Ninguém realmente acredita que Michael Patrick King e Sarah Jessica Parker planejaram terminar a história de Carrie Bradshaw na terceira temporada — e os trinta minutos mais arrastados de todos os episódios comprovam a suspeita. No fiapo de enredo que tentaram usar para nos entreter, como fizeram tão brilhantemente em Sex and the City, o ritmo pareceu interminável.
Errei em todas as previsões: não houve Samantha, não houve grandes gestos. Carrie, que buscava aquele “zsa zsa zum”, está sem fôlego, sem curiosidade, sem apelo. A despedida foi — desculpem a repetição — “sem alma”, sem tesão, sem graça. O momento de maior destaque foi literalmente ver cocô boiando e saindo do vaso da casa de Miranda, imagem perfeita para resumir o final de And Just Like That: uma bosta. Desde quando a série passou a ser tão gráfica?
Para piorar, houve a pretensão de um questionamento mais profundo, do tipo que a Carrie original sabia fazer tão bem.

Encontramos Carrie nostálgica e confusa, pressionada pelo fato de estar sozinha. Ela almoça em um restaurante futurista (vou atualizar a agenda) e, mesmo cercada por tecnologia e robôs, é confrontada pela própria solidão. Conversando com Charlotte, pela primeira vez em anos menciona o nome de Big com algum respeito — não disse que Aidan era melhor na cama, por exemplo — e confessa que nunca imaginou terminar sozinha. Mesmo quando ficou viúva, apostou que encontraria outro amor e mergulhou de cabeça em Aidan. Quando deu errado, havia Duncan. Mas agora estaria cansada de querer alguém? Ou será que esse desejo é apenas mais uma programação social imposta às mulheres?
Essa foi uma das queixas feministas históricas contra Sex and the City: no fim, as quatro protagonistas terminaram casadas ou namorando, contrariando a torcida de quem queria vê-las plenamente independentes. Guarde essa anotação.
Depois de passar a temporada inteira reclamando de Herbert, Lisa decide não se envolver com o editor e apostar no casamento. Menciono apenas porque sua trama nunca se encaixou de verdade na série.
Charlotte e Harry fogem do Thanksgiving na casa de Miranda, estão felizes e, com o retorno das ereções dele (sim, esse foi o nível de subtrama), o sexo volta à rotina dos Goldenblatts. Rock decide seguir a carreira de atriz, enquanto Lily permanece no limbo narrativo.



Seema e Adam seguem na vida perfeita até que ela se decepciona quando ele diz não acreditar em casamento. Isso acontece justamente quando ela acompanha Carrie, Lisa e Charlotte a um desfile de vestidos de noiva. Emocionada, confessa que sonhou com casamento desde menina e, aos 60, ainda carregava esse desejo. Mas com Adam, não se tornará realidade. Pergunta a Carrie por que ela quis se casar e ouve: “para me sentir escolhida”. Foi um dos melhores diálogos das três temporadas — ainda que reciclado de um episódio de SATC. Na mesma cena, Lisa e Charlotte conversam sobre como o cotidiano mata o amor; Charlotte, fiel ao seu perfil, continua acreditando no casamento, e Lisa acaba concordando. Fim de Lisa.
Na manhã de Thanksgiving, Carrie encontra Adam e questiona seus planos com Seema. Ele responde que quer passar a vida ao lado dela, e Carrie se emociona. Giuseppe e Anthony estão bem, o que nos leva a Miranda.
O arco de Miranda foi um desastre para a série, e isso é inegável. Todos desistiram de ir ao Thanksgiving em sua casa, inclusive Joy, que inventa uma emergência com os cachorros. Brady ainda mal fala com a mãe, irritado por ter que passar o feriado com a garota que engravidou e mal tolera. Steve e Miranda jantam juntos na noite anterior e comentam como será estranho serem avós, mas que “vai dar tudo certo”. Duvido.

Como em todo Thanksgiving, o drama é garantido. Miranda desiste da própria festa para correr atrás de Joy, deixando Carrie como anfitriã para Brady e amigos estranhos. Há também um candidato a namorado, arrumado por Charlotte, mas sem química alguma. Ainda assim, Carrie mantém a postura: responde certo, é educada e prestativa. Quem é essa mulher?
Miranda retorna, ri com Carrie, e Joy aparece, indicando que a advogada talvez tenha acertado no amor. Teve, sim, a cena do cocô já mencionada, e Carrie volta sozinha para sua casa enorme.
Ela olha para o espaço só seu. Não precisa tirar os saltos, já que não há um Duncan reclamando do barulho. Está sozinha. O que faz? Pega a máquina de karaokê que Miranda deixou como presente, coloca You’re the First, My Last, My Everything de Barry White e dança sozinha. Depois vai ao computador e apaga o epílogo que estava escrevendo: “A mulher não estava sozinha: estava por conta própria.” Assim termina para sempre a história de Carrie Bradshaw, com os créditos embalados pela música icônica de Sex and the City.
Quando foi que SJP e MPK se desconectaram tanto dos fãs? Em três temporadas, não entregaram um único episódio realmente bom. Todos foram ruins, apressados ou desconjuntados. Erraram na inclusão, erraram nas correções, erraram em tudo — e ainda conseguiram arranhar profundamente uma franquia que um dia foi querida e icônica.
No fim, And Just Like That não foi um renascimento, mas um epitáfio. Não celebrou a evolução de Carrie, Miranda e Charlotte; reduziu-as a caricaturas desajustadas de si mesmas. Perdeu o timing, o charme e, sobretudo, a conexão com quem um dia acompanhou cada passo, cada salto alto e cada metáfora de Carrie Bradshaw. O adeus não foi doce nem agridoce — foi vazio. E isso, para uma série que mudou a forma como víamos a vida adulta, é a verdadeira tragédia.
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nossa, os criticos de cinema sao muito rigidos, que pessoas amargas
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às vezes sim…
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Concordo sobre os episódios, sobre algumas tramas, mas no auge dos meus 25 anos (kkkk) o que vejo é que isso ai é a vida. Entre altos e baixos, amores e ódios, a gente está sozinho, confuso e mudando ao longo da vida…
O que vejo de mais diferente é que o spinoff se propos a ser mais real com as personagens, aproximando do que acontece no dia a dia, sem tanto glamour. No final, estaremos todas buscando nosso desejo, em conflito com a maternidade, com a familia, se descobrindo. A vida nao vai ser sempre sobre estar na noite, buscando um namorado, apartamento ou trabalho…
Muitas cenas ali se conectaram mais com as narrativas que escutei das mulheres que tenho contato: minha mãe, tias, amigas. Foi definitivamente outra proposta de serie e historia. Nunca vai agradar a todos 🫠
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Oi Leya, a intenção era de falar com as mulheres de 60… mas falaram mesmo ou apenas zoaram os Zs? SATC explorava os temas perfeitamente em 30 minutos com várias perspectivas, aqui as ideias passaram pela tela, mas poucas engrenaram. Até a solidão – ou melhor, autonomia – de Carrie ficou incompleta. A fórmula de SATC era perfeita, eles não tinham que mexer nela: off apresentando o questionamento, várias vertentes sobre o problema, uma conclusão mesmo que aberta. Carrie era a protagonista, ela conduzia o dilema da semana. Aqui jogaram vários problemas com cada personagem indo para lugares diferentes. É a vida, mas não é o que a série era ou se propôs a ser…
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