Os Sonhos em Shakespeare Entre Ilusão, Desejo e Verdade

Desde a primeira vez em que li A Tempestade e deparei com a famosa frase “Somos da mesma matéria de que são feitos os sonhos“, entendi que, para Shakespeare, sonho nunca foi apenas uma alegoria passageira. Era uma chave. Uma fresta para os bastidores da alma. Os sonhos povoam suas peças com uma força simbólica quase mágica — às vezes profética, às vezes enganosa, sempre reveladora. Mas mais que uma ferramenta de enredo ou recurso poético, os sonhos no universo shakespeariano falam de nós: nossos medos, ambições, culpas, delírios.

É claro que Shakespeare não inventou os sonhos como expressão dramática. Mas poucos os utilizaram com tamanha complexidade. Desde as tragédias às comédias, os sonhos aparecem como visões, premonições, justificativas morais e até como campo de batalha entre desejo e razão. Em Hamlet, por exemplo, é impossível ignorar o peso filosófico da fala “Dormir, talvez sonhar — eis o problema. Pois, nesse sono da morte, que sonhos poderão vir…” O príncipe da Dinamarca, ao contemplar o suicídio, revela que o verdadeiro medo da morte não é o fim, mas o que sonharemos nesse sono eterno. A vida pode ser insuportável, mas a incerteza do que vem depois — dos sonhos que talvez nos esperem além da morte — paralisa. Sonhar, aqui, não é consolo: é abismo.

Somos da mesma matéria de que são feitos os sonhos
A Tempestade

Essa ambivalência percorre toda a obra. Em Júlio César, Calpúrnia sonha com a morte de César e o avisa. Um sonho que poderia ter mudado o curso da história. Mas, como em tantas tragédias, a premonição feminina é ignorada, rebaixada ao status de histeria, e o destino se cumpre. Já em Macbeth, os sonhos são dominados por culpa e delírio. “Não durmas mais! Macbeth assassinou o sono!” — exclama o protagonista, após cometer o assassinato que lhe garantirá o trono. A partir dali, o sono, e consequentemente o sonho, tornam-se impraticáveis. A mente culpada está condenada à vigília. Lady Macbeth, por sua vez, sonha acordada, lavando as mãos obsessivamente no que podemos chamar de um surto de sonambulismo traumático. A loucura atravessa o sono, como se o inconsciente finalmente exigisse sua parte.

Dormir, talvez sonhar — eis o problema
Hamlet

Mas nem tudo são sombras. Em Sonho de uma Noite de Verão, os sonhos ganham contornos de brincadeira e desejo. O mundo onírico da floresta é um espaço onde tudo é possível: paixões trocadas, identidades confundidas, realidades suspensas. No fim, Puck nos convida a pensar que tudo não passou de um sonho: “Se nós, sombras, vos ofendemos, pensai apenas que estais a sonhar, e tudo estará perdoado: que apenas adormecestes aqui enquanto estas visões surgiam.” Há aqui uma ironia profunda: o teatro como sonho coletivo. O palco como leito onde o público adormece e se projeta. Mais do que encantamento, há crítica — e consciência do artifício.

Aliás, é notável como Shakespeare conecta sonho e ilusão com teatro e verdade. Em A Tempestade, Próspero declara: “Somos da mesma matéria de que são feitos os sonhos, e nossa breve vida é cercada por um sono.” Tudo é transitório, tudo é encenação — inclusive a existência. Ao encerrar a peça, Próspero se despede não só do público, mas da própria arte: um mago que pendura a capa, um dramaturgo que fecha a cortina. O sonho, novamente, marca fim e começo.

“Tive um sonho que ultrapassa a compreensão do homem dizer que sonho foi.”
Sonho de uma Noite de Verão

Hoje, é impossível não reler essas passagens sob uma ótica psicanalítica. Séculos antes de Freud publicar A Interpretação dos Sonhos, Shakespeare já intuía o poder simbólico e traumático do inconsciente. Seus personagens sonham não com fadas ou criaturas mitológicas, mas com medos internos, perdas irreparáveis, ambições reprimidas. Os sonhos, na obra shakespeariana, revelam fissuras no eu. O desejo é exposto, mas nunca plenamente resolvido. Em vez de oferecer respostas, os sonhos ampliam a dúvida — e isso os torna profundamente humanos.

Também por isso, as falas oníricas de Shakespeare permanecem populares, citadas em filmes, séries, livros, discursos. Frases como “Dormir, talvez sonhar” ou “Somos da mesma matéria de que são feitos os sonhos” foram impressas em pôsteres, tatuadas em peles, ditas em casamentos e funerais. Mais do que belas palavras, são sínteses poéticas da condição humana. De nossas hesitações. De nossa capacidade de imaginar um outro mundo — ou temê-lo.

Em tempos de realidade distorcida, em que sonhos são muitas vezes confundidos com fake news, as reflexões de Shakespeare sobre os limites entre o real e o imaginado voltam a soar atuais. Talvez seja por isso que o bardo continua a sonhar conosco. Ou melhor: continua nos fazendo sonhar com ele. E nos mostrando que o sonho, longe de ser fuga, é um espelho — torto, encantado, necessário.


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