O figurino de Marian Brooks, interpretada por Louisa Jacobson, funciona como um termômetro de sua trajetória — e não apenas no sentido estético. A maneira como ela se veste traduz, com uma precisão silenciosa, a posição ambígua que ocupa: jovem criada no interior da Pensilvânia, acostumada a uma vida mais simples, que de repente se vê no epicentro da alta sociedade nova-iorquina dos anos 1880. Entre as exigências de sua tia Agnes e a sedução de um mundo mais moderno, Marian precisa aprender a “vestir” o papel que ainda não sabe se quer desempenhar.


Um dos elementos mais consistentes na construção visual de Marian é a paleta de cores — e como ela evolui junto com a personagem. No início da série, o amarelo aparece de forma recorrente, quase como uma cor-assinatura. Esse tom, na simbologia cromática, é associado à juventude, otimismo, vitalidade e, em contextos vitorianos, à ideia de frescor e “nova vida”. O amarelo de Marian, porém, não é o dourado aristocrático nem o cítrico vibrante; são variações mais suaves, pastel ou queimadas, que mantêm a leveza mas preservam o recato. É o amarelo de quem está no limiar entre a inocência e a experiência, entre o campo e a cidade.
Na segunda temporada, essa paleta se desloca para os azuis e tons mais escuros. O azul, especialmente nas suas variações mais profundas, carrega significados de maturidade, reflexão, serenidade e até de melancolia. Em Marian, essa mudança pode ser lida como um sinal de amadurecimento — ela já não é a recém-chegada insegura, mas também não está plenamente integrada no círculo em que transita. O azul a posiciona como figura mais consciente de si, menos ingénua, talvez mais cautelosa. É uma cor que cria distância e ponderação, e que, no figurino, sugere um passo a mais em direção à autonomia, mas também um certo recolhimento emocional.


Já nas temporadas mais recentes, vemos um salto expressivo: Marian começa a usar uma variedade muito maior de cores e tonalidades mais intensas — verdes, rosas, roxos, vermelhos. Essa expansão cromática é reveladora. O verde, especialmente em suas versões mais profundas, pode sugerir esperança, crescimento e renovação, mas também ambição. O rosa, quando mais vibrante, deixa de ser apenas símbolo de feminilidade delicada e passa a representar vivacidade e autoafirmação. O roxo, cor historicamente associada à realeza e ao prestígio, insinua uma maior segurança na própria posição social, ou pelo menos um desejo de projetá-la. O vermelho, por sua vez, é a cor da paixão, da ação e do risco — uma escolha que indica que Marian talvez esteja mais disposta a se expor e a se colocar no centro de acontecimentos decisivos.


Esse arco cromático — do amarelo luminoso ao azul introspectivo e, por fim, à paleta mais variada e ousada — funciona como uma narrativa silenciosa da trajetória interna de Marian. Ele marca a passagem de uma jovem que se apresentava como um “quadro claro” para ser lido e moldado pelos outros, para uma mulher que começa a escrever, com cores mais intensas, a sua própria imagem. Não é apenas uma questão estética: é uma linguagem de poder e identidade. Quanto mais cores e mais densidade cromática ela incorpora, mais complexa e multifacetada ela se mostra.
A figurinista Kasia Walicka-Maimone constrói esse guarda-roupa a partir de uma pesquisa histórica minuciosa, mas temperada por uma narrativa visual que destaca a condição de recém-chegada e, ao mesmo tempo, sua capacidade de adaptação. Logo nos primeiros episódios, as silhuetas seguem a moda oitocentista — cinturas marcadas, bustles discretos, saias longas — mas os tecidos e acabamentos revelam um descompasso em relação ao luxo ostentado pelas mulheres do círculo de Bertha Russell. Essa escolha é intencional: Marian não chega com vestidos bordados de ateliês parisienses, mas com peças mais modestas, muitas vezes em lã fina, seda lisa ou algodão refinado, que indicam decoro e cuidado, mas sem ostentação.


A simbologia das estampas e ornamentos também é calculada. Marian raramente usa motivos chamativos; quando aparecem, são discretos — flores pequenas, listras finas, rendas delicadas no colarinho ou punhos. Essa contenção visual dialoga com seu temperamento no início da série: observadora, educada, hesitante em quebrar regras sociais. O figurino evita excessos, mas não é desprovido de refinamento: a modelagem é impecável, os cortes são simétricos, e os chapéus, ainda que menos elaborados que os de outras personagens, seguem as tendências urbanas da época.
A evolução do figurino acompanha o despertar gradual de Marian. À medida que ela passa a frequentar eventos sociais, explorar Nova York e confrontar expectativas familiares, surgem tecidos mais nobres (sedas adamascadas, veludos leves), detalhes mais elaborados (pregas, aplicações sutis) e cores ligeiramente mais vivas — como azuis médios e tons de vinho suave. Esse avanço cromático e têxtil não é abrupto; é um processo que reflete o equilíbrio que ela busca entre a tradição imposta e a autonomia desejada.


Interessante notar que, nos momentos em que Marian desafia normas ou se envolve em situações socialmente arriscadas, seu figurino se torna discretamente mais ousado para o padrão que a personagem vinha seguindo. Um decote levemente mais aberto, uma cor mais saturada, um acessório incomum — tudo calculado para que o espectador perceba a mudança, mesmo que os demais personagens talvez não comentem. Por outro lado, quando ela se vê em situações de vulnerabilidade ou precisa agradar figuras de autoridade como Agnes, o figurino recua para os tons claros e formas recatadas, como uma armadura socialmente aceitável.
Os materiais são igualmente simbólicos. Marian começa com tecidos mais simples e acessíveis, mesmo quando bem cortados, e aos poucos vai incorporando texturas que comunicam maior sofisticação: sedas mais brilhantes, rendas francesas, chapéus com plumas. Essa transição acompanha não apenas seu processo de adaptação, mas também a crescente habilidade de “ler” e “falar” a linguagem visual da elite nova-iorquina — algo crucial numa sociedade que julgava primeiro pela aparência.


No conjunto, o figurino de Marian é uma narrativa de transição e afirmação. Ele parte de uma estética quase provinciana e caminha em direção a uma sofisticação medida, que nunca a coloca na ostentação extrema de outras personagens. A moda, para ela, não é uma arma direta como para Bertha Russell nem um manifesto silencioso como para Peggy Scott; é um campo de experimentação e aprendizado. Cada vestido parece registrar uma lição social aprendida, cada acessório, um gesto de pertencimento testado.
No fim, Marian Brooks veste mais do que roupas: veste hesitação, curiosidade e a tensão constante entre quem esperam que ela seja e quem ela quer ser. E, agora, com uma paleta mais ousada e variada, ela parece dizer, ainda que silenciosamente, que está disposta a ocupar o próprio espaço — e talvez até a disputar o centro da cena.


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