Abaixo, o texto de Miski Omar, que reflete com precisão o que (ainda) está acontecendo em torno do casal flagrado em clima íntimo durante o show do Coldplay.
Há muitas nuances envolvidas nessa história: a banda, por exemplo, utiliza imagens da plateia nos seus shows — e essa autorização costuma vir disfarçada em letras miúdas no verso dos ingressos, alertando que, ao estar presente, o espectador abre mão dos seus direitos de imagem para que a banda possa gravar, exibir e até comercializar as filmagens.
Mas aí entra a gravação paralela, feita por alguém da plateia que filma tudo e publica nas redes. E é aí que o debate se aprofunda.
A autora do vídeo poderia ser processada por danos morais? Acredito que sim, pois ela não tinha autorização para filmar — muito menos para divulgar.
Isso é algo que muitos fãs ignoram (ou fingem ignorar) ao tentar eternizar momentos com sua banda favorita: gravações feitas pelo público não são oficialmente autorizadas pelos artistas nem por suas gravadoras. E compartilhá-las em plataformas como o YouTube, menos ainda. Mas todos fazem isso (eu incluída).
Assim como a jovem que registrou o “escândalo do Coldplay” ou Coldplaygate: ganhou milhares de seguidores — mas não viu um centavo por isso.
O artigo do The Guardian reflete uma outra parte do problema e essencial para reflexão. Segue abaixo a tradução.

A história do casal do Coldplay se desenrolou como uma novela. Mas a reação em massa foi proporcional?
Por Miski Omar
Estamos tentando decidir coletivamente, por meio de uma telepatia digital, o que torna aceitável arruinar a vida de alguém. Essa é uma tarefa impossível.
Terça-feira, 22 de julho de 2025
Até agora, todo mundo já viu o vídeo: um casal em um abraço íntimo num show do Coldplay. Em questão de milésimos de segundo, a mulher vira o rosto e o homem desvia. A plateia reage com um suspiro coletivo. Chris Martin brinca: “Ou eles estão tendo um caso, ou são muito tímidos.”
Em menos de 24 horas, a internet fez o que sabe fazer de melhor: investigou. Os nomes do casal foram rapidamente revelados. Perfis no LinkedIn localizados. Ambos executivos seniores de uma empresa de dados em Nova York — ele, o CEO; ela, a chefe de RH. Ambos casados. Com filhos.
A história se desenrolou como uma novela. Descobriram o Facebook da esposa do CEO. Internautas atentos perceberam que ela havia removido o sobrenome. A internet ficou furiosa e igualmente entretida.
Milhares de memes circularam. Paródias inundaram o TikTok. Os pedidos para que fossem demitidos rivalizavam com campanhas por justiça humanitária — e, no mais corporativo dos desfechos, a história chegou até o LinkedIn. Sob o último post da gerente de RH, surgiram comentários perguntando se “trair fazia parte da descrição do cargo”.
Foi uma tempestade midiática. Mas mais do que isso, foi um julgamento público.
Vivemos em um panóptico digital. A vigilância não é mais de cima para baixo — é lateral. É ambiente, coletiva. Pode vir do seu vizinho. De alguém que passou na rua. De um estranho com um celular.
Pense nas pessoas capturadas sem querer ao fundo de um vídeo de “look do dia”. Ou em uma entrevista de rua com a pergunta “o que você está ouvindo?”, que pode, sem querer, mostrar uma mulher fugindo de um parceiro abusivo. Em um mundo obcecado por consentimento, parece haver um ponto cego quando se trata de consentimento online.
A humilhação pública virou esporte coletivo.
A justiça viral virou um jogo
Cada novo dado desbloqueado gera curtidas e reposts como recompensa.
Existe até um gênero inteiro no TikTok dedicado a reações ao fundo. Alguém no canto da imagem faz uma careta — talvez assustado com o flash, talvez só querendo não ser filmado — e a internet os coroa como haters ou bullies. Depois, descobrem o perfil dessa pessoa. Marcam o empregador. Pedem demissão.
