Zambelli, a Outra

No Brasil, tanto se falou em “Zambelli” nos últimos tempos, nos noticiários e nas redes, que minha mente fez um desvio involuntário — e mais interessante — para outra Zambelli, essa sim à altura do nome: Carlotta Zambelli, a bailarina. Uma figura que sempre cruzou minha consciência lateralmente, sem jamais ter cravado uma impressão profunda — até agora.

Minha primeira lembrança dela, curiosamente, não foi muito elogiosa. Estava folheando um daqueles compêndios antigos sobre a história do balé quando me deparei com uma imagem incômoda, quase cômica: Zambelli e Antonine Meunier, em trajes trocados (en travesti), em uma montagem de Les Deux Pigeons. A legenda era cruel. Usavam a foto para exemplificar o “fundo do poço” em que teria caído o balé clássico francês no final do século XIX, antes da revolução trazida por Diaghilev e os Ballets Russes. Era uma acusação travestida de documentação.

Mas talvez fosse hora de revisitar Zambelli com mais generosidade — e contexto.

Italiana de nascimento, Carlotta Zambelli nasceu em Milão em 1875, ou seja, há 150 anos, formou-se na prestigiada escola de balé da La Scala, onde foi aluna de Adelaide Viganò e Cesare Coppini, expoentes da escola italiana, conhecida por sua exigência técnica, pelos saltos audaciosos e pelos giros de precisão quase matemática. Aos 19 anos, foi levada a Paris pelo então diretor da Ópera, Pedro Gailhard, e logo conquistou o palco francês com uma execução de quinze fouettés em um divertissement da ópera La Favorita. Pode parecer pouco hoje, mas na época foi um choque. O padrão-ouro — 32 fouettés — havia sido estabelecido apenas três anos antes por Pierina Legnani na estreia de Cinderella, em São Petersburgo.

Zambelli não atingiu as 32, mas causou sensação suficiente para ser promovida a étoile da Ópera de Paris em 1898. Nada mal para uma estrangeira em um sistema que, pouco depois, fecharia suas portas a bailarinas não francesas. Ela se manteve como prima ballerina até 1930 — três décadas de protagonismo absoluto em uma das casas mais conservadoras da Europa.

E não se tratava apenas de ocupar espaço. Zambelli originou papéis principais em obras como Namouna (1908), Javotte (1909), España (1911), Sylvia (1919), Taglioni chez Musette (1920) e Cydalise et le chèvre-pied (1923). Em 1927, já madura, dançou em Impressions de music-hall, de Bronislava Nijinska, um gesto quase poético de aproximação entre tradição e vanguarda. Nijinska, irmã de Nijinsky e um dos nomes fortes da modernidade no balé, viu nela algo que muitos já tinham deixado de enxergar: vigor, elegância e inteligência cênica.

Um detalhe fascinante: em 1901, Zambelli foi para São Petersburgo e se apresentou no Teatro Mariinsky, o coração do balé imperial russo, onde dançou Giselle, Paquita e Coppélia. Foi a última estrangeira a ocupar esse posto antes que o nacionalismo artístico fechasse as portas. Estava cercada por nomes como Mathilde Kschessinska, Olga Preobrajenska e Anna Pavlova — e ainda assim, teve seu lugar.

Mesmo depois de sair dos palcos, Zambelli não se retirou da dança. Pelo contrário: foi professora da Escola da Ópera de Paris até 1955 e dirigiu sua própria academia. Formou uma geração inteira: Yvette Chauviré, Solange Schwarz, Odette Joyeux, Lycette Darsonval — nomes que mantiveram a dança clássica francesa viva durante a primeira metade do século 20. Ela não era só bailarina, era um elo entre séculos.

Mas se falamos tanto dela, por que parece haver tão pouco dela? Eis a questão. Como tantas artistas do seu tempo, Zambelli viveu antes da era da documentação em massa. O cinema ainda era incipiente, os registros são escassos. Existem, felizmente, fragmentos de filme, feitos em estúdio, onde vemos sua técnica já no final da carreira: saltos limpos, entrechats controlados, um porte régio que diz mais do que mil piruetas. Usei um trecho da suíte de Delibes, de Sylvia — que ela dançou em 1919 — para sonorizar essas imagens. Ficou melancólico. Mas também justo.

Carlotta Zambelli morreu em 1968, aos 92 anos, na mesma Milão onde nasceu. Recebeu a Legião de Honra da França, a mais alta distinção do país, e continua sendo uma referência silenciosa para quem conhece a história por trás das cortinas vermelhas.

Talvez nunca tenha sido revolucionária no molde de uma Pavlova ou uma Isadora Duncan, mas sua importância está justamente aí: preservar a base enquanto o mundo dançava em novas direções.

E hoje, quando escuto alguém dizer “Zambelli” com desprezo, penso na outra. Na que girava sem medo no palco da Garnier. Na que entrou no Mariinsky com fouettés no corpo e fogo nos pés. E sorrio. Porque essa Zambelli, sim, deixou um legado.

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