Carrie evoca a regra de três de Beetlejuice

No universo de Beetlejuice, dizer o nome do personagem três vezes é uma das regras mais famosas do clássico de Tim Burton: um ritual mágico que invoca (ou despacha) o bioexorcista do submundo, grotesco, cômico e perigosamente imprevisível, interpretado por Michael Keaton. Essa repetição cria uma tensão entre humor e horror, entre o desejo de controle e a perda dele. Ao mesmo tempo em que dá poder, também o retira.

Nunca pensei que traria Beetlejuice à mente enquanto assistia Carrie Bradshaw tentando seguir em frente sem Aidan ou Big. Mas lá estava ela, sozinha diante do computador, escrevendo:

“A mulher tinha feito tudo que podia. Ela tinha feito tudo que podia. Ela tinha feito tudo que podia.”

E eu só conseguia pensar: não diz de novo.

Quando invocar é um erro

Todo mundo sabe que dizer “Beetlejuice” três vezes equivale a libertar uma força que ninguém consegue controlar. A mesma lógica se aplica a And Just Like That. Desde sua estreia, a série tenta justificar sua existência — mas, a essa altura, fica claro: o feitiço virou contra o feiticeiro. Nada emociona, nada engaja. A Carrie que conhecíamos morreu com Big — o nome que ela repetiu obsessivamente por dez temporadas e que sumiu da narrativa há três. E olha que eu nem gosto do Mr. Big.

No penúltimo episódio do que espero de verdade que seja a despedida definitiva da franquia que um dia amei, muita coisa acontece. Mas nenhuma delas importa.

Charlotte renova a casa, tenta meditar, não consegue, vai se abrigar na casa da Carrie. Três cenas. Miranda descobre que Brady engravidou uma ficante, não quer ser pai, e tudo vira espelho do que ela viveu. Steve explode, Miranda se culpa. De novo.

Anthony chama Giuseppe para morar com ele (eu achava que já morassem), depois de uma cena grosseira, ele aceita. Quem é a mãe do Giuseppe? Alguém liga?

Herbert, finalmente, disputa a eleição de que fala há séculos — e perde. Que surpresa.

Seema e Adam seguem juntos, numa reencenação estéril de Samantha e Smith. Ela acha que não tem futuro, ele a convence com frases bem construídas. Zzz…

Carrie, o fantasma de si mesma

E a Carrie? Sempre no centro. Sempre no limbo. Agora se sente culpada pelo climão com Duncan, o escritor (alcoólatra) que vive de whisky e platitudes. Ele a ajuda no livro, atrasa o próprio, a leva para uma festa onde ela descobre que ele já foi casado com sua editora (!). Ela hesita em dormir com ele. Depois cede.

Então diz à Seema:

“Nunca fui vista como inteligente antes de mais nada. Sexy, bonita, sim.”

Seema rebate:

“E humilde.”

Carrie alega que só Duncan a respeita como pensadora e indivíduo. Ui. Dói.

Mentira. Duncan a elogia até levá-la para a cama. No dia seguinte, avisa que está indo embora para Londres — e não pretende voltar. Nem sugere manter contato. É esse o homem que a vê como mais do que um corpo? Onde isso é respeito?

A terceira repetição

O problema de And Just Like That sempre foi tentar responder a todas as críticas, episódio após episódio, em um jogo inútil de reparações. Carrie, que já foi personagem rica e complexa, virou uma milionária apática de roupas largas e alma vazia.

Big, de tóxico e problemático, foi redesenhado como ideal: rico, sexy, sensível. Se Carrie estivesse tentando superar essa fantasia, haveria algo aí. Mas ela destrói isso ao afirmar que o melhor sexo foi com Aidan — para depois dizer que ele também era manipulador.

Duncan, esse último nome, vem apenas confirmar que todo par romântico recente de Carrie é uma versão pálida de algo que já vimos — e não queremos repetir. Nem o post-it de Berger foi tão sem sal quanto essa despedida londrina.

Beetlejuice, Beetlejuice… basta

Honestamente?

Eu só queria que a série acabasse. A série acabasse. A série acabasse.

Antes que destrua tudo de bom que um dia existiu em Sex and the City.

Voltando à regra de três de Beetlejuice: essa brincadeira com palavras é, no fundo, uma metáfora sobre o desejo humano de controlar o incontrolável — e sobre o preço que se paga ao tentar. Dizer o nome três vezes representa uma escolha. Parece inofensivo, até que não é.

No caso de And Just Like That, o nome foi dito. O espírito foi invocado.
E que seja, por fim, o espírito do adeus.


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