Quando foi que a viralização substituiu o devido processo legal?
A humilhação pública virou esporte coletivo. A justiça viral virou um jogo. Caçamos informações como se fossem tesouros em uma gincana moral — nomes, empregos, cônjuges, endereços. Cada novo dado desbloqueado gera curtidas e reposts como recompensa.
O que começa como prestação de contas muitas vezes vira espetáculo. O que começa como crítica vira conteúdo.
Sim, se o casal do Coldplay estava tendo um caso, pode ser algo imoral. Pode até levantar questões sobre dinâmicas de poder no ambiente de trabalho. Mas o doxing — a exposição invasiva de detalhes privados — foi uma resposta proporcional?
Não me entenda mal: o doxing já fez o bem. Durante os ataques ao Capitólio dos EUA, em 6 de janeiro, investigadores amadores ajudaram a identificar invasores que depois foram presos. Mostrou que o povo, munido apenas de wi-fi e indignação, podia cobrar poderosos.
O que começa como prestação de contas muitas vezes vira espetáculo.
O que começa como crítica vira conteúdo.
Mas o doxing é neutro, e a internet é indiferente ao peso moral das ações. Ela recompensa a performance da indignação, não a ética por trás dela.
Às vezes, alguém é exposto por algo tão banal quanto reclamar de um pedido de café ou de um corte de cabelo. Ninguém para para perguntar: como estava o dia dessa pessoa? Será que ela estava de luto? Exausta? Mal remunerada? Na pressa de moralizar um instante, apagamos o contexto. Não sobra espaço para nuance.
Às vezes, pessoas inocentes são atingidas no fogo cruzado — punidas não por quem são, mas por um único quadro de uma imagem muito maior.
Os danos colaterais do moralismo instantâneo são reais.
Queremos mesmo que crianças sejam perseguidas na escola porque um dos pais cometeu um erro? Ou que a casa de alguém seja postada online porque recusou um convidado — e sua salada de antipasto?
E a esposa do CEO? Que acordou um dia e viu a internet inteira dissecar sua vida, seu trabalho, seu casamento?
Uma vez que algo cai na rede, se espalha muito além da transgressão original. Não se trata mais só de justiça. É sobre a viralização do conteúdo.
A hipótese do mundo justo diz que gostamos de acreditar que as pessoas recebem o que merecem.
Isso nos conforta.Mas “merecer” é um conceito escorregadio.
A realidade hoje é saber que seu rosto pode ser o próximo meme. Seu colapso emocional, o novo avatar de alguém no Twitter.
A hipótese do mundo justo diz que gostamos de acreditar que as pessoas recebem o que merecem. Isso nos conforta. Mas “merecer” é um conceito escorregadio. Muda conforme a narrativa, o contexto, o humor — ou até conforme o template do meme.
Sinceramente? Eu me diverti com o espetáculo do Coldplay. Ele é CEO, e eu sou membro assumida do clube “coma os ricos”. Mas até isso é uma ladeira escorregadia.
Estamos tentando decidir, coletivamente e por telepatia digital, o que torna aceitável arruinar a vida de alguém. É uma tarefa impossível. Maleável ao infinito. Debatível eternamente.
O que perdemos quando tratamos cada momento viral como um tribunal?
O que ganhamos ao nos juntar ao linchamento sem pensar se a punição foi proporcional?
Sim, celebridades escolheram viver sob os holofotes. Têm equipes de relações públicas. Têm assessores de crise. Às vezes, têm a Oprah e uma entrevista reveladora.
Nunca disse que eu não sou parte do problema
Mas o casal do Coldplay? Eles não têm um publicista. E, mesmo que tivessem, não nos devem nada. Se algo aconteceu, as únicas pessoas que merecem explicações são suas famílias — cujas vidas foram permanentemente alteradas por escolhas de duas pessoas.
Bem… talvez também a gerente de RH da empresa deles.
Ah, espera. Esquece. Nunca disse que eu não sou parte do problema.
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