Nan Saint George: A Evolução de Heroína a Caos

Aparentemente, há um grande desafio enfrentado por roteiristas ao criarem mocinhas em séries de época que consigam equilibrar anacronismo, drama e empatia de maneira que apresentem um arco consistente para suas protagonistas. Quando nos afastamos do século 21, praticamente qualquer período retratado ainda reflete uma sociedade patriarcal e frequentemente opressora para mulheres, com padrões duplos e estruturas complexas. Digo isso porque, em 2025, tivemos no ar nada menos do que DUAS séries ambientadas na chamada “Era Dourada”, ou seja, o final do século 19 — e ambas as heroínas femininas parecem ter perdido não apenas a linha, mas também qualquer traço de coerência ou maturidade emocional.

Em The Gilded Age, a doce Marian Brook nos conduz pela jornada de uma jovem que nasceu e cresceu no interior da Pensilvânia e é lançada no centro das intrigas sociais de Nova York ao ficar órfã e sem recursos, precisando viver com duas tias que jamais conhecera. Marian passa por profundas desilusões amorosas, mas encontra o par ideal no vizinho milionário Larry Russell — moderno como ela, e igualmente romântico. Até que ele comete um erro: uma mentira aparentemente simples, mas com um contexto delicado, revelando um novo lado de Marian — agressivo, rancoroso, traumatizado, paranoico e intempestivo. Chegamos ao final da temporada com ela tentando retomar a relação com um Larry justificadamente triste, assustado e magoado, sem saber ao certo se a reconciliação será possível.

Se comparada à Nan Saint George de The Buccaneers, Marian ainda funciona como uma âncora emocional. As duas jovens representam, com força, o grande dilema narrativo atual: como dar voz e atitude a mulheres em tempos em que isso era, ao mesmo tempo, improvável e praticamente impossível — e é necessário criticá-las.

No caso de Marian Brook, há menos margem para questionamentos, já que ela é uma criação original de Julian Fellowes. Mas Nan? Mesmo sendo também uma personagem ficcional, Edith Wharton — que viveu e escreveu durante a própria Era Dourada — inspirou-se em pessoas reais (as mesmas que também serviram de base para The Gilded Age) ao construir sua história sobre jovens americanas enfrentando os choques culturais e sociais entre os Estados Unidos e a Inglaterra.

A proposta da Apple TV+ foi adaptar o livro inacabado de Wharton com uma abordagem “modernizada”. No embalo da narrativa de Meghan Markle — que praticamente revive todo o drama de dois séculos atrás em pleno século 21 —, Nan Saint George tinha todos os elementos para se tornar uma personagem adorada por fãs do livro e de grandes dramalhões. E, no entanto, que decepção!

Nan Saint George é o centro gravitacional de The Buccaneers, mas nem sempre no bom sentido. Ela foi reimaginada como uma tempestade emocional ambulante, sempre à beira de um escândalo ou de um colapso. Enquanto, no livro, ela simboliza uma transição silenciosa entre a velha ordem aristocrática e uma nova consciência feminina, na série ela se apresenta, na maior parte do tempo, apenas como uma garota rica e inconsequente. E talvez — ainda que sem intenção — isso também diga muito sobre os tempos em que vivemos.

Mas vamos por partes.

A Nan do livro: liberdade com lucidez

Edith Wharton concebeu Nan como uma figura fascinante: americana, mas criada à margem da elite dominante; sensível, mas não submissa; espontânea, mas moralmente lúcida. Sua rebeldia não é performática. Ao contrário: ela tenta se encaixar, tenta amar, tenta fazer o que esperam dela — até perceber que o mundo ao redor não está disposto a abrir espaço para alguém como ela. É aí que sua trajetória ganha densidade. A Nan de Wharton é, acima de tudo, uma mulher em processo de desilusão, que escolhe a integridade mesmo que isso signifique renunciar ao conforto. Sua maior força está no silêncio, na dignidade e na escolha de não ceder ao jogo de aparências.

Já fiz a comparação entre série e livro mais de uma vez, mas é sempre necessário voltar à fonte para entender a dificuldade da Nan que está sendo comprada pelo público de 2025.

A Nan da série: grita, corre, chantageia

Na série da Apple TV+, escrita por Katherine Jakeways, a Nan é outra criatura.

Quando The Buccaneers estreou em 2023, Nan Saint George foi apresentada como a nossa protagonista clara e cristalina: a jovem americana idealista, de espírito livre, rejeitada pela sociedade britânica por ser filha ilegítima, mas ainda assim firme em sua autenticidade. Parecia destinada a ser aquela que uniria os dois mundos — a razão e o coração, a tradição e a revolução. Seu amor por Guy Thwarte era puro, inevitável, quase literário. Ela era o centro moral da história. Mas o que a série fez com ela — e o que ela fez consigo mesma — talvez seja uma das maiores ironias dessa adaptação. Porque hoje, ao final da segunda temporada, Nan não é mais a mocinha romântica. Ela é a mais perdida, instável e, sim, cruel das personagens.

Interpretada por Kristine Froseth com uma entrega total ao exagero emocional, essa versão da personagem é feita sob medida para o público da era das redes sociais — o que significa que tudo precisa ser sentido, dito e gritado com intensidade máxima. A contenção emocional dá lugar ao impulso, à histeria, à descompensação pública. E o mais curioso: ao contrário da Nan literária, essa aqui raramente parece aprender com seus próprios erros.

