Era para ser apenas mais um momento romântico e leve da turnê Music of the Spheres, do Coldplay, quando a tradicional “Kiss Cam” — aquela câmera que flagra casais no telão do estádio — captou dois espectadores abraçados. Mas o gesto descontraído logo virou tensão: a mulher desviou o rosto bruscamente, o homem recuou. O vídeo foi compartilhado nas redes em tempo real, e, em poucas horas, descobriu-se que os dois protagonistas do flagrante não apenas eram casados com outras pessoas, mas também ocupavam altos cargos na mesma empresa de tecnologia. Ele, Andy Byron, é CEO da Astronomer. Ela, Kristin Cabot, chefe de RH da companhia.
A comoção online foi imediata. O vídeo da “Kiss Cam” alcançou mais de 46 milhões de visualizações em 24 horas no TikTok e no Instagram. O nome do episódio? ColdplayGate. O detalhe mais cruel foi o comentário inocente de Chris Martin, vocalista da banda, que no palco brincou: “Eles estão tendo um caso ou são só tímidos?”, sem imaginar que havia acabado de resumir o escândalo que explodiria logo depois.
Nas redes, enquanto a empresa anunciava uma investigação formal por conduta imprópria, internautas correram para os perfis dos cônjuges dos envolvidos. A esposa de Byron apagou suas redes e retirou o sobrenome do marido. Kristin, por sua vez, também sumiu do LinkedIn. O julgamento popular foi implacável, especialmente com ela — um padrão que já se repetiu em outras situações parecidas. Mulheres envolvidas em traições costumam ser muito mais duramente punidas pela opinião pública do que os homens, mesmo quando o comportamento é mútuo.

Kristen Stewart: a “mulher infiel” marcada por uma imagem que nunca apagou
O caso mais semelhante e icônico aconteceu em 2012, quando a atriz Kristen Stewart foi flagrada por paparazzi aos beijos com o diretor Rupert Sanders, com quem havia trabalhado no filme Branca de Neve e o Caçador. A questão: Kristen namorava o astro Robert Pattinson, seu par romântico em Crepúsculo, e Sanders era casado com dois filhos. As imagens eram inegáveis — abraços, carinhos e beijos em estacionamentos e mirantes em Los Angeles.
A reação da mídia foi cruel. Kristen foi tratada como vilã, infiel, desleal. Ganhou manchetes humilhantes e foi alvo de piadas em premiações. Pediu desculpas públicas. Sua carreira, que estava em ascensão, sofreu um forte baque — demorou anos para se recuperar. Já Rupert Sanders, mais velho, casado e diretor da produção, escapou com danos muito menores. Embora tenha se divorciado, continuou trabalhando e raramente foi lembrado como responsável pelo ocorrido. O casal Pattinson–Stewart não resistiu.
Lily James: o escândalo à italiana e a imagem que não se apaga
O mesmo padrão se repetiu em 2020, com a atriz britânica Lily James, flagrada em Roma ao lado do ator Dominic West — beijos, abraços e momentos de intimidade ao ar livre. West era um homem casado, pai de quatro filhos e quase 20 anos mais velho. Lily James, na época solteira, foi duramente atacada. Teve que cancelar aparições públicas, entrevistas e ficou meses fora da mídia.
A humilhação foi ainda maior quando Dominic West retornou para o Reino Unido e, ao lado da esposa Catherine FitzGerald, posou sorridente para os fotógrafos com um bilhete assinado a quatro mãos dizendo: “Nosso casamento continua forte”. Lily James foi praticamente silenciada e só retomou sua presença pública com papéis mais discretos e anos depois, como no seriado Pam & Tommy.
A mídia, e especialmente o público nas redes, parece ter dificuldade em dividir a responsabilidade quando há uma mulher envolvida no centro de escândalos conjugais. Nos dois casos, as atrizes foram bombardeadas com ofensas, análises morais e questionamentos sobre caráter. Os homens? Continuaram com seus casamentos ou seus trabalhos. Em comparação, o escândalo do Coldplay segue o mesmo roteiro: Kristin, por ser mulher e líder de RH (área que envolve ética e conduta), tem recebido a maior parte da condenação pública. Byron, CEO, praticamente desapareceu — mas sem o mesmo nível de hostilidade direcionado.

O que ColdplayGate revela
Mais do que uma fofoca viral, o caso da Kiss Cam acidentalmente revelando um affair corporativo durante um show globalmente transmitido mostra o quanto estamos prontos para julgar, compartilhar e punir em tempo real. Também evidencia um padrão enraizado: a mulher envolvida sempre paga mais caro, mesmo quando os dois erram juntos.
Enquanto os bastidores corporativos seguem tentando controlar os danos, e os advogados devem estar ocupados redigindo acordos de separação e cláusulas de confidencialidade, a internet já fez seu veredito. A cultura de vigilância, somada ao moralismo seletivo e à rapidez das redes sociais, cria um tribunal que quase nunca perdoa — principalmente se o alvo for uma mulher.
O escândalo no show do Coldplay pode até sair dos trending topics nos próximos dias. Mas como aconteceu com Kristen Stewart e Lily James, para Kristin Cabot, a marca do julgamento público pode durar anos — muito além de um beijo flagrado em câmera e um olhar constrangido no telão.
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