Quando estreou discretamente na Apple TV+ em maio de 2023, Platonic parecia ser só mais uma comédia sobre crise de meia-idade, e bastaram alguns episódios para que ficasse claro que era isso mesmo, mas, paradoxalmente, possível de ver. Criada por Francesca Delbanco e Nicholas Stoller, a série reuniu Rose Byrne e Seth Rogen pela terceira vez — depois dos dois Vizinhos — e a química entre eles nunca esteve tão afiada. Platonic tenta ir além do carisma da dupla e criar identidade própria, com uma proposta de ser mais complexa do que sugere o título.
A história parte do reencontro entre Sylvia (Rose Byrne), uma advogada que deixou a profissão para cuidar dos filhos e hoje vive no conforto previsível de um subúrbio, e Will (Seth Rogen), um cervejeiro hipster que está tentando se reconstruir emocionalmente após um divórcio. Eles eram melhores amigos na faculdade, perderam contato por anos e, de repente, voltam a se aproximar com uma intensidade surpreendente — e completamente desastrosa. A graça de Platonic está em como a série recusa, o tempo inteiro, o caminho fácil da tensão sexual não resolvida. O que se constrói ali é uma amizade intensa, caótica, às vezes egoísta, às vezes generosa — e nada idealizada.

A primeira temporada funciona quase como um laboratório sobre os limites de uma amizade adulta entre um homem e uma mulher. O roteiro se diverte colocando Sylvia e Will em situações cada vez mais ridículas e emocionalmente irresponsáveis, enquanto as pessoas ao redor — especialmente o marido de Sylvia, Charlie — assistem com um misto de preocupação e descrença. A série não toma lados, mas tampouco isenta ninguém. O que poderia virar uma comédia romântica genérica acaba se revelando uma meditação cheia de caos e risadas sobre identidade, liberdade e os papéis que vamos colecionando sem perceber: mãe, ex, chefe, melhor amigo, fracassado, mulher invisível. Tudo feito sob medida para quem já acordou um dia se perguntando se ainda tem tempo de mudar de vida.
Mesmo sem um sucesso estrondoso, Platonic teve sinal verde direto para entrar em produção de duas temporadas, sem precisar de piloto, um sinal claro da confiança da Apple na dupla criadora e no poder cômico de Byrne e Rogen. As gravações aconteceram em Los Angeles, com locações que ajudam a compor esse mundo hipster-gentrificado onde a série se passa: microcervejarias, escritórios com mesa de pingue-pongue, apartamentos descolados demais para pessoas tão perdidas. A direção também colabora para que tudo pareça íntimo, quase improvisado, mesmo nos momentos mais absurdos.
O consenso geral foi de que Platonic consegue ser original ao falar sobre algo já muito explorado: a dificuldade de crescer. E talvez por isso a audiência tenha vindo num crescendo, com um público fiel, especialmente entre adultos de 30 a 50 anos — gente que se viu nas crises, nas recaídas e nas amizades mal explicadas.
Onde paramos?
Depois de dez episódios em que Sylvia e Will quase implodem suas próprias vidas, eles chegam a um ponto de ruptura real. Um confronto tenso num evento público quase põe fim à amizade dos dois — uma amizade que, sejamos honestos, já vinha esgarçada pelos excessos, pelos ciúmes mal disfarçados e pelas decisões impulsivas. Sylvia tenta se reencontrar profissionalmente, voltando ao mundo jurídico, enquanto seu casamento com Charlie balança. Will, por sua vez, decide abrir uma nova cervejaria, mas não consegue disfarçar o vazio existencial que o acompanha. O último episódio oferece uma espécie de reconciliação simbólica, sem grandes discursos: eles voltam a dividir o silêncio, como quem aceita que aquilo — seja lá o que for — ainda tem valor. Mas nada garante que a paz vai durar.


A segunda temporada, que estreia em agosto de 2025, vai aprofundar essas feridas mal curadas. Sylvia estará mais imersa na carreira e nas demandas da vida adulta, enquanto Will deve se lançar em mais um projeto impulsivo — e provavelmente em um novo romance complicado. A entrada de personagens inéditos e a maior participação de Charlie e dos filhos indicam que as tensões familiares vão ganhar mais espaço. E se a série mantiver o mesmo tom da primeira temporada, é provável que os conflitos cresçam sem se tornarem melodramáticos, sempre navegando entre o constrangimento e o afeto real. E sempre com aquela pergunta que a série se recusa a responder: dá para manter uma amizade intensa, honesta e caótica com alguém do sexo oposto quando a vida real exige tantas outras versões de você?
Se Platonic continuar do jeito que começou, a resposta vai ser: talvez. Mas não sem consequências.
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