Como publicado no Caderno B+
Adam Sandler pode ter feito dezenas de personagens ao longo das últimas três décadas, mas nenhum deles representa tão bem seu espírito cômico, sua persona pública e até sua estratégia empresarial quanto Happy Gilmore. A comédia de 1996 sobre um jogador de hóquei frustrado que encontra redenção em um campo de golfe virou um clássico imediato, lançou Sandler como uma força dominante na comédia americana e ainda batizou sua produtora, a Happy Madison. Quase 30 anos depois, o retorno do personagem em Happy Gilmore 2 não apenas reacendeu a nostalgia dos fãs, como também registrou a maior estreia de um filme da Netflix nos Estados Unidos. Mais do que um sucesso de streaming, a sequência mostrou que Happy continua sendo o coração da mitologia pessoal de Sandler.
O primeiro filme chegou aos cinemas em uma época em que Sandler recém-saído do Saturday Night Live ainda era uma promessa. Com roteiro escrito por ele e Tim Herlihy, a história subvertia a elegância elitista do golfe ao inserir um protagonista raivoso, indisciplinado e completamente deslocado. Happy queria, na verdade, jogar hóquei, mas se vê obrigado a entrar em um torneio de golfe para impedir a execução da hipoteca da casa de sua avó. Ele grita, bate, xinga — mas também se esforça, aprende e conquista o público com sua entrega emocional quase infantil.

O personagem surgiu na esteira do primeiro sucesso do ator no cinema, Billy Madison. Ambos vieram da mesma fórmula: um protagonista emocionalmente imaturo, que transita entre o grotesco e o adorável, e que no fundo só quer proteger quem ama. Mas Happy Gilmore foi um salto porque acertava em cheio na catarse cômica da raiva reprimida, chutando o estereótipo do “bom moço” e entregando um personagem que errava o tempo todo, mas nunca perdia a empatia do público.
O filme arrecadou cerca de US$ 40 milhões nas bilheterias e, mais importante, gerou uma legião de fãs. Shooter McGavin, o antagonista vivido por Christopher McDonald, virou um vilão cômico cult. A luta aleatória com Bob Barker entrou para a história como uma das cenas mais improváveis e memoráveis da comédia americana. E Sandler, agora claramente dono de um estilo próprio, aproveitou o embalo para fundar a Happy Madison Productions, empresa que se tornaria uma das principais responsáveis por moldar o humor popular dos anos 2000.
Por isso, quando os rumores de uma sequência começaram a circular em 2023, impulsionados por vídeos virais de Sandler e McDonald revivendo os personagens, a ideia soou menos como uma jogada de marketing e mais como um reencontro inevitável. E foi isso mesmo: Happy Gilmore 2, lançado pela Netflix em julho de 2025, rapidamente se tornou um fenômeno. Em apenas três dias, acumulou 46,7 milhões de visualizações, com base na métrica da plataforma que divide o total de horas assistidas pelo tempo de duração do filme. Foi a maior abertura de um filme da Netflix nos Estados Unidos em todos os tempos, superando inclusive títulos originais com grandes orçamentos — e também o melhor desempenho da carreira de Sandler, incluindo seus trabalhos dramáticos.
Na sequência, Happy Gilmore aparece aposentado e devastado, afundado no álcool após um incidente traumático nos campos. A trama toma forma quando ele se vê obrigado a voltar ao esporte para bancar a escola de balé absurdamente cara da filha — em Paris, claro. Se no primeiro filme ele jogava golfe por amor à avó, agora o motivo é a filha, e essa evolução do personagem conversa diretamente com a própria trajetória de Sandler, agora pai de duas adolescentes e casado com Jackie Sandler, que também aparece no elenco.
O filme não economiza nos nomes: Christopher McDonald retorna como o eterno e maníaco Shooter McGavin, agora mais vaidoso do que nunca, e o elenco se completa com Benny Safdie, Bad Bunny, Travis Kelce e participações especiais que fazem do longa um festival de easter eggs pop: Taylor Swift, Ben Stiller, Rory McIlroy, Scottie Scheffler, Sean Evans (do Hot Ones) e Guy Fieri, do Food Network, todos dão as caras. As filhas de Sandler, Sadie e Sunny, também aparecem em cena, criando aquele tipo de universo afetivo que ele costuma construir em seus projetos, com um pé na ficção e outro na vida real.

O impacto foi tão grande que até o filme original, de 1996, entrou na onda: voltou ao catálogo da Netflix e subiu diretamente para o 3º lugar no Top 10 global, com 11,4 milhões de visualizações só naquela semana — sua segunda consecutiva entre os mais assistidos. A sequência trouxe, assim, não apenas novos olhares, mas também reacendeu o interesse por um clássico que resistiu ao tempo sem depender de nostalgia programada. O humor funciona, o ritmo segura, e Happy, por incrível que pareça, ainda parece fresco.
Happy Gilmore 2 poderia ter sido apenas um fan service saudosista. Mas não foi. Ele não só atualizou o personagem para um novo momento de vida — mais amargo, mais cético, mas ainda com aquele surto cômico latente — como também reafirmou o que já sabíamos: esse personagem é o eixo em torno do qual gira toda a carreira de Adam Sandler. Ele pode fazer drama aclamado, pode ganhar prêmios indie, pode até ser subestimado em ciclos mais “sérios” de crítica. Mas é como Happy que ele respira. E é com Happy que ele nos conquista de novo.
No fim das contas, não importa se você gosta de golfe, se entende as regras ou se jamais assistiria voluntariamente a um torneio. No meu caso, menos ainda se não ri com o humor de Sandler, se Happy Gilmore estiver em campo, você vai assistir. Porque, como o próprio filme ensina, às vezes o herói mais improvável é o que mais merece uma segunda chance.
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