Larry Russell existiu?

Ao longo das três temporadas de The Gilded Age, poucos personagens cresceram tanto em complexidade e sutileza quanto Larry Russell. Filho do impiedoso magnata ferroviário George Russell e da ambiciosa socialite Bertha Russell, Larry é, desde a primeira cena, alguém que parece pertencer a outro tipo de história. Mais contido, refinado, artístico e sensível do que os pais, ele funciona como o elo possível entre dois mundos que a série constantemente coloca em choque: o do dinheiro novo e o da velha sociedade de Nova York. Mas Larry não é apenas um mediador — ele é também alguém que busca um caminho próprio, construído com beleza, autonomia e, talvez, amor.

Um jovem que observa mais do que fala

Na primeira temporada, conhecemos Larry como um jovem recém-formado por Harvard, circulando em clubes e jantares da elite, mas sem ainda se comprometer com o que deseja para o futuro. Ele recusa um papel ativo nos negócios do pai — o que George aceita, com certo respeito. Ao contrário da irmã Gladys, que está confinada pela vontade materna, Larry tem liberdade para circular, conhecer e experimentar. Essa liberdade, porém, não é sinônimo de indiferença. Larry está observando tudo: a luta brutal dos pais por aceitação, o jogo social de alianças, os preconceitos da elite antiga. E tenta, dentro do possível, manter uma postura digna — não altiva, não servil.

É nesse contexto que se aproxima de Marian Brook. Os dois se entendem com facilidade, compartilham uma leveza fora do tom das batalhas sociais ao redor. Mas não há espaço real para romance: Marian está envolvida com Tom Raikes, e Larry, embora encantado, recua. Mesmo assim, suas conversas com ela revelam muito de sua visão de mundo. Em um momento marcante, ao falar sobre o futuro, ele diz que não quer ser apenas “o filho do homem mais rico da América” — quer construir coisas belas, deixar uma marca própria. A arquitetura se apresenta ali não apenas como profissão, mas como projeto de vida e forma de escape simbólico da sombra dos pais.

A luta silenciosa por identidade

A segunda temporada marca a afirmação desse desejo. Larry entra para um escritório de arquitetura, aprende a desenhar, colabora com projetos e começa a se fazer notar por méritos próprios. Ele aceita um contrato para restaurar o teto de um teatro — e, ao fazer isso, participa do maior campo de batalha da mãe: a guerra entre as companhias de ópera. O gesto é ambíguo. De um lado, mostra que Larry ainda está dentro da órbita da família; de outro, revela sua habilidade de transitar com inteligência nos campos de influência.

É também na segunda temporada que Larry se aproxima de Susan Blaine, uma viúva socialmente bem posicionada, espirituosa e ambiciosa. A relação se consuma em um tórrido romance, mas revela o tipo de mulher com quem ele se sente à vontade: não uma debutante tímida, mas alguém que, como ele, conhece as regras e decide como jogá-las. Essa paixão logo se torna uma fofoca que sai de Newport e chega à Nova York, confirmando os piores medos de Bertha.

A partir daí, sua relação com sua mãe se torna mais complexa. Ele a respeita, mas critica seus métodos. Ele sabe que após sua conversa com Susan, o romance chegou ao fim. Então quando Bertha insiste para que Gladys se case com um europeu de sangue azul, Larry se opõe com firmeza. Ele acredita que a irmã tem o direito de escolher — e, mais uma vez, atua como o contraponto humanizado da ambição materna.

Um herdeiro em outra chave

A terceira temporada aprofunda essa tensão entre pertencimento e autonomia. Larry agora é visto como arquiteto promissor, convidado para projetos e consultado em decisões. Ele tem talento, tem visão — e tem nome. Mas esse nome, ao contrário do que pensa a sociedade tradicional, não é um peso para ele. Larry Russell não quer se livrar da herança dos pais — ele quer ressignificá-la.

Ele não quer destruir nada. Mas também não quer apenas manter. Sua luta é mais sutil: ele quer provar que é possível ser filho de George e Bertha Russell — e ainda assim ser um homem decente, criativo, livre.

Por que ele é mais aceito?

Essa aceitação parcial que Larry experimenta — nas salas da ópera, nos clubes, nos almoços com as famílias Van Rhijn e Astor — não é acidental. Larry estudou em Harvard. Ele fala a língua da elite. Sabe qual garfo usar, quais artistas citar, qual tom de voz empregar. Ele não ameaça. E isso, para a elite, é crucial.

George e Bertha são vistos como invasores. Larry é visto como alguém que talvez sempre tenha pertencido — ou, ao menos, alguém que não precisa ser expulso. Ele é, na prática, o que muitos jovens ricos da época tentavam ser: um novo tipo de aristocrata, moldado não pelo sangue, mas pela educação e pelo gosto.

Relação com George Russell: orgulho, conflito e herança

A relação entre Larry e seu pai George é uma dança cuidadosa entre admiração e desconforto. Larry respeita a força e a inteligência do pai, mas discorda da visão utilitarista de mundo que ele representa. George espera que o filho “cresça” e tome o lugar que lhe cabe no império ferroviário, enquanto Larry, por muito tempo, insiste em seguir seu próprio caminho como arquiteto.