Nan chantageia o marido, desaparece por dias, volta e diz que está “com medo”; faz Guy Thwarte de ioiô emocional, insulta a irmã, desrespeita amigos, e no final protagoniza um dos desfechos mais caóticos e teatralmente “cafona” de uma série recente: grávida, mascarada, ameaçando todo mundo e saindo cavalgando pelo jardim do palácio enquanto neva. Se The Buccaneers fosse uma ópera, esse seria o terceiro ato de uma heroína desgovernada que ainda não entendeu se está lutando contra a sociedade ou apenas contra os próprios impulsos.

É importante lembrar e contabilizar que em NENHUMA cena Nan fica onde está: sempre entra corredo e sai na mesma velocidade. Sua forma de conversa é sempre fazer com que todos disparem atrás dela. Seria cômico se já não estivesse no estágio de trágico.

Bastidores de uma performance

Kristine Froseth está absolutamente entregue ao que a série pede — mesmo que esse pedido mude a cada cena. Se a primeira temporada flertava com o coming-of-age romântico, a segunda mergulha sem freios no melodrama. E Froseth acompanha: ela passa do sussurro introspectivo à histeria performática com convicção, olhos marejados, voz embargada e presença magnética.

Mas o problema está no material: o roteiro entrega a ela uma protagonista escrita para ser “com quem a gente se identifica”, mas que mais parece uma sucessão de colapsos emocionais sem consequência real.

Nos bastidores, a showrunner já declarou que queria “reimaginar Wharton para um público jovem e feminista”, mas o que acabou acontecendo foi uma atualização estética, não ideológica. A série está recheada de roupas lindas, músicas pop soturnas e poses de empoderamento – mas falta à Nan (e ao conjunto da série) a complexidade moral que faz da obra de Wharton algo ainda tão relevante hoje.

Theo, Guy e o triângulo da disfunção

O triângulo amoroso entre Nan, o Duque de Tintagel (Theo) e Guy Thwarte deveria ser o coração trágico da série. Mas na adaptação da Apple TV+, tudo se transforma num circo emocional. Theo é um aristocrata perturbado, sim, mas não exatamente cruel — o que enfraquece o conflito. Guy é a projeção romântica de um amor livre, mas tão passivo que parece existir apenas para receber migalhas de afeto de Nan.

A Nan da série oscila entre os dois com uma instabilidade emocional que faz parecer que ela quer os dois — e nenhum deles. No livro, essa tensão tem outro tom: ela se casa com Theo por pressão e desespero, mas o verdadeiro amor é Guy — um amor impossível, ético, contido. Há tragédia real nisso. Na série, o sentimento que sobra é exaustão.

A gravidez como clímax e catástrofe

O arco final da segunda temporada transforma a gravidez de Nan – que não existe no original – em uma bomba emocional e narrativa. O episódio final flerta com a farsa e o absurdo: ela aparece mascarada num baile, não revela a gravidez ao marido mas o chantageia para poder manter o título de Duquesa, ameaça destruir todos os segredos da aristocracia e desaparece (correndo, claro) como se estivesse numa montagem de Evita dirigida por Baz Luhrmann. É gloriosamente cafona, sim, mas também revela o quanto a personagem perdeu contato com qualquer nuance emocional.

É quase irônico: quanto mais a série tenta mostrar Nan como símbolo de liberdade feminina, mais ela parece prisioneira de um script que exige dela emoções rasas e atitudes extremas. A Nan do livro renuncia com sobriedade. A da série berra até a última cena.

Heroína ou vilã? Ou só humana demais?

O mais cruel — e fascinante — na versão televisiva de Nan é que ela ainda acredita ser a protagonista virtuosa de uma história romântica. Ela acredita que, por ter sofrido, está autorizada a ferir. Que o título de duquesa, que ela odiava, agora lhe serve como escudo e bandeira. Que ser mãe será redenção. Que dizer “não quero machucar ninguém” basta — mesmo enquanto pisa em todos ao redor.

E o mais trágico é que, talvez, nem a série saiba como resolver isso. The Buccaneers parece cada vez mais interessada em confrontar a ideia de mocinha com algo mais caótico, mais instável, mais “moderno”. Mas, ao fazer isso, torna Nan menos revolucionária e mais desestruturada. Não há trajetória. Só reação em cadeia. Ela se diz livre, mas vive presa a ciclos que ela mesma cria — e depois destrói.

Então o que The Buccaneers nos diz hoje?

Há algo fascinante na escolha da Apple TV+ de transformar uma obra literária sofisticada num melodrama juvenil estilizado. A série tem momentos visuais lindíssimos, atuações competentes e um claro desejo de falar com uma nova geração. Mas, ao centralizar a trama em uma Nan que perdeu o eixo entre vulnerabilidade e ego, a série perde justamente o que fazia da personagem original algo tão poderoso.

A Nan do livro é alguém que precisa tomar decisões impossíveis dentro de um mundo que não foi feito para ela. A Nan da série acha que o mundo gira em torno dela — e, de certa forma, a série parece concordar. O resultado é uma heroína que quer ser símbolo de emancipação, mas só consegue ser retrato do colapso.

Se The Buccaneers continuar, talvez seja hora de dar a Nan algo que ela nunca teve na série: introspecção. Porque se tudo é escândalo, nada mais é escândalo. E, no fim das contas, até a rebeldia precisa ter propósito.


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