Sunset Boulevard: 75 anos depois, o close-up ainda é nosso

Hoje, 10 de agosto de 2025, O Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard) completa exatamente 75 anos. É quase impossível dizer essa frase sem sentir um arrepio, porque não estamos falando apenas de um clássico “respeitável” que sobreviveu ao tempo. Estamos falando de um filme que nasceu para chocar, ferir e ao mesmo tempo fascinar — e que, sete décadas e meia depois, continua tão perfeito, tão implacável e tão atual quanto no dia em que foi exibido pela primeira vez. É quase poético que este aniversário caia num domingo. Dá vontade de fechar as cortinas, colocar a trilha de Franz Waxman e deixar Gloria Swanson entrar na sala, em 35mm ou em 4K, como se nada tivesse mudado.

Quando Sunset Boulevard estreou, em 10 de agosto de 1950, Hollywood já tinha passado pelo seu auge dourado e começava a encarar as cicatrizes. A televisão ameaçava o monopólio das salas, os estúdios já não eram impérios tão seguros, e a própria ideia de estrela estava mudando. Billy Wilder, com sua ironia refinada, resolveu fazer um filme que não apenas mostrasse essa mudança, mas que a dramatizasse até o limite. O roteiro, escrito com Charles Brackett e o então jovem crítico D. M. Marshman Jr., começou como uma ideia mais cômica, mas foi tomando forma de tragédia. E não uma tragédia qualquer: uma tragédia hollywoodiana, com a câmera apontada para dentro da própria indústria, expondo vaidades, obsessões, abandonos e fantasmas.

O elenco foi a peça final dessa máquina de precisão. Gloria Swanson, que brilhou no cinema mudo, não era uma escolha óbvia para uma produção grande de 1950. Mas foi justamente esse passado que Wilder quis capturar. Norma Desmond não é só uma personagem, ela é um retrato vivo de uma era que já não existe. É impossível olhar para Swanson no filme e não sentir que há algo de autobiográfico em cada gesto, cada frase, cada olhar. William Holden, como Joe Gillis, oferece o contraponto perfeito: um cínico pragmático, narrador já morto, que observa o espetáculo de Norma com mistura de interesse, pena e incredulidade. E Erich von Stroheim, como Max, é talvez a camada mais amarga dessa ironia: um cineasta lendário e visionário, agora reduzido a mordomo devotado, com a tarefa de manter viva a ilusão da estrela que ele mesmo dirigiu no passado — e que realmente dirigiu na vida real, no problemático Queen Kelly. Quando Norma mostra um de seus velhos filmes a Joe, o que vemos na tela é mesmo Swanson dirigida por von Stroheim. Essa fusão de ficção e realidade é uma das coisas que fazem Sunset Boulevard ser mais do que cinema: é uma autópsia do próprio cinema.

Nos bastidores, as histórias são tantas quanto as linhas perfeitas do roteiro. Há a célebre reação de Louis B. Mayer, magnata da MGM, que teria chamado Wilder de “aquele filho da puta” por “sujar o próprio ninho” e manchar a imagem da indústria. Wilder, com seu humor seco, respondeu à altura e sem recuar um milímetro. E há também a resistência inicial de algumas estrelas que foram cogitadas para Norma, mas não quiseram se ver associadas a uma personagem tão desesperada e decadente. A verdade é que só alguém com a coragem de Swanson poderia ter sustentado aquela performance sem se proteger por trás de vaidade.

A técnica do filme é outro espetáculo. A mansão de Norma, com seus corredores cheios de retratos, esculturas e cortinas pesadas, é quase um personagem por si só — um mausoléu vivo, onde o tempo parou e tudo existe apenas para reforçar a ideia de que a estrela ainda brilha. A fotografia de John F. Seitz é um manual de como usar sombras e luz para criar drama e atmosfera. E a música de Franz Waxman não apenas acompanha, mas comenta a ação: é melodramática quando precisa, irônica quando quer expor a farsa, trágica quando a verdade se impõe.

A recepção, na época, foi uma mistura de fascínio e incômodo. A crítica reconheceu a ousadia, mas alguns acharam o filme cruel demais, quase grotesco na maneira de retratar Hollywood. Mas a crueldade era justamente o ponto. Wilder não queria um retrato gentil. Ele queria que o público visse os ossos por baixo do glamour. Com o tempo, o que era visto como amargo demais se transformou em reverência. Hoje, Sunset Boulevard não é apenas lembrado como um dos melhores filmes de todos os tempos — é estudado como o filme que melhor falou sobre o próprio cinema.

Essa capacidade de se manter vivo é rara. Sunset Boulevard não depende de truques de época ou de modismos visuais. A sua perfeição vem da construção dramática, da precisão dos diálogos, da força das atuações. Norma Desmond continua a ser um símbolo universal da obsessão pela fama, e sua frase final — “All right, Mr. DeMille, I’m ready for my close-up” — ainda arrepia porque é ao mesmo tempo glória e ruína. Não é nostalgia que faz o filme resistir: é a honestidade de mostrar que o brilho das luzes vem sempre com sombras profundas.

Setenta e cinco anos depois, enquanto o filme ganha novas edições restauradas, reestreias em salas de cinema e discussões renovadas, é impossível não pensar no quanto Wilder foi visionário. Ele não só falou sobre o fim de uma era; ele falou sobre algo eterno na natureza humana: a necessidade de ser visto, a dificuldade de envelhecer sob os holofotes, a crueldade com que a mesma plateia que aplaude também vira o rosto. Por isso, hoje não é apenas um aniversário. É uma prova de que Sunset Boulevard é tão vivo quanto em 1950. E que, talvez, nenhum close-up final tenha sido tão merecido.


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