A 3ª temporada sugere um certo alinhamento: Larry começa a compreender as pressões de manter uma fortuna e um legado. George, por sua vez, parece tolerar mais a inclinação artística do filho, desde que ele continue dentro do círculo de influência da família. É uma relação de compromisso — e tensão.

Relação com Bertha Russell: símbolo e instrumento

Com Bertha, a dinâmica é mais emocionalmente delicada. Bertha projeta em Larry uma extensão de sua ambição social. Ela precisa que o filho seja bem-apessoado, eloquente, desejável — o símbolo ideal da família Russell. Bertha se opõe ao relacionamento com Susan Blaine, reforçando seu papel de matriarca estrategista.

Larry, por sua vez, admira a força da mãe, mas sente-se invadido por sua manipulação. Ele raramente a confronta diretamente, mas cria espaços de autonomia sempre que possível. Bertha quer moldá-lo; ele quer permanecer maleável, mas incontrolável.

Relação com Gladys Russell: cumplicidade e proteção

Com sua irmã Gladys, Larry tem uma das relações mais ternas da série. Ele a apoia em seus desejos de liberdade, entende seu tédio diante das regras sociais e, sempre que possível, age como aliado. Quando Bertha tenta controlar os relacionamentos e amizades de Gladys, Larry serve como confidente e voz de razoabilidade.

Ainda assim, sua proteção nunca vira condescendência. Gladys, por sua vez, parece compreender mais do irmão do que os pais imaginam. Há entre eles algo raro entre irmãos ricos em dramas de época: carinho genuíno, sem competição.

Marian Brook: quase-romance ou idealização?

Desde a 1ª temporada, há uma química sutil entre Larry e Marian Brook, a jovem órfã que se muda para Nova York para viver com as tias. Ambos são jovens, independentes, cultivam interesses pessoais (ela pela arte, ele pela arquitetura) e têm um espírito mais progressista. Mas a aproximação só se concretiza em romance no final da 2ª temporada, depois que Marian sofreu com Tom Raikes, se viu “forçada” a aceitar o noivado com Dashiell Montgomery e Larry se apaixonou por Susan Blaine. Na última cena dos dois juntos, Larry aproveita a oportunidade e surpreende Marian com um beijo. Os fãs que torcem por “Larian” foram à loucura.

Agora teremos o drama na 3ª temporada: Bertha se opõe ao romance, George aprova, Agnes aceita. Marian e Larry ficam noivos, mas os obstáculos são imediatos: ele vai passar um mês longe, ajudando nos negócios do pai e “mente” para Marian sobre a participação de uma festa de despedida de solteiro de um amigo em um bordel. Quando ela descobrir – no episódio da noite desse domingo – ela vai questionar tudo, inclusive a ligação dos dois. Será a oportunidade ideal para Bertha afastá-los? Como Larry vai reagir ao ciúmes da noiva? O que Marian vai fazer? Tantas dúvidas!

Larry Russell existiu?

Historicamente, sim e não. Larry é uma criação ficcional, mas espelha perfeitamente uma geração muito real de jovens herdeiros americanos do final do século 19. Dois nomes ilustram isso com perfeição.

William Kissam Vanderbilt, neto do fundador da dinastia Vanderbilt, era sofisticado, fluente em francês, interessado em arte e responsável por projetos como o Marble House — uma mansão inspirada em palácios europeus, símbolo da tentativa de “elevar” o status da família.

George Washington Vanderbilt II, por sua vez, foi ainda mais radical. Construiu o gigantesco Biltmore Estate, dedicou-se à literatura, ao colecionismo e à horticultura. Nunca assumiu cargos nos negócios da família. Era reservado, sensível, quase um esteta. E, como Larry, criou um universo próprio à sombra de uma fortuna brutal.

Outros tantos jovens da elite nova-iorquina da época — conhecidos como clubmen — partilhavam desse perfil. Filhos de magnatas como Rockefeller ou Morgan, educados em escolas de elite, apaixonados por arquitetura, música ou vela. Eles não queriam repetir os pais. Queriam corrigi-los. Ou ao menos, refiná-los.

O que ele representa

No fim das contas, Larry Russell representa o ideal de regeneração estética da nova América. Não é o herói romântico, nem o vilão sedutor. É o filho da brutalidade, que escolhe a beleza. O herdeiro que olha para o concreto e sonha com cúpulas. O homem que ama sua família, mas não repete seus erros. Que respeita o passado, mas quer construir — literalmente — um outro futuro.

Larry é o símbolo de uma transição social e cultural. Ele não grita, não ameaça, não impõe. Mas está ali, presente em cada salão, cada fachada, cada projeto. Um novo tipo de aristocrata, feito de papel vegetal, linhas elegantes, e silêncio firme.

E é por isso que ele existe. Mesmo sendo invenção. E nós adoramos ele. Até agora, pelo menos!


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