Chief of War: A Jornada de um Herói Trágico na História Havaiana

A excepcionalmente linda e densa série Chief of War vem sendo comparada à Game of Thrones e Shogun, o que não é nada injusto ou exagerado. A série que é para que os fãs de Jason Momoa (estou incluída) curtam seu carisma e liderança e não se decepcionem. Porque a série é em boa parte falada quase inteiramente em ʻŌlelo Hawaiʻi, o idioma nativo do Havaí, há quem a rejeite de primeira. Afinal, nem Momoa ou cenários de tirar o fôlego seriam capazes de superar o estranhamento, mas vem cá, quem fala japonês fluentemente para ter endeusado Shogum? O que é destaque em Chief of War, além da qualidade de produção e um elenco empenhado é que SIM, é uma história real. E fascinante.

Há personagens históricos que já nascem com vocação para o épico. E há outros que o tempo e a arte transformam em lenda. Kaʻiana-a-Ahuʻula, chefe nobre havaiano do fim do século 18, é os dois ao mesmo tempo. Na vida real, foi guerreiro de alta linhagem, estrategista militar e o primeiro líder havaiano a atravessar oceanos e conhecer o mundo além do arquipélago. Na ficção de Chief of War, ele é o fio condutor de uma narrativa que é, ao mesmo tempo, drama de guerra, crônica política e ato de afirmação cultural. Vale conhecer sua história, mas há spoilers.

O homem por trás da lenda

Historicamente, Kaʻiana nasceu por volta de 1760, de família real, e cedo se destacou como guerreiro. Sua grande diferença estava na experiência única: viajou para China, Filipinas, Alasca e América do Norte — uma façanha impensável para a nobreza havaiana da época. Trouxe armas, técnicas e uma visão de mundo que o tornariam peça-chave nas guerras de unificação sob Kamehameha I.

Foi aliado leal do futuro monarca, lutando em batalhas decisivas como Mokuʻōhai e Kepaniwai. Mas a política é volúvel: intrigas, disputas de poder e, segundo alguns registros, desconfianças mútuas acabaram rompendo a aliança. Kaʻiana uniu-se a forças rivais e morreu em 1795, na Batalha de Nuʻuanu, atingido por tiros de canhão — ironicamente, armas que ele mesmo ajudara a introduzir no Havaí. Por isso sua imagem no episódio 4 da 1ª temporada é tão indicativa para quem sabe o que vem pela frente.

O Kaʻiana de “Chief of War”

Na série da Apple TV+, Jason Momoa cria um Kaʻiana mais introspectivo e relutante. Ele começa afastado das lutas, tentando evitar o chamado da guerra, até ser arrastado de volta por alianças, profecias e pressões familiares. O roteiro enfatiza dilemas morais, afetivos e espirituais, dando mais peso à vida íntima e aos rituais do que aos feitos puramente militares.

O Kaʻiana da tela é menos o comandante implacável dos registros e mais o homem dividido entre dois mundos: o Havaí tradicional que o formou e a inevitável influência externa que ele já conheceu. A tensão central não é só “vencer ou perder a guerra”, mas “preservar ou perder a alma de um povo”.

Kaʻiana e o arquétipo do herói trágico

Colocar Kaʻiana ao lado de William Wallace (Coração Valente), Ned Stark (Game of Thrones), Maximus (Gladiador) ou Toranaga e Blackthorne (Shōgun) não é exagero. Todos carregam sobre si o peso de uma era, lutam por algo maior que eles próprios e pagam caro por sua integridade.

A semelhança está no senso de dever, no código moral e na disposição para enfrentar forças muito maiores. A diferença é que Kaʻiana não é moldado pela vingança ou pela ingenuidade política: ele é movido por uma consciência rara para o seu tempo, ciente de que toda vitória vem com perdas — e de que o maior inimigo pode ser a transformação cultural irreversível que se aproxima.

O épico visto de dentro

Ao contrário de muitos dramas históricos, Chief of War recusa o filtro de um olhar estrangeiro para “explicar” o Havaí ao público. Tudo é contado de dentro, no ʻŌlelo Hawaiʻi, com rituais, figurinos e códigos sociais respeitados ao detalhe. Isso aproxima o espectador não como turista, mas como convidado.

Essa perspectiva muda o impacto do épico: onde Shōgun encanta pelo jogo político e Coração Valente pelo grito de liberdade, Chief of War comove por ser um povo narrando sua própria história. Kaʻiana não é só um herói militar — é símbolo de uma identidade que sobreviveu à guerra, à colonização e ao apagamento cultural.

Um manifesto em forma de drama

Sim, há batalhas grandiosas, lutas brutais e cenas de tirar o fôlego. Mas o verdadeiro coração de Chief of War está no que ela significa: um reencontro do Havaí com a própria memória. Ao transformar Kaʻiana em protagonista, a série resgata um homem que viveu no limite entre tradição e mudança — e o apresenta não como nota de rodapé da história, mas como figura central de um capítulo decisivo.

Se todo épico precisa de um herói trágico, Chief of War encontrou o seu. E, ao contrário de muitos, este não nasceu para servir de entretenimento para outros. Ele nasceu para lembrar quem conta a história — e por quê.


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