Quando Madonna anunciou que faria sua cinebiografia, não surpreendeu ninguém ao declarar que ela mesma escreveria e dirigiria o projeto. Nunca foi de entregar o controle — e não seria diferente ao contar sua própria história. A princípio, ela trabalhou com a roteirista vencedora do Oscar Diablo Cody, em um rascunho de roteiro provisoriamente chamado Live to Tell, nome de uma de suas músicas mais confessionais.
Diablo Cody é uma roteirista norte-americana vencedora do Oscar pelo roteiro de Juno (2007), filme que conquistou público e crítica com seu estilo afiado, cômico e sensível. Desde então, Cody se destacou como uma voz autoral em Hollywood, assinando também os roteiros de Young Adult, Tully (ambos dirigidos por Jason Reitman e estrelados por Charlize Theron) e a série United States of Tara (produzida por Steven Spielberg).


Quando Madonna convidou Diablo Cody para colaborar no roteiro de sua cinebiografia, o anúncio gerou entusiasmo. A expectativa era de que Cody, com sua escrita provocadora e feminina, poderia ajudar a moldar um retrato honesto e criativo da Rainha do Pop.
No entanto, a parceria não durou muito. Segundo fontes da imprensa americana (como o The Hollywood Reporter e o The Wrap), a colaboração entre Madonna e Cody teria sido difícil desde o início. O principal motivo da ruptura foi o nível de controle exercido por Madonna: ela não queria apenas participar, queria decidir tudo — estrutura, diálogos, tom e foco narrativo. Cody, acostumada a certa autonomia criativa, teria se frustrado com os constantes impasses e mudanças de direção.
Após a saída de Cody, o projeto passou por uma espécie de limbo criativo. Em 2021 e 2022, Madonna trabalhou com Erin Cressida Wilson, roteirista de A Garota no Trem (The Girl on the Train) e autora de peças e roteiros que exploram personagens femininas complexas. Wilson assumiu a tarefa de continuar o desenvolvimento do roteiro, desta vez com Madonna mantendo o crédito principal como coautora e diretora. Agora o filme passou a ser Who’s That Girl.

Apesar disso, o texto continuou sofrendo reescritas e o projeto acabou sendo adiado indefinidamente em 2023, quando Madonna decidiu focar inteiramente na Celebration Tour. Mas antes disso, até a escolha de elenco estava em andamento e a escolha da atriz que interpretaria Madonna foi um processo rigoroso e quase mítico em Hollywood.
Estúdios sabiam que, embora Madonna já não estivesse no auge artístico ou comercial, seu legado e apelo global ainda podiam render uma cinebiografia rentável. O “campo de batalha” foi duro: nomes como Florence Pugh, Odessa Young, Alexa Demie e Bebe Rexha teriam sido testadas. Mas foi Julia Garner, conhecida por seu papel premiado em Ozark e elogiada por Inventing Anna, quem conquistou o papel.
Garner teve que suar para consegui-lo. Em entrevista recente ao podcast SmartLess, ela revelou que passou por um processo de audição desgastante, com testes de canto, dança e atuação — e tudo diante da própria Madonna. Como não é bailarina, precisou convencer a cantora (e a si mesma) de que poderia dar conta. Disse que entrou na sala pensando: “O que Madonna faria?”. A resposta? “Ela entraria como se soubesse que já era dela.” Foi essa energia que Julia projetou — e funcionou.
Apesar do entusiasmo inicial, quando o projeto foi pausado em 2023, imaginou-se que tinha sido descartado. Desde então, rumores indicam que o projeto, antes planejado como filme, será transformado em uma minissérie da Netflix, com produção de Shawn Levy (Stranger Things, The Adam Project), e Julia Garner ainda atrelada ao papel.

Mas a questão que paira hoje é: ainda faz sentido revisitar Madonna como fenômeno cultural no presente?
Madonna, a artista, tem relevância histórica inegável. Seu impacto nos anos 80 e 90 redefiniu os limites da cultura pop, da moda, da sexualidade e da performance. Mas Madonna, a figura pública atual, tornou-se vítima da própria obsessão por controle e juventude. Cirurgias plásticas, aparições incoerentes nas redes sociais e performances erráticas ofuscaram sua capacidade de dialogar com uma nova geração. O impacto cultural de sua obra foi diluído pelo ruído da persona.
Além disso, cinebiografias autorizadas frequentemente enfrentam um obstáculo difícil de contornar: a necessidade de agradar o retratado. No caso de Madonna, isso se multiplica. Há precedentes. O filme de Elton John, Rocketman, é uma rara exceção em termos de liberdade artística e honestidade. Já produções como Bohemian Rhapsody (Queen) foram criticadas por eliminar fatos desconfortáveis, alterar cronologias e suavizar conflitos. Com Madonna dirigindo o próprio projeto, o risco de uma narrativa editorializada demais, autocentrada e revisionista é quase certo.
Julia Garner é uma atriz com potencial de entregar uma performance marcante. E uma minissérie bem produzida poderia mergulhar de fato nas camadas complexas de Madonna: a artista, a mulher, o ícone, o produto. Mas só se for honesta. A grande pergunta é: Madonna está disposta a se encarar sem filtro? Porque se não estiver, talvez esse projeto sirva apenas para confirmar o que muitos já temem — que a Madonna de hoje se perdeu em relação à Madonna que um dia transformou o mundo.
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