A temporada do corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro traz para os palcos uma produção que foge da obviedade e desafia tecnicamente seus artistas: Le Corsaire ou O Corsário, uma escolha que revela ousadia, inteligência artística e confiança em seu elenco.
O ballet completo não está entre os cinco títulos mais recorrentes dos teatros do mundo — O Lago dos Cisnes (que abriu a temporada de 2025), A Bela Adormecida , Giselle, Dom Quixote e O Quebra-Nozes (que encerrará o ano, como tradição). Ainda assim, figura entre os dez principais clássicos de repertório. Trata-se de uma obra que sintetiza o auge criativo de Marius Petipa, fascinado pelo exotismo da narrativa, e que criou variações e conjuntos desafiadores, exigindo maturidade e virtuosismo. O Corsário é, em especial, um espetáculo de bravura masculina — com grandes variações para homens e um pas de trois virtuosístico — o que o torna perfeito para acompanhar de perto a formação de uma nova geração de bailarinos que se consolida diante dos nossos olhos.


É prazeroso constatar que o Theatro Municipal atravessa uma fase admirável. Mesmo diante de dificuldades financeiras e estruturais, a companhia encontrou caminhos de resistência e criatividade: ingressos populares, calendário intenso e, sobretudo, a coragem de encarar grandes clássicos do repertório.
Em 2022, o Municipal foi pioneiro ao apresentar no país a versão estendida de O Corsário. Agora, em sua terceira montagem, a companhia exibe uma uniformidade técnica e artística empolgante. Ao escolher um título divertido, complexo e culturalmente desafiador — em vez de se limitar ao circuito mais frequente — o resultado é um risco que se transforma em triunfo.
Brilho coletivo e individual
Nesta temporada, o elenco demonstrou solidez em cada detalhe. Alyson Trindade (Conrad) e Mateus Imperial (Ali) imprimiram vigor atlético e precisão técnica; Michael William (Lankendem) trouxe teatralidade cativante; Ana Luíza Azer (Gulnara) conferiu lirismo e delicadeza. Mas é inegável: a estrela é Marcella Borges, em Medora. Com leveza, carisma e musicalidade, ela se afirma como uma das grandes solistas da companhia, iluminando cada aparição em cena.

Figurinos e luz: uma festa para os olhos
Se a narrativa de O Corsário carrega estereótipos de outra época, a montagem compensa com um requinte visual arrebatador. Os figurinos são um espetáculo à parte: ricos, coloridos, de grande impacto cênico. A iluminação, precisa e inventiva, valoriza tanto os solos quanto os conjuntos, criando atmosferas de aventura, exotismo e sonho.
A força da renovação
Mais do que um espetáculo, esta montagem simboliza o vigor de uma companhia que insiste em formar artistas de altíssimo nível. A cada dois meses, o público carioca tem a chance de ver um ballet completo no palco histórico do Municipal — feito notável em qualquer parte do mundo. A companhia, formada por jovens oriundos da Escola de Dança Maria Olenewa, prova que disciplina, talento e diversidade são combustíveis para uma cena artística vibrante.



Assim como ressaltei em O Lago dos Cisnes, é preciso destacar o impressionante desenvolvimento do grupo masculino. Em nossa cultura, ainda é difícil para bailarinos homens encontrarem apoio e oportunidades, apesar do sucesso histórico de tantos brasileiros no exterior. Ver um conjunto masculino tão consistente crescer diante do público é emocionante. Dito isso, para quem cresceu vendo nos palcos lendas como Ana Botafogo, Aurea Hammerli, Nora Esteves e Cecília Kerche, depois Roberta Marquez e hoje acompanha a força de Márcia Jaqueline, Manuela Roçado, Juliana Valadão e, em especial, Marcella Borges, é inspirador testemunhar essa continuidade.
Com O Corsário, o Theatro Municipal entrega mais que um espetáculo memorável: reafirma sua função essencial como espaço de formação, ousadia e beleza. Em tempos de escassez, assistir a tanto esplendor é um privilégio raro. A temporada segue até o dia 24 de agosto. Imperdível.
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