A segunda temporada de Wandinha chegou carregada de expectativas — e, para a maioria dos fãs, conseguiu entregar um produto visualmente deslumbrante, sombrio e cheio daquele clima gótico que conquistou na primeira temporada. Porém, logo fica claro que, desta vez, a série aposta numa estrutura mais complexa e densa, talvez até ambiciosa demais, o que trouxe uma enxurrada de subtramas que, apesar de muito bem feitas e aterrorizantes, acabam confundindo mais do que ajudando. Isso não tira o mérito da temporada, que mantém viva a essência da personagem e da narrativa, mas certamente deixa a sensação de que a história poderia ser um pouco mais enxuta para causar ainda mais impacto.
Jenna Ortega, sem dúvida, segue brilhando no papel da protagonista. A Wandinha de Ortega é uma combinação perfeita de humor negro, sagacidade e uma vulnerabilidade recém-descoberta que acrescenta profundidade à personagem. É fascinante observar como ela evolui, explorando novos tons de cinza na personalidade tão icônica da jovem Addams, antes tão rígida e certeira em seu determinismo. Ortega entrega uma performance que mantém o espectador grudado na tela, seja nas cenas de suspense, nas interações carregadas de sarcasmo ou nos momentos mais emocionais, em que a garota enfrenta seus dilemas internos e suas relações familiares.

Falando em família, a interação entre Wandinha e Mortícia, interpretada por Catherine Zeta-Jones, é um dos pontos altos da temporada. A química entre as duas é palpável, fazendo com que cada cena conjunta ganhe uma carga dramática e afetiva que equilibra o tom sombrio da série com uma certa leveza e humanidade. Zeta-Jones traz uma Mortícia elegante, irônica e, ao mesmo tempo, maternal, criando um contraponto perfeito para a personalidade mais fechada e fria da filha. Essa dinâmica torna a série mais rica e multifacetada, aproximando o público da complexidade dos personagens além do estereótipo macabro.
Outro ponto que merece destaque é a trilha sonora. Ela funciona como uma personagem invisível que guia o clima da temporada, dando ainda mais peso às cenas de mistério e terror, mas sem perder a sutileza. A escolha das músicas e o trabalho da direção musical são certeiros, amplificando o impacto visual com sons que grudam na cabeça e evocam aquela sensação que só uma boa trilha pode provocar — de suspense, tensão e, por vezes, uma estranha melancolia.

Esteticamente, a série continua impecável, com uma fotografia que abraça o visual gótico clássico, cenários ricos em detalhes sombrios e figurinos que fazem um tributo à tradição da família Addams. A direção de Tim Burton, que segue envolvido nos bastidores, imprime seu estilo característico, mantendo aquele equilíbrio entre o macabro e o cômico, o bizarro e o humano. Tudo isso junto cria uma atmosfera envolvente que é uma das grandes marcas da série.
Além disso, a segunda temporada traz homenagens claras ao cinema clássico de suspense e terror, especialmente à obra de Alfred Hitchcock. A atmosfera tensa e o mistério em torno do assassino Scalper evocam o suspense psicológico tão característico de Hitchcock, com cenas que brincam com a percepção do espectador, o jogo entre o visível e o oculto. Referências visuais a clássicos como Psicose e Janela Indiscreta aparecem nas escolhas de enquadramento, explorando o voyeurismo e a paranoia, criando um clima inquietante que eleva a série a um nível mais sofisticado de narrativa.
Um dos elementos mais marcantes nesse sentido são os pássaros — principalmente os corvos — que desempenham um papel simbólico e narrativo importante na temporada. Essa é uma homenagem direta a Os Pássaros (1963), o icônico filme de Hitchcock que transformou essas criaturas em símbolos de ameaça silenciosa e inexorável. Na série, os corvos aparecem não apenas como símbolos de morte e presságio, muito presentes no imaginário gótico, mas também participam ativamente das cenas de suspense, com ataques que aumentam a sensação de perigo iminente e paranoia crescente. Essa referência reforça o clima opressor e perturbador que perpassa a trama, ligando Wandinha ao legado maior do terror psicológico clássico.

No entanto, não dá para ignorar as críticas que apontam para um excesso de subtramas e personagens. A temporada apresenta uma quantidade enorme de elementos novos — de experimentos secretos com excluídos, assassinatos ligados a corvos, até a aparição de personagens assustadores como o assassino Scalper — que, por mais interessantes e bem desenvolvidos que sejam, acabam deixando a narrativa um pouco dispersa. É como se a série tentasse abraçar muitos mistérios ao mesmo tempo, o que pode confundir o espectador e diluir a tensão que a primeira temporada construía com uma história mais focada.
Além disso, a estratégia de dividir a temporada em duas partes, com quatro episódios lançados em agosto e a segunda parte prevista para setembro, causou certo incômodo em parte do público e da crítica. A sensação de que a história ficou interrompida no momento mais tenso, num cliffhanger digno de slasher movie, deixou muitos ansiosos e um pouco frustrados, já que o ritmo se torna irregular e o desfecho fica para depois. Por outro lado, essa divisão pode ser uma estratégia para manter o engajamento e aumentar o suspense, mas é algo que divide opiniões.

Outro ponto que aparece nas críticas é a comparação da série com outros produtos de Tim Burton ou mesmo com a primeira temporada. Enquanto a direção artística, a performance de Ortega e a atmosfera são amplamente elogiadas, alguns críticos apontam que o roteiro peca por falta de originalidade em certos momentos e que o humor perde um pouco do brilho que tinha antes. A sensação que fica para alguns é que a série virou uma espécie de reboot genérico, com menos nuances e mais foco em elementos clichês do terror adolescente — ainda que isso não a torne menos divertida ou envolvente.
No elenco, vale também destacar as novas adições que enriquecem o universo da série: Steve Buscemi, Billie Piper, Christopher Lloyd, Thandiwe Newton, Haley Joel Osment (interpretando o assustador Scalper) e Lady Gaga, que incorpora a enigmática professora Rosaline Rotwood. Essas participações trazem novos ares e contribuem para a densidade do enredo, além de expandir o mundo de Nevermore, a academia onde se passa grande parte da trama.
Apesar das ressalvas, o saldo final é bastante positivo. Wandinha reafirma seu lugar como um fenômeno global, conquistando uma audiência fiel que se identifica com a protagonista e se encanta com a mistura de humor negro, mistério e terror. O estilo visual, a trilha sonora, a atuação de Ortega e a dinâmica familiar são pilares que sustentam a série mesmo diante de suas falhas narrativas.
Por fim, a sensação que fica ao assistir a essa primeira metade da segunda temporada é que Wandinha é uma obra que cresce, que se arrisca e que não tem medo de explorar novos territórios, mesmo que às vezes isso gere um certo caos. É uma série que abraça suas contradições e que consegue manter o espectador preso, na expectativa do que virá na parte 2. E a verdade é que, com tantos elementos intrigantes deixados em aberto, ninguém vai conseguir ficar longe da tela esperando para saber o destino da nossa amada Wandinha.
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