atribuída ao tenor Edmond Clément, nos anos 1910. Desde então, ela foi interpretada por nomes lendários como Beniamino Gigli, Nicolai Gedda, Alain Vanzo, Luciano Pavarotti, Plácido Domingo, Roberto Alagna e, mais recentemente, Jonas Kaufmann e Juan Diego Flórez. É uma daquelas árias que todos os tenores românticos incluem em seus recitais.
Fora do palco, a ária também apareceu no cinema. Ela está em trilhas sonoras de filmes como “Moonlight” (2016), vencedor do Oscar, onde surge brevemente como pano de fundo para um momento de contemplação silenciosa. Também aparece em “A Single Man” (2009), de Tom Ford, em uma cena comovente protagonizada por Colin Firth. E, em uma versão adaptada, foi usada em comerciais e documentários para evocar amor, perda ou nostalgia. Mas destaca-se especialmente em The Man Who Cried (2000), com Johnny Depp e Christina Ricci.


No filme, Ricci interpreta Sue (“Suzie”), que ouve seu pai cantar a ária em Yiddish antes de fugir de um pogrom na Rússia soviética. Essa canção se torna o elo emocional que guia sua jornada. A música aparece de novo num momento final comovente, quando ela canta para o pai já adulto — evocando memórias, identidade e laços familiares . Esse uso transparente da ária reforça seu poder universal, capaz de transmitir amor, perda e reconexão.
Ney Matogrosso é outro fã da ária e em 1987 fez uma turnê batizada como Pescador de Pérolas, que rendeu um álbum ao vivo, onde ele canta a versão em italiano: Mi Par D’udir Ancora. O álbum marcou um momento de renovação na carreira de Ney, em que ele deixou de lado a maquiagem e figurinos extravagantes em favor de uma postura mais sóbria e introspectiva, vestindo terno e explorando repertório clássico e refinado. A inclusão de uma ária de Bizet no repertório de MPB foi vista como um gesto de ousadia artística, aproximando lírica e popular de maneira inovadora.

Carmen, e além
Apesar da consagração tardia, Bizet morreu pensando que tinha falhado. Mas o tempo, como costuma fazer com os grandes artistas, corrigiu essa injustiça. Carmen é hoje uma das óperas mais encenadas do mundo, e Les Pêcheurs de Perles voltou aos palcos com montagens sofisticadas, que atualizam sua atmosfera sem apagar sua poesia.
Neste ano de 2025, ao se completarem 150 anos de sua morte, vale lembrar que Bizet não foi um gênio de uma única ópera. Ele foi um compositor de rara sensibilidade melódica, que soube escrever sobre amor, amizade, sacrifício e desejo com uma intensidade que só cresceu com o tempo.
No fim, o que começou como uma “pérola esquecida” se tornou uma joia resgatada — e nos lembra que, na arte, a beleza verdadeira às vezes leva tempo para brilhar.
A temporada de Os Pescadores de Pérolas fica em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro entre 16 e 26 de julho de 2025.
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